OPINIÃO
19/11/2015 20:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Aprendizagem entre pares na ocupação da escola Godofredo Furtado

Já são mais de 70 as escolas estaduais ocupadas por estudantes em São Paulo. O motivo: pressionar Geraldo Alckmin a recuar na decisão de fechar 94 escolas e mudar a oferta de outras 1.400.

Já são mais de 70 escolas estaduais ocupadas por estudantes em São Paulo. O motivo: pressionar Geraldo Alckmin a recuar na decisão de fechar 94 escolas e mudar a oferta de outras 1.400. No plano do governador, a Escola Estadual Godofredo Furtado, na rua João Moura, passaria a oferecer o ensino médio na região de Pinheiros, e quem atualmente está matriculado no ensino fundamental iria para a E.E. Fernão Dias Paes, a 1,5 km de distância.

"Não é tão perto assim ir de uma escola a outra. Tem gente que vem pra cá com o irmão menor. Como vai ser? Se o pequeno estudar lá na Fernão e o outro aqui?", questiona Lucas, estudante do primeiro ano de ensino médio da Godofredo, que participa da ocupação. Além da distância, a maior parte dos estudantes ressalta a perda do vínculo afetivo com a escola e a comunidade do entorno, e a impossibilidade de participarem das decisões escolares.

A demanda dos estudantes por participação está de acordo com o artigo 3º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que coloca como princípio a "gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino". Iara, de 18 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio afirma que ouviram sobre as mudanças de uma pessoa que nem conheciam. Ao tentarem dialogar, ouviram: "Vocês já foram transferidos, não tem mais jeito".

Foram para as ruas e continuaram sem possibilidade de interlocução. Até que ouviram sobre a escola ocupada em Diadema e depois sobre a Fernão Dias Paes. "O pessoal gosta de falar que tem rixa entre a Godofredo e a Fernão, mas isso não tem nada a ver", colocaram. Prova é a presença de três estudantes da outra escola na ocupação da Godofredo, para apoiar a organização do grupo. Quando uma nova ocupação é deliberada, a comissão de informação trata de comunicar às outras, pela internet e presencialmente. Quem já está organizado há mais dias vai apoiar o início da ocupação das outras escolas. Articulação em rede, que extrapola o Facebook. Aprendizado entre pares, que expande a noção de educação.

Além da comissão de informação, há a de limpeza, segurança e cozinha. Começavam a planejar atividades culturais e educativas quando o almoço foi servido. Arroz, feijão, salada e carne com batata. Tudo preparado por meninas e meninos. "Porque não dá pra ser machista, né?", colocou uma das alunas enquanto monitorava a panela.

Os mantimentos foram doados pela vizinhança, professores e pessoas que passaram pela rua perguntando como ajudar. Em menos de dez minutos no portão da escola, duas demonstrações de solidariedade. Maria Bispo, de 55 anos, acompanhou os 12 anos de escolarização da filha na Godofredo. Quando soube da ocupação, resolveu passar para perguntar como ajudar.

Pedro Vieira, de 30 anos, arquiteto, também foi até a Godofredo oferecer solidariedade e ajuda prática. Saiu e voltou com produtos de limpeza, quando compartilhou uma memória importante, vivida por ele na adolescência em Poços de Caldas, Minas Gerais. "O ensino fundamental seria mantido na escola onde eu estudava pelo município e o ensino médio seria extinto naquele colégio, uma vez que era de responsabilidade do governo estadual. Fomos para a rua e a divisão não aconteceu. O colégio continua lá, da pré-escola ao ensino médio. Municipal, público e de qualidade!"

Além da importância do vínculo afetivo que se cria com a escola, e interfere na qualidade do ensino, o arquiteto também colocou a importância de espaços de qualidade para a educação: "Escolas como essa, de janelas grandes, salas iluminadas, pátio, quadra e biblioteca, espaços de convivência, são cada vez mais raras. É fundamental mantê-las não só pelo sistema educacional, mas pela possibilidade de experimentar seus espaços, que são formadores." Pedro recomendou a leitura da dissertação de mestrado de Fabiana Valeck de Oliveira, defendida em 2007 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Em "Arquitetura escolar paulista nos anos 30", Fabiana explica como a arquitetura de escolas como a Godofredo Furtado estava conectada a propostas pedagógicas da década de 1930.

O projeto arquitetônico da Godofredo, de 1936, tem relação com as propostas do Manifesto da Escola Nova, de 1932. Intelectuais do porte de Cecilia Meirelles e Anísio Teixeira assinam o manifesto, de cerca de 15 páginas, que propunha:

"Nessa nova concepção da escola, que é uma reação contra as tendências exclusivamente passivas, intelectualistas e verbalistas da escola tradicional, a atividade que está na base de todos os seus trabalhos, é a atividade espontânea, alegre e fecunda, dirigida à satisfação das necessidades do próprio indivíduo. Na verdadeira educação funcional deve estar, pois, sempre presente, como elemento essencial e inerente à sua própria natureza, o problema não só da correspondência entre os graus do ensino e as etapas da evolução intelectual fixadas sobre a base dos interesses, como também da adaptação da atividade educativa às necessidades psicobiológicas do momento. O que distingue da escola tradicional a escola nova, não é, de fato, a predominância dos trabalhos de base manual e corporal, mas a presença, em todas as suas atividades, do fator psicobiológico do interesse, que é a primeira condição de uma atividade espontânea e o estímulo constante ao educando (criança, adolescente ou jovem) a buscar todos os recursos ao seu alcance, 'graças à força de atração das necessidades profundamente sentidas'. É certo que, deslocando-se por esta forma, para a criança e para os seus interesses, móveis e transitórios, a fonte de inspiração das atividades escolares, quebra-se a ordem que apresentavam os programas tradicionais, do ponto de vista da lógica formal dos adultos, para os pôr de acordo com a 'lógica psicológica', isto é, com a lógica que se baseia na natureza e no funcionamento do espírito infantil."

As alunas e alunos do Godofredo estão limpando salas e carteiras. Planejam pintar as paredes da escola e realizar um sarau no final de semana. Na quadra, dão e assistem aulas sobre a resistência estudantil ao regime militar. Experimentam uma organização horizontal enquanto protestam para que escolas não sejam fechadas. Não sei se em outro momento o prédio já cumpriu tanto da proposta pedagógica para a qual foi projetado. Se depender da rapaziada, daqui pra frente cumprirá.

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