OPINIÃO
17/06/2014 15:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

17 de junho: a demanda das ruas por uma política em rede

CRIS FAGA/FOX PRESS PHOTO/ESTADAO CONTEUDO

Artigo publicado originalmente em espanhol no periódico Nueva Sociedad, edição setembro/outubro de 2013, sob o título "No es por 20 centavos. Es por derechos. Las demandas em las calles y la politica em red".

Sem bandeiras, sem líderes com nome e sobrenome, eventos agendados pelo Facebook. As manifestações que ocupam as ruas do Brasil desde o último junho não oferecem os indícios com os quais se costuma interpretar manifestações populares tradicionais e evidenciam características da chamada sociedade em rede. As práticas políticas que temos observado nesses movimentos são viabilizadas e influenciadas pelas tecnologias de informação. Para compreendê-las é necessário aceitar que as redes digitais, ao possibilitarem uma comunicação rápida e distribuída entre pares, potencializam também novas formas de ação política. Neste artigo, optamos por não falar genericamente sobre os recentes protestos ou enumerar fatos e estatísticas sobre os últimos meses, mas analisar acontecimentos de um único dia na maior cidade brasileira. Acreditamos que os acontecimentos em torno do dia 17 de junho de 2013, na cidade de São Paulo, nos permitem explorar diversos conceitos úteis para compreender as dinâmicas políticas que emergem pelo planeta.

Ao utilizar o termo sociedade em rede, referimo-nos à nova ordem social vigente sob o paradigma da tecnologia da informação, expressa fundamentalmente nos processos de digitalização e na internet1. O paradigma pode ser definido por cinco características centrais: (1) a informação é sua matéria-prima; (2) as tecnologias penetram todos os processos, individuais e coletivos, de nossa existência; (3) a lógica das redes pode ser implementada materialmente em todos os processos e organizações; (4) a flexibilidade de processos, organizações e instituições que podem mudar e se reconfigurar constantemente; (5) a convergência de tecnologias específicas para um sistema integrado2.

Cabe registrar que rede é um conjunto de nós interconectados de acordo com determinada topologia. Os diagramas abaixo, sistematizados por Paul Baran em 19643, permitem visualizar nas diferentes topologias de rede a conectividade e a frequência de interação de cada um dos pontos. Na rede centralizada, um único nó concentra toda a articulação entre os demais. Na rede descentralizada, alguns nós, conectados entre si, articulam uma rede menor de nós. Na rede distribuída todos os pontos estão conectados por meio da conexão com outros pontos, sem centros. A arquitetura da internet é de uma rede distribuída, em que cada dispositivo estaria potencialmente conectado aos demais, sem intermediação ou concentração de articulações impostas pela arquitetura. É possível afirmar que a lógica de redes do atual paradigma tecnológico, no qual a internet merece destaque, trata de uma arquitetura distribuída.

FIG. I - Redes centralizadas, descentralizadas e distribuídas

Três características centrais do atual paradigma tecnológico podem ser facilmente apreendidas nas manifestações do dia 17 de junho. As tecnologias digitais estavam presentes desde a articulação do evento, pelo Facebook, quando 287.457 pessoas confirmaram presença4; passando pelas trocas de mensagens por SMS e por aplicativos de comunicação instantânea antes e depois da concentração (já que a maior parte dos telefones celulares não tinha acesso nem à internet nem à telefonia no Largo da Batata); até o registro dos acontecimentos com fotos e vídeos feitos por celular.

A lógica das redes pode ser percebida na convocação da manifestação, feita pelo Movimento Passe Livre5 - um movimento social fundado no ano de 2005, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, que desde então defende que os transportes públicos tenham tarifa zero para a população de diversas cidades no país - e amplamente potencializada, de maneira distribuída, pelas páginas do Movimento Contra a Corrupção e do Anonymous Brasil6. Os trajetos percorridos pelos cerca de 65 mil manifestantes7 extrapolaram a proposta inicial do MPL, também na lógica de rede: emergiram novos caminhos para marchar, de maneira distribuída, durante o evento. A multidão saiu do Largo da Batata pela avenida Faria Lima e se dividiu em diferentes grupos: os que foram para a ponte Estaiada, os que chegaram ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado; os que foram para a avenida Paulista, por rotas diferentes; e os que optaram por ir para a avenida Berrini8. A característica da flexibilidade pode ser observada no protesto pela profusão de pautas agregadas à revogação do aumento da passagem de ônibus. Para listar algumas: o direito à manifestação, o direito à cidade, a não criminalização dos movimentos sociais, o fim da violência policial, o fim da corrupção, transporte público de qualidade, mobilidade urbana, melhorias na saúde e na educação.

