OPINIÃO
08/04/2014 13:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

<em>Dancin' Days</em> está de volta, mas aquele Brasil já era

Rever a novela será uma chance de observar o que de melhor e pior tinha a moda daqueles loucos anos - e rir um pouco das gírias do momento, muitas das quais se tornaram defasadas "à pampa".

Reprodução/TV Globo

Os critérios de programação do canal pago Viva são um dos grandes mistérios da TV brasileira. Ao mesmo tempo em que exibe telefilmes de quinta categoria e reprisa algumas das piores atrações da Globo (como Caldeirão do Huck e Vídeo Show), o canal reexibe também verdadeiras pérolas do arquivo da emissora carioca. Já permitiu ao público rever trechos dos inesquecíveis Malu Mulher, Chico & Caetano e Cassino do Chacrinha, e até a semana passada reprisou a boa novela Água Viva (1980). A partir desta semana, o canal leva ao ar outra atração de enorme sucesso da Globo e uma das telenovelas mais festejadas da história: Dancin' Days (1978).

Quem nasceu a partir de fins dos anos 70 certamente ouviu muito de seus pais e tios sobre a trama de Gilberto Braga. Mas a não ser por duas versões compactas, no ar em 1980 e 1982, a novela jamais foi reprisada, deixando as novas gerações com muita curiosidade - sempre atenta aos recorrentes (e infundados) rumores ao longo dos anos 90 e 2000 de que a novela seria reexibida no Vale a Pena Ver de Novo.

Só três décadas após a última exibição, em 2012, essas gerações puderam, enfim, ter acesso às rusgas entre a sofrida Júlia Matos (Sônia Braga) e sua irmã megera, Yolanda Pratini (Joana Fomm), com o lançamento de Dancin' Days em DVD. Mas a versão também era editada - por razões de espaço, trazia só os momentos mais relevantes de cada capítulo.

Só agora, no Viva, será possível ver a novela do jeitinho que ela foi ao ar nos anos 70, com direito a todos os tempos mortos, as "barrigas" e até diálogos e cenas sem muita relevância tão típicos dos folhetins. Será possível, enfim, saber se nossos tios e pais tinham mesmo razão, e a novela era mesmo excelente. Ou se foram traídos pelas suas memórias afetivas de um tempo em que tudo era festa, regada a disco music e coreografias na pista de dança - em meio, é claro, a uma profusão de meias de lurex.

Há até pouco tempo, uma versão não editada estava inteirinha no Youtube e permitia o veredito: Dancin' Days era, no fundo, uma novela problemática. Tinha deficiências de produção (as cenas de discoteca, por exemplo, são extremamente escuras) e falhas no roteiro, algumas até estruturais - a protagonista, a grande mola propulsora da trama, simplesmente some por mais de 20 capítulos, e as tramas paralelas não conseguem suprir essa ausência. E, sejamos sinceros: certos personagens eram bem chatos, e alguns capítulos inteiros não pareciam ter a menor relevância para a história.

Mas nossos pais e tios não estavam tão errados assim: Dancin' Days era uma novela irresistível. E tinha uma trama forte: uma mulher que tenta sua reinserção social e conquistar a admiração da filha adolescente após passar 11 anos na cadeia.

O núcleo central traz personagens bastante verossímeis, moradores de classe média de um apartamento de Copacabana. São gente como a gente, pessoas batalhadoras e de boa índole, que passam por dificuldades financeiras e estão sempre dispostas a ajudar umas às outras. É prazeroso vê-los em cena; sentimo-nos acolhidos pelos personagens, como parte da família. Claro, há também os ricaços, que têm lá os seus problemas no alto de suas coberturas na avenida Atlântica - mas também eles são gente e, no fim das contas, nós também nos identificamos com eles.

A novela, aliás, tem uma característica que a torna bastante moderna e mais interessante que a maioria: os personagens são ambivalentes. No texto de Gilberto Braga, ninguém é só santo ou só monstro. A mocinha Júlia, por exemplo, era uma jovem farrista, mãe solteira meio ausente, que matou um homem em um Carnaval ao tentar roubar vidros de lança-perfume (!). Em tempos atuais, pode soar o auge do politicamente incorreto, mas Júlia ainda ia além: fumava feito uma chaminé. E para completar, submetia-se a uma forma mais ou menos velada de prostituição ao se casar com um homem mais velho por puro interesse financeiro - afinal, percebe que, no Brasil, simplesmente não há outra forma de ascender socialmente.

A antagonista, Yolanda Pratini, em compensação, não era lá uma vilã das mais pérfidas; embora fosse capaz de grandes maldades, agia em geral por amor à sobrinha (que criou como filha) e por medo da própria solidão. E o mocinho, Cacá (Antônio Fagundes), era um trintão em crise, que larga a carreira de diplomata e faz teste vocacional e sessões de terapia quando isso estava longe de ser moda (na época, ainda era visto por muitos como sinal de loucura).

