OPINIÃO
17/03/2014 11:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Tarô? Eu?

Fui à livraria e peguei um livro sobre tarô. Queria sentar ali mesmo para ler tudo. Todos os meus preconceitos vieram à tona. Eu? Urbana, "moderna", pretensiosamente intelectual, me dedicar a "essas coisas"?

Tinha passado por um parto difícil, induzido por pré-eclâmpsia, e o pós-parto não estava simples. Além da Cecília, de pouco mais de um mês, o Lucas, com 4 anos, e o Pedro, com 2, ainda eram muito dependentes. Eu me sentia muito cansada, sozinha, angustiada. E ler me ajudava. Tinha acabado o maravilhoso A ilha sob o mar, da Isabel Allende, e nenhum outro livro me pegava. Fui à livraria, imensa, para ser arrebatada por cinco títulos diferentes e ter que escolher um só. Passei por todas as gôndolas, tentei pescar algo em diversas estantes e nada me interessava.

Umas duas horas depois, peguei um livro sobre tarô. Li a contracapa, a orelha, bati os olhos no sumário e nas páginas internas. Queria sentar ali mesmo para ler tudo. E empolgada, crescia também um sentimento de indignação. Raiva. Eu só podia estar louca mesmo! Todos os meus preconceitos vieram à tona. Em vez de boa literatura, ou um livro sério de sociologia, política, história, estava interessa por "bobagem" agora! Era só o que faltava!

Peguei o chicote, mas não soltei o livro. Fui para a fila do caixa torcendo para não encontrar ninguém.

- Tem cadastro na livraria?

- Não! (já pensou, deixar aquele livro no meu perfil de consumo?)

- Esse livro é ótimo! Você lê tarô?

- Não!

- Você quer aprender?

- Não!

- Mas você tem as cartas? -- Sorri o funcionário da livraria, entendendo tudo.

- Não!

Ele levanta a sobrancelha e eu pergunto se eles vendem as cartas. Ele se anima, aponta o corredor e lá vou eu comprar um Tarô de Marselha. "Que loucura! Só pode ser o pós-parto", eu pensava.

Enfiei o livro na bolsa e me senti em outra cena, aos 15 anos de idade, na casa da tia Guida, irmã do meu pai.

Eu cresci bisbilhotando a tia Guida, costureira de profissão, abrir cartas. Com um baralho, desses de jogar mesmo, ela atendia conhecidos e desconhecidos, em longas pausas na máquina de costura. De longe, fingindo que não percebia, eu observava o copo se enchendo de água, a vela, o fósfuro, as cartas, a porta do quarto sendo fechada, as vozes baixas, o clima misterioso. Nunca perguntei nada, mas sabia do que se tratava.

No inicío da adolescência cheguei um dia à casa dela angustiada. E foi minha vez de sentar na frente daquela mulher de unhas cumpridas e cintilantes, cabelo preto na altura da cintura, e suas cartas. Ela me ajudou a entender o que eu sentia, o que me incomoadava, o que precisava aceitar, o que podia, eu mesma, transformar. E fui embora melhor. Sempre lembrando de algumas frases daquele dia. Quando uma amiga estava muito nervosa, eu a levava até as cartas da tia Guida. Até que, aos 15 anos, ela disse que precisava me ensinar o jogo.

- Eu? Ensina pro Juan [meu primo mais novo]. Eu não tenho nada com isso!

E 15 anos depois eu reencontrava aquele sentimento, saindo da livraria.

Eu? Urbana, "moderna", pretensiosamente intelectual, me dedicar a "essas coisas"? Aos 15 e aos 30, a fuga era a mesma. Mas aos 30, algo me dizia que eu podia ser tudo ao mesmo tempo.