Também a estrutura de funcionamento e os princípios políticos adotados pelo MPL podem ser analisados sob o paradigma das tecnologias digitais - observando-se que novas formas de comunicação e organização social inspiram transformações na forma de organização política. O MPL adota como princípios9: autonomia (autogestão financeira - os coletivos participantes em diversas cidades do país não são financiados por um controle central), independência (como uma consequência da capacidade de autogestão, os coletivos são independentes entre si, podendo organizar as próprias ações e pautas), horizontalidade (todas as pessoas envolvidas no movimento devem ter o mesmo poder de decisão, configurando um espaço "onde todos e todas são líderes, ou esses líderes não existem"), apartidarismo (partidos oficiais e não oficiais não participam do MPL, apesar de indivíduos filiados a partidos poderem adotar os princípios e fazer parte do movimento), federalismo (organização do movimento por meio de um pacto federativo, em que cada coletivo adota os princípios listados acima, e tem autonomia de ação. "Devem ainda estabelecer uma rede de contatos intercoletivos, tentando ao máximo se aproximar uns dos outros, tornando real o apoio mútuo, o que garantirá organicidade ao Pacto Federativo do MPL"). Pode-se dizer que o próprio MPL se organiza como uma rede altamente descentralizada ou até distribuída, já que o poder de ação política está distribuído pelos diversos nós (coletivos, pessoas) que fazem parte da rede. Essa forma de organização foi importante para que diversas outras práticas de rede pudessem emergir nas manifestações.

Nos dias que se seguiram ao 17, muitos militantes de partidos políticos e de movimentos sociais organizados questionavam a legitimidade do protesto que se articulava "no sofá", pelas redes sociais, que não tinha uma liderança centralizada nem pauta única. Não ficava evidente, naquele momento, que, além das pautas declaradas, as pessoas questionavam a forma centralizada de um fazer político pelo qual não se sentiam representadas. Nos protestos seguintes ao dia 17 foi possível perceber que palavras de ordem como "abaixem as bandeiras" ou "sem partidos", anteriormente explicadas como o anseio por protestos apartidários, desandaram para ações antipartidárias e antidemocráticas, de agressão verbal e física a pessoas com bandeiras ou camisetas de partidos. Os rostos pintados de verde e amarelo, interpretados como uma captura dos protestos por movimentos nacionalistas de direita, eram muitas vezes um rompante pouco reflexivo de pessoas que queriam ocupar as ruas para fazer política pela primeira vez. A maior parte dos manifestantes, 53%, tinha até 25 anos de idade e 73% participavam pela primeira vez das manifestações de junho10; não há dados que afirmem o número de pessoas que se manifestava pela primeira vez na vida, mas o clima nas ruas era de que a maior parte das pessoas experimentava um fazer político pela primeira vez. Classificar os movimentos emergentes como de direita ou pouco legítimos contribui pouco para o amadurecimento de nossa democracia, e significa abrir mão do diálogo e da disputa política. Parece-nos mais interessante observar o anseio por novas formas de organização política.

"Saímos do Facebook"11

Práticas políticas emergentes não determinam, necessariamente, a superação de formas anteriores de organização do poder. Apesar de existirem, na sociedade em rede, potenciais inéditos para a ação coletiva (como por exemplo a redução drástica dos custos de promoção de novas ideias e de articulação de pessoas), as práticas políticas que se dão pela lógica das redes coexistem com valores, processos e estruturas da política tradicional. Existe um movimento dinâmico e constante de oposição à atuação política distribuída, mas também um processo de validação e apropriação das práticas emergentes por parte dos centros de poder político.

