OPINIÃO
10/03/2016 15:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

Ocupação da E.E. Wilma Flor, na Cidade Tiradentes

Cartazes indicam: estudantes resistem. Do portão fechado é possível ouvir aquele barulho de escola viva. O páteo aberto, esvaziado pela chuva, cria um clima de mistério antes de passar pelo corredor estreito. Do lado de dentro, uma roda de debate, artes marciais em um tatame, reunião na cozinha improvisada e jogo na mesa de pingue-pong.

Cartazes indicam: estudantes resistem. Do portão fechado é possível ouvir aquele barulho de escola viva. O páteo aberto, esvaziado pela chuva, cria um clima de mistério antes de passar pelo corredor estreito. Do lado de dentro, uma roda de debate, artes marciais em um tatame, reunião na cozinha improvisada e jogo na mesa de pingue-pong.

Um estudante me recebe, em tom solene, na escola estadual Wilma Flor, na Cidade Tiradentes. "Obrigada por vir aqui, professora. É muito importante vocês, que já estudaram tanta coisa, ensinarem pra gente o que sabem." Professora há 14 anos, nunca fui recebida assim por um aluno. Por que a ocupação?

"Imagina quem mora ali pra cima, que já precisa andar 10 minutos pra chegar aqui, ter que caminhar mais 15 minutos pra levar a criança na escola?", questiona Amanda, de 16 anos, estudante do Wilma. "O moço do mercadinho mesmo, ele e a esposa trabalham o dia inteiro, quem leva a filha de 7 anos é a mãe dele, que já é idosa. Como ela vai fazer? Ele não tem dinheiro pro bilhete único". Amanda passa os dias na ocupação de sua escola, que está na lista de reorganização de Alckmin.

O plano do governador prevê, além do deslocamento de estudantes do ensino fundamental para a Sítio Conceição, escola a 1,2 km de distância, interromper a oferta noturna do ensino médio e da educação de jovens e adultos no Wilma. "Que discriminação é essa? Como prega educação inclusiva e fecha o noturno argumentando que a escola está em uma favela?", pergunta uma das professoras que tem passado os dias na ocupação em solidariedade a suas alunas e alunos. "Também passo a madrugada toda acompanhando com eles o que está acontecendo, pelo celular. O medo de a polícia fazer algum mal não deixa ninguém dormir dentro da escola nem fora."

Até a tarde de sábado, 28 de novembro, a polícia militar já tinha aparecido no portão ameaçando manifestantes pelo menos três vezes. Em uma delas, exigiu os documentos de quem era maior de idade, para registrar como responsável pela ocupação. "A gente não pode escorregar em nada porque vai sobrar para os maiores", afirma um estudante, que preferiu não revelar o nome. Nas paredes, telefones de defensores públicos, advogados, professores e membros da comunidade. "A polícia não pode entrar sem mandato. Mas do jeito como fazem aqui, é fácil quererem plantar uma coisa pra incriminar a gente. Estamos organizados e sabemos a quem recorrer", explica.

Sem acesso à cozinha, estudantes improvisaram uma com o fogão doado pela vizinhança. Ex-professores, familiares e visitantes levam mantimentos para o sustento e livros para o espaço de leitura.

A agenda inclui regar plantas, limpar o espaço, participar de oficinas, aulas e rodas de conversa diversas. Na semana anterior, o Coletivo Digital deu uma oficina de áudio, professores de literatura e sociologia da escola prepararam aulas sobre temas demandos pelos estudantes, como cidadania e reciclagem, eu mesma fui mediar uma roda de conversa sobre racismo ao apresentar o livro Quando me descobri negra.

Para comprar panelas, utensílios domésticos e complementar as doações recebidas, estudantes têm vendido brincos e colares indígenas, além do sabão fabricado por eles. "A gente recolhe óleo usado dos vizinhos, recicla e prepara sabão. Depois vende ao redor da escola", explica Lucas, estudante com uma deficiência física na perna, beneficiado pelo programa de inclusão escolar. "Estamos aprendendo muito e cuidando bem da nossa escola", afirmar . "Não é justo decidirem fechar, mudar, sem chamar a comunidade."

Galeria de Fotos SP: Estudantes protestam contra 'reorganização escolar' Veja Fotos