OPINIÃO
17/05/2014 20:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Sábado em Cannes tem crítica ao sexismo no cinema e filmes com boas chances de levar prêmio

A tarde deste sábado em Cannes teve a exibição de dois filmes com chances reais - por motivos diferentes - a levar a Palma de Ouro. E uma crítica da diretora do júri ao sexismo no cinema.

ASSOCIATED PRESS
FILE - In this Sept. 13, 2009 file photo, director Jane Campion poses for a portrait at the 34th Toronto International Film Festival in Toronto. (AP Photo/Carlo Allegri, file)

A tarde deste sábado em Cannes teve a exibição de dois filmes com chances reais - por motivos diferentes - a levar a Palma de Ouro. O primeiro deles é Winter Sleep, do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, que mesmo antes do início do festival já era o filme mais cotado para o prêmio em uma importante casa de apostas de Londres. O cineasta é queridinho de Cannes, onde já ganhou duas vezes o Grande Prêmio do Júri e o troféu de melhor diretor. Falta só a própria Palma.

O outro é Le Meraviglie, da cineasta italiana Alice Rohrwacher. Neste caso, as chances não são tanto assim pelas qualidades do filme, mas pelo fato de ser um dos dois únicos filmes no elenco dos que disputam o prêmio principal dirigido por uma mulher, o que pode sensibilizar o júri presidido pela diretora Jane Campion (ela mesma a única representante do sexo feminino a levar uma Palma de Ouro na história, em 1993, por O Piano).

Conhecida por filmes com personagens femininas fortes e temáticas feministas, Campion já havia deixado claro na coletiva de imprensa sua insatisfação com o tratamento da indústria cinematográfica reservado às mulheres. "Existe um sexismo inerente a essa indústria. É muito pouco democrática, e as mulheres percebem isso com clareza", disse a cineasta.

Mas para a tristeza de Campion, o filme da italiana teve recepção fria na sua primeira exibição em Cannes. Não é para menos: é uma trama narrada de maneira pouco cuidadosa - Rohrwacher parece mais interessada em fazer um "filme de arte" que propriamente contar uma história. Sua narrativa tem lapsos que dificultam a compreensão da trama - ela é muito mais inclinada a criar cenas sensoriais que narrativas. Ok, é uma opção estética válida, mas desde que o realizador consiga criar imagens que satisfaçam plenamente os sentidos - o que nem sempre é exatamente o caso da diretora. A trama mostra uma família de apicultores em uma ilha italiana que se inscreve para um prêmio agrícola regional. O grupo é formado por quatro filhas, um pai mal humorado, uma mãe ausente e uma agregada - além de um delinquente que ajuda o clã na lida diária. A deslumbrante Monica Bellucci (que quanto mais velha fica mais se parece com Ava Gardner) faz participação especial.

O filme tem lá seus momentos, sobretudo nas cenas que envolvem as duas filhas mais velhas; há duas ou três sequências que são realmente de altíssimo nível, mas dar ao longa o prêmio principal seria um enorme exagero (é possível que o outro filme dirigido por mulher no festival, Still the Water, da japonesa Naomi Kawase, tenha mais chances de vitória - até porque a cineasta adora fazer filmes que agradam os jurados).

E por falar em agradar os jurados, o outro filme do dia, o turco Winter Sleep, recebeu vários elogios. Já era de se esperar, já que o longa tem aquele jeitão que os festivais adoram. Imagens lindas (se passa na Anatólia), ritmo lento, diálogos inteligentes e profundos... qualquer júri se sentiria orgulhoso de premiar um filme assim. De mãos vazias não deve sair.

No fundo, seria bom que os jurados desta edição se abrissem a filmes menos "palmáveis". Mas Jane Campion e seus colegas de júri não tem lá muita cara de quem gosta de surpreender. Mas vai saber?