OPINIÃO
12/02/2014 10:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Vencedores da globalização: ricos e a classe média chinesa. Perdedores: classe média americana

O período entre a queda do Muro de Berlim e a Grande Recessão presenciou a mais profunda reorganização das rendas pessoais em escala global desde a Revolução Industrial.

Esta foi impelida pelos altos índices de crescimento de países populosos e anteriormente pobres ou muito pobres, como China, Indonésia e Índia, e, por outro lado, pela estagnação ou declínio das rendas nos países latino-americanos e pós-comunistas, assim como entre os segmentos mais pobres da população dos países ricos.

Figura 1. Mudança da renda real em vários percentis da distribuição de renda global entre 1988 e 2008 (%)

gráfico

Esses resultados vêm de um trabalho minucioso sobre dados de pesquisas com famílias em cerca de 120 países no período 1988-2008.

Para analisar esses dados, a distribuição em cada país foi dividida em dez decis (cada decil é composto por 10% da população), segundo sua renda per capita disponível (ou consumo).

Para tornar as rendas totalmente comparáveis entre vários países e períodos de tempo, elas são corrigidas pela inflação doméstica e pelas diferenças nos níveis de preços entre os países. Então é possível observar, não como fazemos geralmente, como a posição dos diferentes países muda com o tempo, mas também como a posição de vários decis muda em cada país.

Por exemplo, o decil superior do Japão continuou no 99º percentil mundial (o segundo mais alto de cima para baixo), mas o decil mediano do Japão caiu do 91º para o 88º percentil global. Ou, para dar outro exemplo: as pessoas que pertencem ao decil urbano superior chinês passaram da posição de 68º percentil global em 1988 para 83º percentil global em 2008, assim saltando no processo cerca de 15% da população mundial, ou quase um bilhão de pessoas.¹

Quando alinhamos todos os indivíduos do mundo, do mais pobre ao mais rico (da esquerda para a direita no eixo horizontal na figura 1 acima), e mostramos no eixo vertical o aumento de porcentagem em sua renda real no período 1988-2008, obtemos uma curva em forma de S, indicando que os ganhos maiores foram realizados pelas pessoas ao redor da mediana global (50º percentil) e entre o 1% no topo global.

As pessoas ao redor da mediana quase duplicaram suas rendas reais. Não é de surpreender que nove em cada dez desses "vencedores" eram da "Ásia ressurgente" (eles são idealmente rotulados de "classe média da China" na figura). Por exemplo, uma pessoa ao redor da metade da distribuição de renda urbana chinesa viu sua renda real em 1988 multiplicar-se por um fator de quase 3; a que está na metade da distribuição de renda da Indonésia ou Tailândia, por um fator de 2, na Índia por um fator de 1,4, etc.

Mas depois da mediana global os ganhos diminuem rapidamente, tornando-se quase desprezíveis ao redor do 85º ao 90º percentis globais e depois disparando para cima para o 1% no topo global. Talvez seja menos esperado que as pessoas que ganharam menos fossem quase totalmente das "economias maduras", membros da OCDE que incluem vários países que pertenceram ao bloco comunista.

Mas, mesmo quando retiramos os últimos, a maioria avassaladora nesse grupo de "perdedores" é do mundo rico "antigo e convencional" (rotulado idealmente de "classe média baixa dos EUA" na figura). Mas não qualquer pessoa do mundo rico. Os "perdedores" eram predominantemente pessoas que em seus países pertencem às metades inferiores da distribuição de renda nacional. As que estão ao redor da mediana da distribuição de renda alemã ganharam apenas 7% em termos reais em 20 anos; as dos EUA 26%, as do Japão perderam em termos reais.

A "curva de ganho" em forma de S deitado não nos permite avaliar imediatamente se a desigualdade global poderia ter subido ou descido porque os ganhos ao redor da mediana (que são pró-igualdade) podem ter sido compensados pelos ganhos do 1% no topo global (que são anti-igualdade). No balanço, porém, os primeiros elementos dominam e aquela desigualdade global, como medida pela maioria dos indicadores convencionais, caiu nos últimos 20 anos de globalização. Então foi tudo para melhor?

