OPINIÃO
19/01/2015 13:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

A nova tradicional família mineira

Axel Fassio via Getty Images

Presente na literatura, na pintura e principalmente nas vidas das pessoas, a Tradicional Família Mineira (TFM para os íntimos) causa emoções conflitantes. De uma lado, há os que não conseguem se ver fora dela (imagine viver!). De outro, os que desafiam o establishment desse modo de vida peculiar das Minas Gerais se veem ora como vítimas, ora como assassinos dessa cultura. O arrasador e impiedoso século XXI chegou e colocou à prova a mais tradicional e conservadora das culturas do Brasil: a família mineira.

Para sobreviver à modernidade, a TFM se adaptou a um novo modelo, que integra a internet, evolui em alguns aspectos, mas não descarta suas peculiaridades. Começando pelo mais importante, a fundação da sociedade mineira e item definidor de quem é in e quem é out: o sobrenome. Não basta ter ruas e avenidas homenageando antepassados, o seu império tem que ser visto nas festas e revistas das cidades. Sim, porque não existe maior vitrine da TFM do que as revistas que circulam e exibem os casamentos quase-reais, bodas, debutantes e condecorações dos figurões e suas famílias. Aqui, se não tem fotos, não aconteceu.

Se sair na revista é importante, o local onde mora é quase mais importante ainda. Esqueça novos bairros, principalmente na Zona Norte. Lourdes, Mangabeiras, Funcionários são os preferidos, além do Belvedere e divisa com Nova Lima. Esse é o habitat natural da TFM, que vez ou outra vai a outros cantos da cidade para mostrar os motivos de sua realeza: riqueza, prestígio e beleza.

Mas, convivendo com membros e sob a égide da sua influência, pude perceber algumas mudanças que vão desde assimilação de novas características até mesmo novos padrões de aceitação. Para a Nova TFM, permanece o tradicional rol de cursos universitários aceitáveis: Direito, Medicina e Engenharia Civil. Aos poucos, novos cursos são aceitos, como Administração (afinal, alguém tem que administrar a herança da família), Engenharias mais técnicas e até mesmo Relações Internacionais. As clássicas universidades também permanecem, permitindo a inclusão de novas, contanto que a mensalidade esteja na casa dos milhares de reais.

A religiosidade, tão presente na vida dos mineiros, seja na arte ou na história, também sofreu com a chegada da nova TFM. Enquanto a maioria permanece católica, uma parcela considerável se converteu ao protestantismo, aderindo a novas igrejas evangélicas. Quando a religião não fez parte da educação familiar, não é anormal ver novos membros pouco praticantes do cristianismo, embora sejam aceitos com olhares de dúvidas e hesitação. Já ouvi de um mineiro: "Minha avó não liga de eu ser gay, mas se souber que sou ateu, ela me mata!"

No entanto, a principal mudança com relação à nova TFM diz respeito aos novos estilos de vida. Já se vê o homossexualismo com olhos mais aceitáveis do que antigamente, embora ainda seja muito comum a frase: "nada contra gays, tenho até alguns amigos que são". Por trás dessa confissão fajuta se esconde o mal enraizado da cultura mineira: o conservadorismo. Lentamente, ele vem sendo combatido, seja pela presença de novas opções de vida, seja pela educação "mente aberta" de alguns poucos membros. Um dos melhores aliados para isso é o intercâmbio cultural, algo que insistentemente os membros da nova TFM fazem e refazem. É ao conviver com novas perspectivas de vida que o conservadorismo e o julgamento moral e diário presentes na vida dos mineiros é atacado em sua raiz. A poeira do baú do tradicionalismo é remexida a cada ida e vinda de seus membros ao exterior (algo que o Programa Ciências Sem Fronteiras aprofundou ainda mais), ainda que ao preço de muitas selfies e posts nas redes sociais.

Seja visitando o Inhotim e postando a foto no Instagram ou passando pelo Café com Letras e vendo a multiplicidade de tipos e estilos, a nova TFM está mudando a cara e o corpo da mineiridade. De agora para frente, que essa cultura consiga se adaptar ao novo mundo e siga sendo tão peculiar e especial para os mineiros.

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