As manifestações que se iniciaram em junho no Brasil também seguiram essa dinâmica. Por um lado, foram forjadas pela lógica de uma sociedade que, cada vez mais, se organiza em rede, com o poder de ação política sendo distribuído entre pares (em vez de concentrado nos níveis de uma hierarquia) e servindo a interesses diversos (em vez de a uma pauta única). Por outro lado, as manifestações interagem com a lógica da politica tradicional e são parte dela.

Até o dia 17 de junho, a resposta do poder público às manifestações foi tímida - mediada pelos veículos de comunicação de massa, sem abertura de espaço para diálogo direito com os manifestantes. Naquele momento, havia indicações do grande número de pessoas que ocuparia as ruas para o 5º Ato Contra o Aumento das Passagens do Movimento Passe Livre (MPL) - como o número de confirmações de presença no evento no Facebook, além do intenso debate sobre o tema que se estabelecia nas redes sociais e na mídia tradicional.

Gráfico: Confirmações de presença nos eventos do Facebook12

As manifestações anteriores haviam sido marcadas pela violência policial evidente no uso de gás lacrimogênio e spray de pimenta sem critérios, na prisão arbitrária de pessoas que portavam vinagre para se proteger do gás13, nos tiros de bala de borracha disparados contra qualquer pessoa, incluindo jornalistas que se identificaram e levaram tiros no rosto14. Um fotógrafo que cobria o protesto do dia 13 chegou a ficar cego de um olho e está processando o governo do Estado15. A violência policial do 4º Ato foi uma das causas do grande aumento no número de participantes nas manifestações.

Na manhã do dia 17, o MPL foi convidado a se encontrar com a cúpula de segurança pública do Estado de São Paulo. O objetivo do poder público na manhã do dia 17 era discutir o trajeto dos protestos e minimizar a possibilidade de conflitos entre manifestantes e a Polícia Militar. Os representantes do movimento presentes na reunião mantiveram a posição de que o trajeto das manifestações não seria publicado previamente, e nem negociado com a polícia. Segundo notícia divulgada pelo portal G1, também afirmaram: "A gente não é dono da manifestação. Se tem alguém que pode controlar a revolta são o prefeito e o governador, revogando a tarifa"16.

Ainda nessa mesma manhã, uma representante do MPL também compareceu à prefeitura para se reunir com representantes do Conselho da Cidade17, com o objetivo de discutir a agregação do Movimento ao Conselho. Sem presença anunciada na reunião, o prefeito Fernando Haddad esteve no local. Segundo nota publicada pela administração municipal para a imprensa: "O prefeito Fernando Haddad passou na sala onde ocorria a reunião, próxima de seu gabinete, para conhecer a representante do movimento". O prefeito então falou sobre a inviabilidade técnica de reduzir o preço das tarifas de transporte. O MPL, posteriormente, publicou uma nota esclarecendo as limitações desse encontro: "os aumentos de tarifa não se tratam de uma questão técnica, mas política, como provam os diversos lugares em que a pressão popular conseguiu os reverter. Mesmo com a presença-surpresa do prefeito, essa conversa não tinha o poder de negociar a revogação do aumento. O MPL vem a público reforçar a necessidade de estabelecer um espaço de negociação sobre a pauta única das manifestações -- a revogação do aumento"18.

É possível perceber, analisando esse caso, que, quando as práticas políticas de rede coexistem com instituições políticas plenamente estabelecidas, a interação entre essas duas forças é bastante complexa. Tal complexidade fica evidente na maneira como as instituições respondem a demandas emergentes das redes. Essa resposta, no caso das manifestações, demonstrou a incapacidade dos centros de poder de entender novas dinâmicas de organização social.