Grande parte do fascínio da novela se deve também à sua capacidade de captar o zeitgeist hedonista do fim dos anos 70 - época em que as pessoas já haviam superado as promessas de maio de 68 e visto que o sonho hippie havia acabado; já que não se podia mudar o mundo, o "lance" era curtir a vida. No Brasil, esse sentimento era ainda mais forte, já que se vivia sob uma ditadura - melhor era ser feliz na pista de dança, onde todo prazer era permitido. Como dizia a canção-tema, das Frenéticas: "Na nossa festa vale tudo...".

O elenco de Dancin' Days era irregular, mas acima da média no geral. O papel principal seria de Betty Faria, mas a atriz preferiu não participar - afinal, a trama tinha direção de Daniel Filho, de quem ela havia acabado de se separar (ela viveu um triângulo amoroso com Mário Gomes, que, após isso, foi envolvido em um episódio muito conhecido e injusto, que o marcaria para sempre, mas que não vem ao caso mencionar aqui...). Melhor para Sônia Braga, que como nunca antes ou depois na carreira, se entregou de corpo e alma à personagem. Na icônica cena de quando ela deixa a cadeia, ao som da bela canção Amanhã, de Guilherme Arantes, o medo de encarar uma nova realidade no olhar de Júlia é tão verdadeiro quanto o de Sônia em se desvencilhar dos papeis de "morenas sensuais" que haviam virado sua especialidade. Da mesma forma em que é nitidamente verdadeiro o êxtase da atriz na também célebre cena da volta de Júlia ao Rio, após banho de loja e uma temporada na Europa, na pista da discoteca, ao som de On Broadway. E também tão genuíno quanto o misto de fúria e amor no acerto de contas entre Júlia e Yolanda, cena também famosíssima da novela (inspirada nas unhadas e puxões de cabelo entre Anne Bancroft e Shirley MacLaine, no filme Momento de Decisão; a trama, aliás, tem diversas outras referências cinematográficas).

Joana Fomm também viveu um de seus (vários) grandes momentos na TV como Yolanda, mesmo ganhando o papel de última hora, substituindo Norma Bengell. E ver Glória Pires como a mimada Marisa é testemunhar o desabrochar de uma atriz - sua atuação amadurece junto com a personagem, com o decorrer da trama.

Rever a novela será uma chance de observar o que de melhor e pior tinha a moda daqueles loucos anos - e rir um pouco das gírias do momento, muitas das quais se tornaram defasadas "à pampa". E também rever alguns grandes atores que já se foram, como Milton Moraes, Yara Amaral e Gracinda Freire, ou que andam bem sumidos, como Sura Berditchevsky, Pepita Rodriguez e Cleyde Blota (e a graciosa Lidia Brondi, ainda uma garota).

A novela tem ainda mais um punhado de elementos que a tornam saborosa, sobretudo coisas que não se vê mais na TV. Como aquelas cenas longuíssimas que Gilberto Braga adorava escrever, às vezes solilóquios inteiros ou então diálogos de cunho existencialista, que são o sonho de qualquer ator de televisão. Novelas aceleradas recentes, como Avenida Brasil, fizeram o desserviço de desacostumar o público a cenas assim. As pessoas hoje têm avidez por ritmo frenético e muita reviravolta - sobrou pouco espaço para diálogos realmente densos, e isso é algo lastimável.

Mas talvez o mais especial em rever Dancin' Days e as novelas antigas de Gilberto Braga em geral não tenha tanta relação com entretenimento. Essas tramas são o documento de um Rio de Janeiro (e de um Brasil) de uma outra época, que não existe mais. Assim como Água Viva era a crônica de uma elite social e cultural em vias de extinção no mundo de hoje, Dancin' Days era a de uma Copacabana prestes a desaparecer. O Rio daqueles anos já acabou faz tempo, ainda no começo da década de 80, quando a capital fluminense passou a ver de mão atadas o crescimento exponencial de sua miséria e violência (e a rendição à mediocridade de uma parte significativa de seus habitantes). Talvez o único lugar que ainda tenha conseguido manter um espírito mais ou menos semelhante ao daquele tempo tenha sido mesmo Copacabana, que é um bairro à parte no Rio. No fundo, nem tanto por uma questão de resistência racional de seus habitantes, mas antes por ser um local que parou no tempo, que se fechou em si e não acompanhou a modernidade para além do Túnel Novo.

Ainda hoje persiste em Copacabana essa cultura do "ir à luta", de cada um indo atrás do próprio sonho e se virando para "transar o dinheiro" do aluguel - algo bem forte no universo gilbertiano. E apesar das tensões sociais, há um certo clima de cordialidade, em que as milionários da avenida Atlântica sabem que precisam dividir o bairro com moradores da favela do Pavãozinho ou dos conjugados da Barata Ribeiro. Mas mesmo isso hoje parece estar mudando (até pelos alugueis tão altos que têm tornado inviável a vida de pessoas de menos posses na região...). Copa ainda é um bairro em que se esbarram nas ruas pedicures como Júlia, socialites falidas como Yolanda, velhos sonhadores como Alberico, mulheres independentes como Emília e Solange e ricaços solitários como Ubirajara. Mas até quando?