OPINIÃO
09/07/2015 11:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Os dinamarqueses sempre resolveram as diferenças políticas na mesa do bar, mas o novo governo está aumentando a polarização

KELD NAVNTOFT via Getty Images
Danish Prime Minister Helle Thorning-Schmidt and and opposition leader Lars Loekke Rasmussen (L) take part in their first one-on-one debate during the Danish election in Copenhagen on May 31, 2015. The debate was set up in a temporary television studio outside the Danish Parliament building where supporters of the two parties cheered their candidates. AFP PHOTO / SCANPIX DENMARK / KELD NAVNTOFT +++ DENMARK OUT +++ (Photo credit should read KELD NAVNTOFT/AFP/Getty Images)

COPENHAGUE - Nenhum país celebra sua democracia como a Dinamarca. Mas será que essa democracia ainda merece ser celebrada?

Durante as eleições do país no mês passado, os eleitores tiraram do poder o governo de centro-esquerda e elegeram em seu lugar o Partido do Povo, de extrema direita. Os direitistas exigem a reintrodução de controles permanentes de fronteira com o resto da União Europeia. O número de pedidos de asilo dobrou, passando de 14 000, e a Dinamarca já aumentou as restrições para refugiados de zonas de conflito, como a Síria. Agora, os partidos de direita estão negociando uma estratégia que faria da Dinamarca um dos países menos acolhedores para imigrantes em todo o Norte da Europa.

Esse esforço para dificultar a vida dos imigrantes coincide com uma crescente insatisfação dos dinamarqueses em relação a sua celebrada democracia. Autoridades locais e regionais têm poderes limitados, e os dinamarqueses têm direitos limitados de voto em questões de grande importância - enquanto o uso de plebiscitos e referendos aumenta no resto do mundo. Deve ser esse o motivo pelo qual quase 70% da população do país não acha que suas opiniões não são levadas a sério no que diz respeito às decisões importantes, segundo uma nova pesquisa do departamento nacional de estatísticas.

Esse descontentamento representa uma mudança notável para a população dinamarquesa, considerada uma das mais felizes do planeta, segundo o Fórum Econômico Mundial e a ONU. Ela certamente está entre as mais envolvidas: 3,6 milhões dos 4,1 milhões de eleitores do país participaram da última eleição entre dez partidos - uma taxa de quase 86% (o voto não é obrigatório no país).

Por tradição, os eleitores demonstram seu engajamento esperando os resultados das urnas com um copo de cerveja na mão. Os partidos adversários se reúnem no Parlamento, para a "Noite da Democracia", ou "Snapstinget"--literalmente, o Parlamento do Destilado.

Cobri a eleição para a Swiss Broadcasting Company e, na noite da eleição, me vi cercado por dinamarqueses felizes, gritando:

"Tillykke! Skål!"

Em dinamarquês, isso significa "boa sorte!" e "saúde!". À minha volta, homens e mulheres de todas as idades brindavam com corpos de plástico cheios da cerveja local, Carlsberg, a corporação global que criou o slogan: "Provavelmente a melhor cerveja do mundo". (Hoje, a empresa tenta aumentar seu alcance fabricando xampus e loções corporais à base de cerveja. Os anúncios dizem que os consumidores devem "tomar banho com responsabilidade".)

A bebedeira concluiu um curto período eleitoral acompanhado por uma enorme campanha de envolvimento do público, que foi muito além de atividades e eventos organizados pelos partidos. Por tradição, muitas associações e empresas usam o período eleitoral para realizar debates e campanhas informativas e para discutir questões de interesse público. Semanas antes da eleição, a população do país pode participar de um café-da-manhã democrático numa fazendo, de trivias políticas organizadas por jornais ou de happy hours com candidatos no bar local. Essas oportunidades são chamadas hygge, uma palavra que significa algo como "divertir-se em grupo".

A autora britânica Helen Russell, que escreveu The Year of Living Danishly: Uncovering the Secrets of the World's Happiest Country (o ano em que vivemos como dinamarqueses: descobrindo os segredos do país mais feliz do mundo, em tradução livre), tem argumenta algo parecido: "Os dinamarqueses têm um contentamento profundo consigo mesmos e com suas vidas, o que cria solidariedade e faz as pessoas confiarem mais umas nas outras". Ela acrescenta que "a felicidade, na Dinamarca, é vista como um processo, não como um estado permanente; é algo pelo qual você trabalha diariamente, curtindo ao máximo cada pequena coisa, deliciando-se com sexo ou doces, trabalhando menos e passando mais tempo com a família".

À 1h, a multidão comemorou a chegada dos líderes partidários: a estilosa premiê Helle Thorning Schmidt, que ficou famosa por tirar uma selfe com Barack Obama e David Cameron no funeral de Nelson Mandela na África do Sul; Lars Løkke Rasmussen, líder do partido liberal e ex-primeiro ministro, assombrado por escândalos de gastos impróprios; e os líderes de sete outros partidos.

"Skål igen" ("saúde de novo"), gritou no meu microfone uma loira do partido conservador, depois de descobrir que seu partido voltaria a ser representado no Parlamento.

Essas comemorações têm partes boas e ruins. Com certeza, uma alta participação dos eleitores em um sistema político representativo (menos de 1% dos votos foram para partidos que ficaram sem cadeiras no Parlamento) merece um brinde.

Mas, embora essas celebrações mostrem uma alta coesão social, elas também são expressão de uma sociedade cada vez mais introvertida, ocupada e talvez contente demais consigo mesma, de uma maneira egoísta e provincial. Essa é uma explicação para o resultado.

Existe uma razão histórica para essa intersecção de introversão e democracia. O país se tornou uma democracia moderna só depois de superar suas ambições coloniais e imperiais - e depois de se limitar a ser um Estado menor e homogêneo, com apenas uma língua e uma igreja oficiais. Outro fator é o caro Estado de bem estar social. Há muito tempo, o bem estar social era um projeto progressista, mas hoje ele é um tema dos conservadores - e o partido de extrema direita e anti-imigração, seu maior defensor. O mesmo é verdade em outros países nórdicos, com partidos de extrema direita no poder na Noruega e na Finlândia.

A boa notícia é que a política dinamarquesa exige consenso. Como vi (e bebi) na noite da eleição, o antigo governo de centro-esquerda perde o poder por apenas um assento e renunciou na hora - com um sorriso. A premiê provavelmente será sucedida por Lars Løkke Rasmussen, que a parabenizou calorosamente e começou as conversas para montar uma nova coalizão naquela mesma noite. Mas o trabalho de verdade teve de esperar até a próxima rodada.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.