Algumas amostras dessa incapacidade ficam claras nos episódios descritos acima: a violência policial do dia 13 de junho. A pressão do poder público por uma negociação de trajeto da manifestação do dia 17, contra a declaração pública, por parte do MPL, de que o movimento "não era o dono" das manifestações (o que de fato, posteriormente, se confirmou, já que manifestantes utilizaram diversas rotas para chegar a diferentes pontos da cidade). A "presença-surpresa", como descreveu o MPL, do prefeito de São Paulo em uma reunião com uma representante do movimento, justificada em nota da prefeitura como um acontecimento não planejado, criando assim um espaço insuficiente e secundarizado de diálogo, para abordar apenas aspectos técnicos do que já havia se tornado uma discussão política com grande amplitude e participação popular.

"Ô, motorista. Ô, cobrador. Me diz aí se o seu salário aumentou"

Mesmo quando existem vontade e interesse político na apropriação das demandas emergentes de uma sociedade em rede, existem também dificuldade de entender a forma como essas demandas são levantadas e incapacidade de agregar novas formas de organização ao processo político vigente - como alguns acontecimentos posteriores às manifestações do dia 17 de junho podem demonstrar.

A prefeitura de São Paulo havia convocado, no dia 14 de junho, uma reunião com o MPL e o Conselho da Cidade, prevista para acontecer na manhã do dia 18. Durante essa reunião, com a presença do prefeito Fernando Haddad, representantes do movimento expuseram a demanda da revogação do aumento da tarifa dos transportes públicos, bem como questões a respeito da qualidade do sistema e da necessidade de mais transparência no setor. Na fala de encerramento da reunião, o prefeito justificou o aumento da tarifa citando dados do aumento da remuneração dos trabalhadores dos transportes, no que foi interrompido por uma manifestante do MPL, que questionou os números apresentados. Segundo transcrição publicada no site da prefeitura de São Paulo19, o prefeito respondeu: "Querida, eu estou dizendo que teve o reajuste e você está dizendo que não. Você entrou nos ônibus falando para os motoristas e cobradores que eles não tiveram reajustes. Esse ano, tiveram 10%. Nos últimos 3 anos, foram 24%. Você está preparada para o debate, mas eu também estou. Eu conheço a cidade". Além disso, o prefeito apresentou verbalmente os valores que estariam comprometidos para outras áreas da prefeitura caso o aumento fosse revogado: "Nós vamos ter que encontrar dentro desse orçamento espaço pra R$ 2,7 bilhões de custo, não adianta eu fugir disso". Após interrupção de uma integrante do MPL, o prefeito continuou: "Querida, não é assim. Eu estou querendo dizer para você que eu vou ter que explicar para a cidade que são R$ 2,7 bilhões que eu vou ter que arrumar". Sobre as demandas por transparência no setor de transportes, o prefeito comentou: "Fala-se em caixa preta. Eu odeio caixa preta. Se eu gostasse de caixa preta eu não traria um controlador geral para me auxiliar aqui no combate a corrupção".

A fala do prefeito Fernando Haddad nessa reunião marcou a abertura de negociações para a revogação do aumento da tarifa de transportes na cidade. Ainda assim, apesar de ter criado espaço de diálogo legítimo sobre uma demanda emergente, essa resposta demonstrou um distanciamento da prefeitura, enquanto instituição política, da lógica que inspira e viabiliza as articulações de movimentos como o MPL. Foi uma sinalização de possível alinhamento com o conteúdo das manifestações, mas, ao mesmo tempo, demonstrou o quanto a ação política tradicional estava, nesse caso, distante da forma de atuação das ações políticas em rede.

Evidencia esse distanciamento o uso, por parte do prefeito, da autoridade do conhecimento da cidade e da detenção de dados sobre temas públicos, em oposição a um movimento que se articula com base no compartilhamento radical de informações em redes digitais. As tecnologias digitais possibilitam que cidadãos e cidadãs de se apropriem de dados de seu interesse e utilizem essas informações para produzir suas próprias narrativas. Mais do que nunca, existem hoje tecnologias e processoss para o acesso à informação pública. Em vigor desde 2012, a Lei de Acesso à Informação Pública20 brasileira garante que dados da administração pública sejam disponibilizados por programas de transparência ativa na internet, em formatos que permitam sua reutilização.

