OPINIÃO
16/02/2016 18:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Machismo escancarado, mulher objeto e a 'musalização' do esporte

O Carnaval 2016 foi marcado por uma forte campanha pelo respeito às mulheres. Momento oportuno, principalmente durante a festa popular conhecida pelos excessos praticados pelos homens e desrespeito às moças.

É claro que existe uma cultura machista no Brasil. Sei que é complicado generalizar, mas a nossa história não nega. Até o esporte não está imune a essa tradição social e cultural. Vejamos: quando se aproxima uma grande competição esportiva, a imprensa sempre elege uma ou algumas musas.

O fenômeno pode ser chamado de "musalização do esporte". Funciona assim: os atributos físicos das atletas se sobressaem às performances esportivas. Recordes em quadras e pistas são minimizados por beleza e curvas.

Uma atleta trabalha exaustivamente durante quatro anos para representar bem o país e fazer história durante os Jogos Olímpicos. Perde finais de semana, deixa de festejar com os amigos, faz uma dieta rigorosa, passa a ganhar reconhecimento internacional e consegue, enfim, figurar entre as dez melhores do mundo. Quando chega o momento de brilhar, a imprensa fala apenas de seu corpo, físico e beleza.

Não é nada pessoal, garanto. É somente um dos sintomas da "musalização". Nos Jogos Rio 2016 conheceremos a musa do vôlei, musa dos saltos ornamentais, musa do taekwondo, musa do judô, musa do atletismo, musa do futebol, etc. Teremos também as musas de alguns países - conheceremos a musa da Rússia, dos Estados Unidos, da China, da Itália, etc.

Não é de hoje que o noticiário esportivo trata diferentemente atletas masculinos e femininos. Talvez a culpa seja nossa, dos leitores. Clicamos nas notícias e damos audiência para esse tipo de conteúdo.

Ingrid Oliveira, 19 anos, sabe bem como funciona esse tipo de exposição. Antes de começar os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, ela postou uma foto no Instagram do alto da plataforma de saltos ornamentais de maiô. A imagem foi postada nos principais portais de notícias do Brasil, repercutiu e a jovem sofreu uma enxurrada de comentários maldosos do público masculino.

Quando começou o evento, Ingrid Oliveira errou no quarto salto na classificatória da plataforma de 10m. Tirou nota zero e deixou aos prantos a piscina do centro aquático. Na ocasião, a equipe técnica tentou minimizar o ocorrido e distanciar do fato da grande exposição.

Muitas pessoas podem pensar, "o que é bonito tem que se mostrar". Concordo, mas, no esporte, o corpo é um instrumento de trabalho e não podemos tratá-lo como um objeto, somente para preencher as páginas de fofocas.

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