OPINIÃO
28/11/2014 15:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A lógica - ou não - do esporte

Títulos, performance, regularidade ou espírito olímpico? A reposta é subjetiva e cada leitor vai escolher o seu critério. Entretanto, tenho certeza de que a maioria vai preferir os títulos. De certo ponto faz sentido. Mas, como sempre escrevo aqui semanalmente, a lógica do esporte olímpico é diferente.

ASSOCIATED PRESS
Isaquias Queiroz Dos Santos of Brazil falls before the finish line at the C1 Men 1000m final during the Canoe Sprint World Championships in Moscow, Russia, Saturday, Aug. 9, 2014. (AP Photo/Pavel Golovkin)

Isaquias Queiroz chegou ao Campeonato Mundial na Rússia como favorito na prova da canoa C1 1.000 metros. Na edição anterior da competição, o brasileiro tinha levado o bronze na prova. Em 2014, a coisa era diferente. O atleta vinha evoluindo tecnicamente, mais forte e preparado para levar o título na sua principal prova.

Demorou cerca de 3 minutos 44 segundos para que a confiança se transformasse em frustração. Isaquias largou muito bem. Assumiu a liderança logo no início, chegando a ter, junto com o alemão Sebastian Brendel que vinha na segunda colocação, três barcos de distância dos outros adversários.

Faltando menos de 10% da prova para cruzar a linha de chegada, o baiano sentiu dores no braço, pelo grande esforço de remar quase um quilômetro. Faltando poucos metros para o final, ele colocou todo o peso do corpo para trás, no intuito de cruzar a linha de chegada, perdeu a concentração e o equilíbrio, e o improvável aconteceu: a canoa virou. Isaquias viu escapar pelos dedos a medalha de ouro na linha de chegada.

Sem o pódio na prova que faz parte dos Jogos Olímpicos, o brasileiro ainda conquistou na Rússia duas medalhas no Mundial. Tornou-se bicampeão na prova de C1 500 metros e levou o bronze na prova de dupla de 200 metros com Erlon Souza. Porém, as duas medalhas foram em provas que estão fora da programação das Olimpíadas e são disputadas somente em Campeonatos Mundiais.

O incidente vivido pelo canoísta teve consequências. Os dois pódios e o desempenho na prova trágica mostraram que Isaquias Queiroz está entre os melhores do mundo. "Melhor errar agora do que em 2016. Posso dizer que me sinto um medalhista, sim, mesmo não subindo ao pódio", disse Isaquias, na ocasião.

O que faz um atleta ser o melhor do ano entre os diferentes esportes olímpicos? Títulos, performance, regularidade ou espírito olímpico? A reposta é subjetiva e cada leitor vai escolher o seu critério. Entretanto, tenho certeza de que a maioria vai preferir os títulos. De certo ponto faz sentido. Mas, como sempre escrevo aqui semanalmente, a lógica do esporte olímpico é diferente.

O resultado é importante, mas analisar o título friamente, sem olhar o contexto, faz com que possamos criar falsas ilusões. Exemplo disso foram os nomes escolhidos para concorrer ao "Oscar do esporte brasileiro" na categoria de "Melhores Atletas do Ano" 2014, na cerimônia oferecida pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Arthur Zanetti, da ginástica artística, Marcus Vinícius, do tiro com arco, e Tiago Splitter, do basquete, foram os atletas indicados por um colégio eleitoral, formado por jornalistas, dirigentes, ex-atletas e personalidades do esporte. Mesmo com duas medalhas no Mundial deste ano, Isaquias ficou de fora. Os nomes reforçam que apenas a vitória é valorizada.

O canoísta contribuiu muito mais para o esporte olímpico brasileiro do que o jogador Thiago Splitter, que conquistou com sua equipe o título na temporada da NBA, mas sem ter um papel de protagonista.

Os nomes indicados pelos influenciadores do esporte nacional reforçam o pensamento de que somente o pódio importa. É a mesma coisa de ensinar o filho que o importante é competir e brigar com a criança quando ela não vence.

Pelo menos Isaquias concorre no voto popular, via internet, na categoria de "Atleta da Torcida". Ele foi um dos grandes nomes do esporte olímpico nacional em 2014 e deveria está concorrendo ao prêmio de Melhores Atletas do Ano. De fora da lista, o que nos resta é votar para o canoísta levar o prêmio de consolo.

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