Segundo o pesquisador Yochai Benkler, na sociedade em rede, "o armazenamento ubíquo [de dados] e a [ampliação da] capacidade de comunicação significam que o discurso público pode se basear em uma lógica de 'veja você mesmo' em vez de 'confie em mim'"21. Distante da lógica de rede, a fala do prefeito Haddad após as manifestações evoca a lógica do "confie em mim", em vez do reconhecimento da dificuldade de acesso e de compreensão dos dados relacionados ao setor de transportes, bem como do orçamento público da cidade, que não estão disponíveis em formatos abertos, dificultando sua manipulação e seu cruzamento. Se abordasse o tema da transparência sob uma perspectiva de política em rede, a prefeitura abriria os dados de forma a tornar possível o acesso e o uso das tecnologias para visualizá-los, cruzá-los e remixá-los -- num processo verdadeiro de ressignificação da sua autoridade e compartilhamento de poder. Ainda segundo Benkler: "As práticas sociais de informação e discussão permitem que um número muito grande de atores se veja como potenciais colaboradores do discurso público e como potenciais atores na arena política, em vez de serem receptores quase passivos de informação mediada, que ocasionalmente podem votar de acordo com a suas preferências"22. A abertura da "caixa preta", numa sociedade em rede, tem menos a ver com o simples combate à corrupção, e muito a ver com a possibilidade de se apropriar de informações relevantes na ação política.

Além de elucidar uma visão de informação, transparência e dados públicos distante das dinâmicas de rede, as frases acima, selecionadas da fala do prefeito Haddad, também nos chamam atenção especial por outro motivo: a forma como o prefeito se referiu à representante do MPL Mayara Vivian, que foi chamada enfaticamente de "querida", por duas vezes. Chamar uma jovem de "querida" é um tratamento comum ao âmbito privado, não cabível ao âmbito público - e, quando colocado nesse espaço, considerado extremamente pejorativo na cultura brasileira. A discussão política colocada pela representante do MPL está, evidentemente, no âmbito público. Reservar uma forma de tratamento comum à esfera privada a uma mulher militante é uma forma de diminuir o valor da sua participação, como já foi observado e analisado em diversas pesquisas. Segundo a historiadora Ana Maria Colling, "a dicotomia entre público e privado ocupa um lugar de destaque na história das mulheres"23. A pesquisadora Mirian Goldenberg utiliza a ideia de invisibilidade para mostrar como as mulheres são percebidas como secundárias ou inferiores em organizações de esquerda.

A história da esquerda brasileira foi, e é ate hoje, escrita em torno das trajetórias destes ' grandes homens'. As mulheres aparecem como meras coadjuvantes. Aos homens cabem as decisões politicas (o mundo das idéias) e as acões ações práticas (o mundo público). Às mulheres, o suporte familiar e caseiro (o mundo doméstico) para que estes homens possam continuar realizando suas 'nobres' atividades políticos24.

Não precisamos argumentar aqui sobre o direito das mulheres à participação política e ao protagonismo na esfera pública. Nossa intenção é ressaltar que o termo "querida" empregado pelo prefeito Fernando Haddad, que se dirige à militante como se faz em âmbito privado, pode ser interpretado como uma diminuição de sua participação e um recado pouco sutil de que temas públicos são para os homens.

"Não é por 0,20, é por direitos"

Após a grande movimentação nas ruas, a prefeitura de São Paulo e o governo do estado de São Paulo revogaram o aumento das tarifas de transporte público. A revogação foi anunciada no dia 19 de junho, em uma fala conjunta do prefeito Fernando Haddad e do governador do estado Geraldo Alckmin. Acontece que tal demanda, a da redução do preço do transporte, ao mesmo tempo em que era articulada nas ruas e nas redes digitais, transformou-se em múltiplas outras demandas políticas: mais transparência para o setor dos transportes, maior qualidade dos serviços, revisão dos lucros das empresas, menos corrupção no campo da política em geral, pleno direito à manifestação pública, fim da repressão dos movimentos de ocupação das ruas, desmilitarização das polícias, para citar apenas algumas delas.

