OPINIÃO
02/04/2014 11:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:26 -02

Nowa Huta, a cidade comunista

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A fotografia aérea de Nowa Huta revela o contraste entre largas avenidas arborizadas e blocos de concreto que formam os prédios residenciais. A imagem, vista fora do contexto, poderia ter sido captada em qualquer subúrbio da Europa do Leste. O que faz desse bairro uma parada obrigatória para quem visita Cracóvia, no sul da Polônia, é que ele foi construído para ser a cidade modelo do comunismo e um estandarte da propaganda stalinista.

A construção de Nowa Huta é resultado de um acordo firmado entre Josef Stalin e o presidente polonês Bolesław Bierut. A União Soviética entraria com o recurso financeiro e pessoal qualificado. A Polônia recrutaria a mão de obra para o serviço braçal. Estimativas apontam que pelo menos 40 mil pessoas trabalharam nas obras entre 1949 e 1956. A ideia era criar uma cidade para desenvolver a típica cultura operária e que contrastasse com a elite da vizinha Cracóvia, a pouco mais de 14 quilômetros.

Nowa Huta (Nova Fábrica) foi erguida em terras férteis, confiscadas da Igreja Católica, sobre um assentamento neolítico de valor arqueológico desconhecido. Povos celtas habitaram a região por séculos. A área também era conhecida pelo Kopiec Wandy, um túmulo em forma de montanha, com 50 metros de altura, onde estaria enterrado o corpo da princesa Wanda, filha do lendário fundador de Cracóvia.

Em junho de 1949, urbanistas russos e poloneses foram convidados para retirar a cidade modelo do papel. Nowa Huta seria construída com base no Realismo Soviético, um misto de antigos estilos arquitetônicos da Europa e novas tendências da construção civil soviética.

As ruas mais importantes de Nowa Huta se convergem para uma praça central, que está ligada pela avenida principal a um espaço recreativo que abrigou, até dezembro de 1989, uma estátua gigante de Lênin. O monumento, de bronze maciço, sofreu vários atentados a bomba e terminou por ser vendido ao museu High Chaparral, na Suécia.

Os prédios da cidade modelo têm a imponência do renascimento, características góticas nas fachadas e a robustez de fortaleza militar. Em caso de guerra, a disposição dos edifícios dificultaria a ocupação inimiga e facilitaria a resistência operária. Se os moradores fossem surpreendidos por um ataque aéreo, abrigos subterrâneos e bunkers serviriam como esconderijos.

A vida em Nowa Huta deveria girar em torno da Siderúrgica Lênin, que chegou a produzir sete milhões de toneladas de aço por ano. A contradição do projeto é que não existe minério de ferro ou carvão na região, o que encareceu o funcionamento do complexo industrial. Grande parte da matéria prima era importada da União Soviética ou transportada de outras áreas da Polônia.

A Siderúrgica Lênin foi rebatizada, há alguns anos, de ArcelorMittal Polônia e passou a receber festivais de música. Os moradores locais chamam a antiga fábrica de Vaticano, dada a imponência do edifício. O apelido é irônico, já que todas as manifestações religiosas eram proibidas na Polônia. A cidade modelo do comunismo deveria ser habitada por mais de cem mil ateus, mas não foi exatamente isto que aconteceu e os protestos por liberdade religiosa se multiplicaram.

O certo é que Nowa Huta teve que esperar até 1967 para o início da construção da sua primeira igreja, a Arka Pana (Arca do Senhor). O nome é uma referência ao formato futurista do edifício, que se assemelha a um navio com uma cruz de 70 metros de altura no lugar do mastro. A pedra fundamental do templo foi lançada pelo então bispo de Cracóvia, Karol Wojtyła, que ficaria conhecido, anos depois, como Papa João Paulo II.

A Arka Pana foi inspirada na Capela de Le Corbusier, situada na cidade francesa de Ronchamp. A inauguração, em 1977, significou uma vitória sob o comunismo. O ato também simbolizou a união entre católicos de todo o mundo, já que mobílias foram doadas por pessoas de vários países. Fragmentos de rocha lunar, trazidos pelos astronautas da Apollo 11, foram usados no acabamento. No interior da igreja, um crucifixo de oito metros de altura dá as boas-vindas aos visitantes.

Nowa Huta: Ontem e Hoje

Nowa Huta foi agregada como bairro periférico de Cracóvia em 1951, mas pouco mudou nas últimas cinco décadas. Carros Trabant podem ser vistos pelas ruas. Pequenas lojas da época continuam de portas abertas para atender aos mais de 200 mil habitantes. Crianças brincam em volta de um tanque soviético que se transformou numa pálida recordação dos anos de glória. Muitos idosos lembram com saudosismo dos velhos tempos, apesar do comunismo ter deixado chagas dolorosas no imaginário polonês.

Contratar um tour particular ou fazer uma excursão em grupo é a melhor opção para quem quer conhecer a ex-cidade modelo. Sem a companhia de um guia profissional, a visita pode não ser tão diferente do que a qualquer outro subúrbio da Europa do Leste. Agências de turismo oferecem passeios em carros estilizados, mas caminhar pelas largas avenidas revela que, apesar dos anos, Nowa Huta está suspensa no tempo.

Os apartamentos construídos com base no Realismo Soviético são uma das atrações mais procuradas pelos turistas. Os modelos estão bem conservados e com toda a mobília original. Eles são pequenos, mas confortáveis e capazes de transportar os visitantes para os seios de uma típica família operária. No interior é possível conhecer os cômodos, móveis, eletrodomésticos e utensílios importados da União Soviética e Alemanha Oriental.

Experimentar as comidas da época também é uma opção para os que querem vivenciar os antigos hábitos locais. O restaurante Stylowa, fundado em 1950 em frente à estátua gigante de Lênin, tem um extenso cardápio com iguarias servidas há mais de 40 anos. Pratos à base de carne de porco e batata são os mais tradicionais. O Stylowa ainda é um ponto de encontro para os moradores de Nowa Huta e, aos finais de semana, é possível jantar ao som das canções que ninaram os sonhos da ex-cidade comunista.