Provavelmente sim, mas não é tão simples. A marcante associação de grandes ganhos ao redor da mediana da distribuição de renda global, recebidos principalmente pelas populações asiáticas, e a estagnação das rendas entre as populações pobres ou as classes médias baixas nos países ricos, naturalmente levanta a questão de se os dois fatos estão associados.

O crescimento na China e na Índia ocorre às custas da classe média dos países ricos? Existem muitos estudos que, para certos tipos de trabalhadores, discutem a questão da substitutibilidade entre a mão-de-obra de baixa qualificação dos países ricos e a mão-de-obra dos países asiáticos, personificada em bens e serviços comercializados ou em terceirização. Os dados de renda globais não nos permitem estabelecer ou rejeitar a relação de causa e efeito, mas são uma boa sugestão de que os dois fenômenos talvez não se relacionem.

Uma maneira drástica de ver a mudança produzida pela globalização é comparar a evolução ao longo do tempo do segundo decil de renda dos EUA com (por exemplo) o oitavo decil urbano chinês (figura 2). De fato, estamos comparando pessoas relativamente pobres nos EUA com pessoas relativamente ricas na China, mas diante das diferenças de renda entre os dois países, e de que os dois grupos podem ser considerados em certo tipo de competição global, a comparação faz sentido.

Aqui estendemos a análise para 2011, usando dados mais recentes e preliminares. Enquanto a renda real do 2º decil dos EUA aumentou cerca de 20% em um quarto de século, a renda do 8º decil da China foi multiplicada por um fator de 6,5. A diferença de renda absoluta, ainda significativa cinco anos atrás, antes do início da Grande Recessão, quase foi eliminada.

Figura 2. Renda per capita real do 2º decil de renda nos EUA e 8º decil de renda urbana na China entre 1988 e 2011.

tabela

E mesmo que não se possa estabelecer a causalidade a associação entre as duas não pode passar despercebida. Quais são então suas implicações?

Primeiro, se virmos metaforicamente o movimento da mão-de-obra chinesa pelas fileiras da distribuição de renda global como uma enorme onda que, como em nosso gráfico do S deitado, cria a depressão entre as classes média baixas nas "economias maduras", é provável que essa onda seja seguida por pelo menos várias ondas adicionais vindas ou do resto da China ou mais tarde da Indonésia, Nigéria, Índia, etc. Isso implica que os desenvolvimentos que são profundamente positivos do ponto de vista global podem se mostrar desestabilizadores para países ricos individuais?

Segundo, se adotarmos uma visão simplista, mas efetiva, de que a democracia está correlacionada com uma grande e vibrante classe média, o contínuo esvaziamento da classe média no mundo rico, combinado com o crescimento das rendas no topo, implicaria um movimento de distanciamento da democracia em direção a formas de plutocracia. Poderia a China, com sua classe média ascendente, tornar-se mais democrática e os EUA, com sua classe média que encolhe, menos democrático?

Terceiro, e provavelmente o mais difícil, o que esses movimentos, se continuarem por algumas décadas, implicam para a estabilidade global? A formação de uma classe média global, ou a já perceptível "homogeneização" do 1% no topo global, independentemente do país de onde venham, pode ao mesmo tempo ser considerada boa para a estabilidade mundial e a interdependência e socialmente ruim para países individuais, enquanto os ricos são "desligados" de seus concidadãos.

Em resumo, os movimentos que presenciamos levam a um reequilíbrio econômico entre Oriente e Ocidente, onde ambos poderão acabar com suas parcelas de produção global próximas do que tinham antes da Revolução Industrial.

Eles também expõem a contradição na atual ordem mundial, em que o poder político se concentra no nível do país-estado, mas onde as forças econômicas da globalização vão muito além dele.

¹ "Percentil" indica a posição de uma pessoa na distribuição de renda. O 1% das pessoas mais ricas ("o 1% no topo") estão no 100º percentil, e as mais pobres estão no 1º percentil.