OPINIÃO
09/10/2014 19:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Cultura do diálogo: Dilma, Obama e o Estado Islâmico

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Este é um artigo sobre mentes. A forma como pensamos determina os padrões de comportamento. A sociedade é estruturada sobre os valores que colocamos em prática no dia a dia da nossa aldeia-global. Esta regra é transversal. Vale tanto para os gestos mais banais do cotidiano como para as ações políticas. Quando um erro de percurso é detectado, os atores sociais precisam propor novos caminhos.

O discurso da presidente Dilma Rousseff no final de setembro, na 69ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, causou furor entre políticos da oposição e numa parcela da mídia nacional. A reação foi provocada porque, para Dilma, "o uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos" no Oriente Médio. O presidente Barack Obama, no mesmo encontro, preferiu defender que "a única linguagem que assassinos como esses entendem é a da força".

Dilma e Obama falavam do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), que tem cometido barbaridades em nome da criação de um califado (uma espécie de reino muçulmano), como a decapitação dos jornalistas Steven Sotloff e James Foley. As palavras de Dilma foram associadas à defesa do diálogo com os extremistas, enquanto as de Obama foram lidas como a última saída para combater a sombra que paira sobre o Ocidente.

Entre as vozes que levantaram-se contra a proposta do Planalto está a do senador mineiro Aécio Neves (PSDB), que declarou ser lamentável o discurso. Na imprensa, o comentarista do Jornal Nacional, Arnaldo Jabor, interpretou como "uma postura ideológica" alinhada com "tudo que possa prejudicar os Estados Unidos". O colunista da revista Veja, Augusto Nunes, propôs que fosse "enviado à Síria, para negociar com os companheiros terroristas, o ex-presidente Lula". A única sugestão é que "tome cuidado para não perder a cabeça, literalmente".

Aécio, Jabor e Nunes incorporam uma forma de ler o mundo, uma mentalidade que encontra respaldo em dois argumentos centrais defendidos por Obama. Primeiro, ignorar as causas do problema e atacar os seus efeitos pode resolver conflitos encubados, há pelo menos uma década, por fatores econômicos e sociais. Segundo, crimes de terroristas devem ser combatidos com Terrorismo de Estado. O elevado número de vítimas, na maioria civis, deixado pelas bombas não conta. Ou se conta nas estatísticas, não na dor.

O antagonismo Dilma e Obama está na oposição entre Cultura do Diálogo, apresentada pelo Brasil na ONU, e cultura do medo, empregada pelos Estados Unidos no Oriente Médio. Ao propor canais de comunicação, a presidente diz nas entrelinhas sobre a necessidade urgente de entender as causas do fundamentalismo, não apenas bombardear os seus efeitos imediatos.

Obviamente, o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e o caminho do diálogo pode ser uma estratégia para garantir o apoio de países com pseudo-democracias. Obviamente, os Estados Unidos sabem que ter o Brasil no Conselho enfraqueceria a sua liderança, sendo que discordam numa série de questões econômicas e políticas.

Mas qual é a origem do 'mal'? O EI nasce no vácuo de poder institucional aberto pelos Estados Unidos com a invasão do Iraque, em 2003, e a queda do regime de Saddam Hussein. Os seus altos escalões são dissidentes da Al-Qaeda, mas também ex-militares iraquianos deslocados pela invasão. Alguns dos seus membros lutaram contra Bashar al-Assad no rescaldo da Primavera Árabe, na Síria, com armamento pago pelo petróleo da Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos na região.

Se o califado estende-se pelo Oriente Médio, é no mundo virtual que dissemina sua propaganda. Para conquistar mentes é preciso de uma estratégica de comunicação robusta. A internet oferece recursos transfronteiriços de baixo custo, não que o dinheiro seja um problema. O último vídeo divulgado pelo grupo, com o nome Flames of War (Chamas da Guerra), é digno de Hollywood. A edição de imagem e som é profissional. Nas redes sociais, o EI recruta adeptos ocidentais. Capta corações. A estimativa da CIA é que já tenha nas suas fileiras dois mil membros de países como Holanda, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Brasil, Estados Unidos etc.

O que esses jovens encontraram no EI? A resposta é a afirmação da identidade. Encontram o que nunca tiveram em seu país de origem. Este é o caso de Ângela, uma portuguesa de 19 anos que ao chegar na Síria escreveu no Facebook: "irmãs, não hesitem. Sinto-me tão bem, como se tivesse sempre vivido aqui, sinto-me em casa". Normalmente, esses jovens vieram de contextos marcados pelo autoritarismo, exclusão, violência, pobreza, desemprego, analfabetismo, repressão e falta de diálogo.

A proposta de Obama é repetir os erros dos seus antecessores. Ao só combater os efeitos do problema, com violência militar, até pode erradicá-lo temporariamente, mas as raízes do fundamentalismo continuarão arraigadas no coração desses jovens. Novos jihadistas surgirão, isto é inevitável. Causas não faltam. É questão de tempo para nos perguntarmos: "quem é esse fantasma que não nos deixa dormir?". Cusiosamente, uma pesquisa do Gallup International com 66 mil pessoas em 68 países apontou, no final de 2013, os Estados Unidos como a maior ameça do planeta, à frente do Paquistão, China, Coreia do Norte e Irã.

A proposta de Dilma é inventar um novo caminho para a política internacional, mais cooperativo e aberto. O discurso foi mal recebio por três razões. Primeiro porque os políticos da oposição viram nele a possibilidade de crescer nas pesquisas eleitorais, um erro crasso. Segundo porque parece repugnante a simples ideia de países democráticos, signatários da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sentar à mesa para negociar com terroristas. Terceiro, porque é ousada demais para caber nos estereótipos de uma parcela da mídia nacional, daí as críticas.

Este é um artigo sobre mentes. Coloca em campos opostos duas formas de pensar o mundo: a cultura do diálogo e a cultura do medo. O faz porque a cultura do medo levou historicamente a mais medo, assim como a guerra ao terror transformou o mundo em um lugar menos seguro. É preciso inventar outros caminhos quando os que escolhemos, no passado, provaram-se ineficientes. Ou seja, produziram mais estragos à longo prazo do que soluções duradouras. Mas se a sociedade é estruturada sobre valores coletivos, é preciso primeiro transformar a forma de pensar dos cidadãos para depois mudar as suas práticas reais.

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