OPINIÃO
09/06/2014 10:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Os protestos chegam ao cinema em "Junho" e "Rio em Chamas"

É inegável que a sensação do "estamos mudando o país" perdeu consideravelmente a força. Estreiam dois registros importantíssimos e necessários sobre os acontecimentos do ano passado.

Reprodução

Passado um ano das manifestações de junho de 2013, é inegável que a sensação do "estamos mudando o país" por meio de protestos perdeu consideravelmente a força. Para os manifestantes de primeira viagem, o gosto de novidade acabou, e mesmo os que viam glamour em participar de protestos agora talvez os achem algo enfadonho. Gostemos ou não da ideia, não é exagero dizer que o "ir às ruas" se banalizou; ninguém sabia bem até onde se poderia ter ido, mas o fato é que se parou antes do fim.

"Foi uma ejaculação precoce", como bem diz, com invejável poder sintético e metafórico, o poeta Sergio Vaz, um dos entrevistados do documentário Junho, que estreia nesta quinta no país. O filme, dirigido pelo fotojornalista João Wainer, se junta a Rio em Chamas, obra coletiva assinada por 12 cineastas/militantes, disponível na web e em cartaz no Rio, como dois registros importantíssimos e necessários sobre os acontecimentos do ano passado. Com muitas imagens de gente nas ruas e opiniões diversas (e, claro, desencontradas) de entrevistados, os dois mostram que, um ano depois, já dá para ter algum distanciamento crítico de tudo aquilo, mas que as paixões não foram abrandadas; é até possível que as opiniões que cada um tinha na época tenham continuado as mesmas, e ainda com mais intensidade.

Wainer é fotojornalista da Folha de S.Paulo, uma das produtoras de Junho. Seu documentário se concentra nos eventos específicos de junho, principalmente na capital paulista, com muitas imagens do programa TV Folha na época dos protestos e com entrevistas com jornalistas e intelectuais que teorizam e "explicam" o que aconteceu.

Rio em Chamas é um híbrido de documentário e ficção, que se debruça mais especificamente sobre as manifestações cariocas, não só as de junho, mas algumas de antes e de depois. Há depoimentos de ativistas e algumas pessoas (possivelmente intelectuais e artistas) não creditadas, e o foco é sobretudo sobre a violência da polícia contra os manifestantes.

Os dois filmes não poderiam ser mais diferentes, e é muito engraçado observar como cada um traz as marcas das cidades onde foram concebidos; são praticamente esterótipos da forma paulistana e carioca de fazer as coisas. Junho é perceptivelmente um filme realizado com recursos e busca em intelectuais renomados o respaldo para o que quer mostrar. É bem estruturado, feito com capricho e fruto de um admirável trabalho jornalístico. Mas apesar do aspecto descolado e do ritmo frenético, é em essência um filme meio "almofadinha", às vezes até conservador; nem precisava trazer nos créditos ser produzido por um grande jornal, muito embora consiga um olhar um tanto imparcial na maior parte do tempo (e tenha também um certo humor que a "Folha" raramente tem).

Rio em Chamas é uma verdadeira bagunça; tem uma estrutura (tem mesmo?) caótica e muitos trechos de filmagens que seriam pérolas, mas que dão a impressão de estar meio jogados pelo filme. Baseia-se em grande parte no que parecem ser meros achismos - mas são achismos inteligentes, articulados, e o filme, em sua precariedade, tem grande vigor. E também charme (embora tenha uma confiança na própria capacidade de sedução muitas vezes maior que a admiração de quem está de fora). Se Junho é como ler uma matéria bem embasada da Folha sobre os eventos do ano passado, Rio em Chamas seria o equivalente a saber do que houve pelos amigos, em uma conversa de bar.

Não são exatamente dois filmes que dialogam, mas, de uma maneira muito curiosa, ambos se complementam. E têm algo em comum: mesmo cientes de que não poderia dar em boa coisa uma mesma passeata formada por militantes de extrema esquerda, da direita, dos "manifestantes-de-selfies-de-Instagram" e dos black blocs, ambos partem do princípio de que pelo menos as pessoas se uniram para dar voz a sua insatisfação. E, assim, mostraram o seu poder.

Em termos técnicos, Junho é notável. Wainer faz um uso inteligente da montagem, com técnicas oriundas dos formalistas russos. Traz imagens e até movimentos de câmera surpreendentemente sofisticados para registros de passeatas. As opiniões são todas sensatas (mesmo as de Demétrio Magnoli e Luiz Felipe Pondé), e o filme evita um alvo só, girando sua metralhadora em quase todos os ângulos: Haddad, Alckmin, Dilma, o Senado, a Polícia... Até a imprensa é duramente criticada (a Folha inclusive), chamada de adesista, já que de uma hora para a outra passou a ter um discurso pró-manifestações ao se dar conta do grau de insatisfação popular.

