OPINIÃO
17/04/2015 18:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A doença de pele desta modelo fará você repensar os padrões de beleza

Brown-Young é uma voz que confere poder às pessoas que têm vitiligo. Em um mundo que adota um arsenal crescente de tratamentos e procedimentos cosméticos, a posição que ela assume é inovadora e animadora.

Reprodução Instagram Winnie Harlow

Chantelle Brown-Young é uma modelo negra de Toronto cuja participação no programa America's Next Top Model a tornou mundialmente famosa. Seu sucesso talvez surpreenda, porque ela sofre de vitiligo, doença autoimune em que o corpo ataca suas próprias células produtoras de pigmento. A distribuição das lesões da modelo é bastante simétrica, envolvendo a metade de seu rosto, em volta da boca, o abdome, coxas, joelhos e tornozelos.

O poder de atração de Brown-Young nos convida a refletir sobre os conceitos de saúde, debilitação e deficiência em relação às percepções de beleza. Algumas pessoas que têm vitiligo ficam incomodadas com o uso do termo "sofrimento", quando ligado à sua condição. Mas na área médica se diz que qualquer pessoa que apresenta uma doença sofre dela.

Diferentemente do termo "doença", o conceito de deficiência é menos preciso. A Organização Mundial de Saúde considera "deficiência" um termo abrangente "que cobre debilitações, limitações à atividade e restrições à participação". Uma debilitação é um problema de função ou estrutura corporal; uma limitação à atividade é uma dificuldade encontrada pelo indivíduo na execução de uma tarefa ou ações.

Assim, Brown-Young pode ter menos limitações à atividade e, portanto, uma deficiência global diferente da de muitas pessoas que apresentam doença idêntica à dela. Como, ao longo da história humana, muitas sociedades sempre atribuíram valor estético à simetria, a natureza simétrica das lesões de vitiligo da modelo reduz sua deficiência - uma relação moderada pelas preferências estéticas subjetivas das agências de modelos e do público geral.

Como muitos outros problemas de pele, o vitiligo pode causar debilitação psicossocial importante. Brown-Young parece ter assumido o controle de sua deficiência (ou falta de deficiência). Em setembro passado ela contou ao jornal The Sydney Morning Herald sobre a decisão que tomou desde menina: "Decidi dizer a mim mesma que sou bonita e que é assim que posso ficar pelo resto da vida".

O sofrimento psicológico provocado por problemas de pigmentação, incluindo o vitiligo, é uma consideração importante, especialmente entre determinadas populações. Na Índia, onde a hanseníase é comum, muitas pessoas com vitiligo são rejeitadas e tratadas como párias. São tratadas como leprosas, porque a lepra pode se apresentar como manchas de cor mais clara na pele, semelhantes às do vitiligo.

Além disso, como muitas pessoas de cor consideram sua cor de pele parte de sua identidade, quando sofrem desordens de pigmentação isso pode colocar em risco seu senso de pertencimento à sua comunidade. De fato, muitos pacientes com vitiligo não falariam em "simetria fantástica", como fez Tyra Banks na primeira aparição de Brown-Young no America's Next Top Model.

Muitos dermatologistas, cirurgiões plásticos e outros profissionais do campo sempre crescente da medicina estética estão desenvolvendo e realizando novos procedimentos para aliviar os sinais do envelhecimento. Nesse sentido, se diz hoje que as pessoas "sofrem" de envelhecimento natural. Em um mundo que historicamente sempre valorizou a juventude e beleza, especialmente nas mulheres, as intervenções cosméticas ganham aceitação mais ampla e perdem o estigma que as cercava.

Em muitas partes da Ásia oriental, há muito mais produtos e procedimentos cosméticos de clareamento de pele que algumas décadas atrás. Na Coreia do Sul é comum que mulheres se submetam a procedimentos cirúrgicos de "correção" de pálpebras, para se aproximarem da aparência de pessoas de origem europeia.

A blefaroplastia tem tanta aceitação social na Coreia quando os tratamentos ortodônticos para crianças e adolescentes na América do Norte e Europa. Num programa que foi ao ar recentemente na National Public Radio (NPR), intituladoIs Beauty in the Eye(Lid) of the Beholder, a jornalista Karen Chow pesquisou as cirurgias de blefaroplastia cosmética realizadas na Coreia para "corrigir" pálpebras para que se aproximem do padrão de beleza anglo-europeu. As origens da blefaroplastia cosmética podem ser traçadas a 1895 no Japão, enquanto o primeiro procedimento desse tipo do qual se tem nota na América do Norte aconteceu em 1926, com um homem japonês.

As blefaroplastias representaram mais de 6% das cirurgias plásticas feitas em 2013 com americanos de origem asiática. Na realidade, esse número talvez subestime o número real, porque não leva em conta os procedimentos realizados no exterior ou por cirurgiões não qualificados. A história da cirurgia cosmética para fazer pessoas se aproximarem da aparência de pessoas de origem europeia não se limita aos asiáticos orientais. Os fabricantes de produtos para clarear a pele e alisar o cabelo voltam seus produtos a afrodescendentes, há algum tempo.

Como descrevi em meu texto anterior sobre cirurgias cosméticas étnicas entre afro-americanos, alguns cirurgiões plásticos do século 20 acharam que estavam aumentando as oportunidades sociais e econômicas abertas aos afro-americanos (especialmente aos mestiços, cuja aparência "menos étnica" lhes ajudaria em aparições na televisão e em transações comerciais fechadas cara a cara) quando lhes ofereciam rinoplastias para aproximá-los do padrão europeu de beleza. Um dos "profissionais reativos" que cumpriu esse papel foi o cirurgião plástico americano Jacques Maliniak. Ele dizia que "o nariz revela características raciais fortes e discerníveis. Em um ambiente estranho ao indivíduo, essas características podem lhe ser altamente prejudiciais. Um nariz negroide constitui uma desvantagem social e econômica nítida."

Ao promover a prevenção de câncer de pele junto ao público, os dermatologistas aproveitam o fato de a sociedade atribuir tanto valor à juventude e beleza. Muitos jovens recebem exposição excessiva a raios ultravioleta por se bronzearem ao ar livre ou em aparelhos de bronzeamento. Além de afirmar que a adesão a práticas seguras reduz o risco de câncer de pele, as mensagens de saúde pública voltadas aos jovens destacam que a exposição excessiva aos raios ultravioleta acelera o aparecimento de rugas, pontos de pigmentação antiestéticos e outros sinais de uma pele envelhecida.

Brown-Young é uma voz que confere poder às pessoas que têm vitiligo. Em um mundo que adota um arsenal crescente de tratamentos e procedimentos cosméticos, a posição que ela assume é inovadora e animadora. Sua atitude é evidenciada por um vídeo no YouTube sobre o vitiligo, em que a modelo diz que "Deus me escolheu para ser original. Eu sou eu." Nesta era em que o envelhecimento é visto como problema médico e há ênfase crescente sobre a capacidade de "corrigir" aparências, parece apropriado o fato de a modelo se descrever como "minoria". Chantelle Brown-Young é símbolo da aceitação da beleza natural de todas as mulheres e um sinal de esperança de que essa aceitação aconteça.

Não obstante seu sucesso internacional, a modelo se sente impelida a ajudar outros a apreciar a beleza sob suas formas diversas. Em sua primeira aparição no America's Next Top Model, ela pergunta: "Como posso lhes mostrar a beleza que existe nas diferenças?".

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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