OPINIÃO
27/01/2014 21:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

'Que corajosa por vir com esse turbante!'

Sou negra, mulher, de origem pobre. E se essas palavras não são suficientes para me definir - afinal, que etiquetas dão conta do que é uma pessoa? - elas ajudam a me situar em um contexto social, histórico e político. Confesso que nunca tive conflitos com relação à minha origem pobre, que sempre comuniquei com orgulho, mas levei muitos anos para me reconhecer como negra e como mulher.

Descobrir-me negra foi um processo, que comecei a descrever aqui. Descobrir-me mulher é uma jornada que se iniciou com a maternidade e tem sido foco da minha atenção, especialmente na Casa de Lua. Se essas descobertas já não são simples, vesti-las, para que qualquer pessoa possa vê-las, é especialmente difícil.

Nunca acreditei em características "naturais" de raça, etnia ou gênero. Mas somos seres culturais que expressamos (ou não) características do que é ser negra, ser mulher ou ser pobre em uma sociedade, no tempo presente e nas tradições que carregamos. Calça jeans, camiseta branca e nenhum adorno já foram, em mim, a não expressão de características culturais que eu começava a perceber. Hoje, amarrar um turbante grande e colorido no cabelo crespo, e sair com ele por aí, em qualquer lugar, é uma das mais potentes expressões de como me vejo.

Acontece que, há algumas semanas, fui a uma reunião de trabalho, em uma instituição formal, vestindo um turbante cor de laranja. Calça social e sapato pretos, camisa, brinco e maquiagem discretos - como parece ser o dress code do lugar - e o pano na cabeça, nada discreto. Há alguns meses soltar o cabelo crespo era uma questão difícil, mas, naquele dia, bagunçar o cabelo e enfeitá-lo com o tecido vibrante, antes de uma reunião de trabalho, foi natural a ponto de eu sequer questionar se era adequado ou não.

Trabalhei com o mesmo compromisso dos dias de cabelo mais discreto, obviamente. E, ao final de mais uma etapa na construção de um projeto de educação relevante, que atende necessidades institucionais e recomendações internacionais, fui surpreendida. Ao me despedir da competente e agradável gestora, que me contratou como consultora, ouvi que todos no departamento comentavam minha coragem por usar o turbante.

Oi? Coragem? Levei alguns segundos questionando por que seria corajoso usar um turbante. E por que aquelas pessoas sentiram necessidade de falar sobre essa coragem? Além disso, por que aquela mulher, tão sensível e profissional, com quem tenho criado um excelente vínculo de trabalho e vontade de trocar sobre assuntos da vida, me passou aquele recado?

Passei dias refletindo sobre o peso daquela "coragem". Trabalhar em uma grande instituição, de turbante laranja, é expressar - de forma contundente - não só minha identidade como mulher, mas como negra. E essa autoafirmação não é o que se espera de uma mulher que busca sucesso profissional. Ainda mais quando ela é negra.

No patriarcado, a mulher que quer ser reconhecida pela inteligência e profissionalismo não pode se adornar. Além disso, vamos combinar que, no senso comum, negra não pode ser consultora, bem remunerada, especialista em um tema específico, com livro publicado e algum reconhecimento. E se uma negra está nessa inusitada situação, o que se espera dela é que, no mínimo, alise ou prenda o cabelo.

Com ou sem turbante, mostrar-se diferente é mesmo um ato de coragem.

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Muito honrada, aceito o convite do Brasil Post para escrever este blog. Pretendo falar aqui sobre educação, maternidade, organização de coletivos e ativismo - temas com relativa abertura no patriarcado em que vivemos. Mas também vou escrever sobre feminismo, tarô, maquiagem, rituais e outras bruxarias: temas que, já aviso, nada têm de menor. A intenção é expressar-me inteira, una, em todas as minhas identidades. Com a coragem que sonho ver no mundo. Coragem de ser diferente, de expressão do diferente. Coragem, principalmente, política.