Se é difícil listar um conjunto de diversas demandas objetivas para as manifestações, é possível perceber a não-intermediação de tais interesses por partidos ou lideranças tradicionalmente reconhecidas - demonstrando uma vontade coletiva de ação política fora das vias tradicionais. Ou seja: não basta simplesmente os governos reduzirem as tarifas, nem correrem atrás das vontades pontuais levantadas por manifestantes, uma a uma. É necessário, em vez disso, incorporar, à lógica atual de funcionamento dos governos, esse processo emergente e descentralizado de ação política - com maior abertura à participação da sociedade, mas sem engessar ou burocratizar suas articulações.

Mais do que atender demandas políticas específicas, as manifestações evidenciam a necessidade de instituições tradicionais se abrirem para uma nova cultura política -- possivelmente mais participativa, mais horizontal, mais diversa, mais em dia com as possibilidades de comunicação e articulação política em rede. Apesar disso, tem faltado às instituições políticas tradicionais a abertura necessária para abranger não apenas reinvindicações públicas pontuais, como também o processo rico e inovador que trouxe essas reivindicações para a discussão pública. Pelo contrário: o que estamos vendo são governos que até são capazes de atender demandas pontuais da sociedade, mas que ao mesmo tempo tentam sufocar suas novas dinâmicas de organização. Ou que, na tentativa de se apropriar da narrativa das manifestações, acabam propondo soluções distantes do processo político vigente, sendo assim pouco transparentes em relação às reais possibilidades de transformação que estão em jogo nesse momento.

"E ainda nem é primavera"

"Ontem, alguém aqui disse 'Nós nos encontramos'. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto, assim como uma ideia tão grande que não pode ser contida por nenhum espaço, para todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrarem umas às outras. Somos tão gratos". Esse trecho do discurso da ativista Naomi Klein ao movimento Occupy Wall Street, em outubro de 2011, captura também o que sentimos na noite de 17 de junho.

Apesar das práticas políticas emergentes das manifestações de junho no Brasil estarem distantes da lógica dos centros estabelecidos de poder, acreditamos que elas estão muito próximas de outros movimentos que acontecem nas periferias do mundo. Nas ruas de São Paulo, tomadas por multidões, a correlação com as primaveras e os occupies emergia não apenas das palavras de ordem dos manifestantes, mas também do clima de entusiasmo coletivo com a ocupação do espaço público, da construção de um diálogo político inédito, da legitimação de uma cultura política menos intermediada e mais participativa.

O antropólogo Jeffrey Juris tem se dedicado a compreender o que chama de movimentos sociais em rede. Ele estudou o Movimento Zapatista de Libertação Nacional, os protestos antiglobalização do início dos anos 2000 e mais recentemente os movimentos #Occupy. Ele afirma que na auto-organização, na comunicação e na coordenação de ações utilizando as tecnologias de informação, esses movimentos expressariam a rede também como um ideal político emergente de organização25. Juris afirma que os movimentos #Occupy respondem e, ao mesmo tempo, ajudam a criar novas possibilidades políticas e discursivas. Ele pontua o risco de os movimentos se desagregarem ou serem cooptados por partidos políticos, todos eles, na sua visão do autor, comprometidos com corporações e outras manifestações do poder econômico:

De fato, muitos membros do #Occupy estão pedindo transformações radicais na organização da sociedade, na política e na economia, assim como lutam para enfrentar desafios de raça, de classe, de gênero e hierarquias internas nos acampamentos. Enquanto isso, ao evoluírem as formas de decisão por consenso, pela auto-organização e a colaboração em rede, representam uma experiência de modelos alternativos de sociabilidade e de democracia social26.

Neste momento de interpretação e análise das manifestações no Brasil, é importante ter em mente que as pessoas nas ruas não negavam a melhoria de vida e os direitos conquistados nos últimos anos. Elas mostravam que queriam mais e mais rápido, não como receptoras de decisões alheias a elas, mas como sujeitos protagonistas da ação política direta, sem intermediação, com novas formas de organização. Demanda comum aos movimentos #Occupy analisados por Juris, aos eventos da Primavera Árabe ou ao 15-M espanhol. A demanda por uma política em rede.