Mas ainda assim, apesar de certa irreverência, Junho traz em si um quê de "História com H maiúsculo". Uma história oficial que seria bem diferente caso as pessoas não tivessem celulares e câmeras e registrassem o que houve por outro viés. Apesar de mostrar o quanto as mídias alternativas foram importantes no processo, o filme é quase que uma ode ao jornalismo tradicional como testemunha da história. "Estivemos lá, participamos de tudo, agora mostramos ao público", grita o filme, orgulhoso, saindo também em defesa de quem foi às ruas e não ficou quieto. Mas essa postura não é muito diferente daquela que Wainer recrimina nos veículos de comunicação: a de fazer "média" com a população, deixando claro que as manifestações são importantes e que quem participou contribuiu para um país melhor. Pode até ser uma opinião sincera de Wainer (e parece que é mesmo), mas o filme, em sua "correção", em seu equilíbrio, tem nas entranhas um ranço de "versão oficial" que o alinha com a grande imprensa. Além disso, trata de forma superficial algumas questões importantes dos desdobramentos daquele junho e até do que o levou a entrar em erupção (o filme mostra a insatisfação do brasileiro como surgindo a partir das lutas pelos 20 centavos; no fundo, é possível que tenham começado já em abril de 1500).

Talvez se ele fosse um pouco mais visceral - e até parcial - não seria assim. E nesse sentido, Rio em Chamas, apesar de seus (muitos) defeitos, é um filme superior. É um filme-manifesto, então esperar uma visão não-maniqueísta seria um sinal de idiotice. A dualidade é clara: os bandidos são a PM, o governo e a prefeitura do Rio; os mocinhos são quem foi às ruas protestar, dos mais pacíficos aos "baderneiros". O longa nos diz que o importante era não se calar diante da truculência policial e ganhar a cidade, com ou sem máscaras, sabendo ou não contra o que se estava protestando. Mesmo que a falta de um discurso realmente articulado pudesse minar a força da movimentação popular (como de fato aconteceu).

Limitada como toda dualidade é, a do filme é bem menos que as demais - beira o impossível concordar com os abusos por parte da PM em várias situações mostradas em muitas imagens do filme (e em várias oriundas de veículos de fora da grande imprensa, como a Mídia Ninja).

Cinematograficamente, é uma obra bastante problemática. Mas o desleixo parece antes uma opção de estilo - e se não era, virou involuntariamente uma; para um filme feito tão no calor do momento, o "caótico" é, além de aceitável, talvez até necessário. Optar por um estilo muito enquadrado, certinho e limpinho para um filme "contra tudo o que está aí" possivelmente não seria uma das melhores ideias (e, ao julgar por Junho, não era mesmo).

Rio em Chamas foi concebido e realizado com a participação de vários cineastas (consta que 12, embora mais nomes de autores apareçam nos créditos), entre eles Daniel Caetano, Eduardo Souza Lima e Cavi Borges. E, é óbvio, como todo trabalho colaborativo, se ressente de uma unidade, de uma visão de fato consistente. Mas também isso vem a calhar: os protestos por acaso tinham alguma?

Uma sequência logo no comecinho faz um resumo de como tudo aconteceu desde junho e como a coisa toda se prolongou logo em seguida. O tom é didático, e embora as falas sejam ditas enquanto amigos comem uma sintomática pizza e bebem cerveja, a cena não poderia ser mais artificial. Parece péssimo (e é mesmo), mas é um tipo de artificialidade semicômica que se assemelha à que Godard praticava em seus filmes pré-1968, principalmente A Chinesa (parece antes uma citação que propriamente uma imitação). Mas também isso amplia a noção de filme "não oficial" e opera a seu favor. (E a retrospectiva mostrada na cena, por mais parcial que seja, convenhamos, é muito boa).

O grande problema do filme é conceitual: na descrição no Youtube, é "sobre a crise social por que passa o Rio". Mas a falência do Rio de Janeiro enquanto cidade e sociedade é muito, muito mais complexa e vem de um processo bem anterior ao que vemos na tela. Mas Rio é um desabafo de grande relevância - é cinema de guerrilha. E os discursos confusos (como os dos militantes de A Chinesa), se não mudarão a opinião de ninguém, reforçarão o quanto somos humanos e não merecemos o tratamento dado pela polícia. É um filme altamente necessário.

Informar-se sobre um tema por um artigo muito bem apurado e redigido em um grande jornal ou em uma mesa de botequim, conversando com amigos inteligentes. Cada um que escolha a maneira que achar mais conveniente. Mas se pudermos fazer ambos, só temos a ganhar.

Trailer de Junho:

E o de Rio em Chamas:

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.