*

1 Castells, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

2 Castells, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 77 - 80)

3<http://escoladeredes.net/profiles/blogs/breves-consideracoes-sobre-o>.

De acordo com relatório produzido pelos sociólogos Tiago Pimentel e Sergio Amadeu da Silveira: 4.

5 Sobre o Movimento Passe Livre: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Passe_Livre>.

6 Ainda segundo as análises do Facebook produzidas por Tiago Pimentel e Sergio Amadeu da Silveira: .

7 Segundo o Instituto de Pesquisa Datafolha: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2013/06/1297654-largo-da-batata-reuniu-75-mil-a-maioria-novatos-na-onda-de-protestos.shtml>.

8 O verbete da Wikipédia sobre as manifestações reuniu notícias que revelam os diferentes trajetos da manifestação: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_no_Brasil_em_2013>.

9 Princípios do Movimento Passe Livre: <http://saopaulo.mpl.org.br/apresentacao/carta-de-principios/>.

10 Dados do Datafolha: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2013/06/1297654-largo-da-batata-reuniu-75-mil-a-maioria-novatos-na-onda-de-protestos.shtml>.

11 Os intertítulos deste artigo são algumas das palavras de ordem presentes nas manifestações de rua do dia 17 de junho.

12 Gráfico produzido por Tiago Pimentel e Sergio Amadeu da Silveira. Disponível em: .

13 A reportagem do G1 mostra casoss de prisão por porte de spray e vinagre: <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/presos-em-protestos-em-sp-relatam-detencoes-por-spray-e-vinagre.html>.

14 Dezenove jornalistas sofreram violência policial na cidade de São Paulo, 45 em todo o país: <http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=3888>. Só da Folha de São S. Paulo, sete profissionais foram atingidos no dia 13 de junho: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1294799-em-protesto-seis-reporteres-da-folha-sao-atingidos-2-levam-tiro-no-rosto.shtml>.

15<http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/borracha-cega-mas-nao-cala-diz-fotografo-atingido-por-pm>.

16<http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/reuniao-em-sp-reune-cupula-da-seguranca-e-manifestantes.html>.

17 O Conselho da Cidade foi criado em 2013 como um órgão consultivo é formado por 136 representantes dos movimentos sociais, entidades de classe, empresários, cientistas e pesquisadores, artistas e lideranças religiosas da cidade de São Paulo. Sobre o Conselho: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/comunicacao/noticias/?p=145018>.

18<http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/manifestante-se-encontra-com-haddad-em-reuniao-na-prefeitura.html>.

19 Transcrição da fala do prefeito Fernando Haddad em 18 de junho. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/comunicacao/noticias/?p=150419>.

20 Lei de Acesso à Informação Pública brasileira. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.htm>.

21 BENKLER, Yochai. The Wealth of Networks. Yale University Press: New Haven, 2006, p. 228

22 BENKLER, Yochai. The Wealth of Networks. Yale University Press: New Haven, 2006, p. 220

23 Colling, Ana Maria. As mulheres e a ditadura militar no Brasil. Coimbra: Centro de Estudos Sociais, Faculdade de Economia, 2004. Disponível em: <http://www.ces.uc.pt/lab2004/pdfs/Ana_Maria_Colling.pdf>. - citando a Michelle Perrot, Mulheres Publicas - pode ajudar em alguma coisa

24 Goldenberg. Miriam. Mulheres e militantes. Florianópolis: Estudos Feministas 1997. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/12152>.

25 Juris, Jeffrey S. "Networked social Social movementsMovements: global Global movements Movements for global Global justiceJustice". In:Castells, Manuel (Org.). The network Network societySociety: Aa crossCross-cultural perspective. Londres: Edward Elgar, 2004, (p. 255).

26 Juris, Jeffrey. "Reflections on #Occupy Everywhere: social media, public space and emerging logics of aggregation, ". American Ethnologist, vol. 39, ed. 2, 8 mai. 20112012. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1548-1425.2012.01362.x/pdf>.

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