OPINIÃO
18/08/2014 18:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A importância de programas de iniciação à docência: um relato pessoal

Um dos maiores gargalos da educação brasileira é o baixo investimento na etapa inicial da carreira docente. O que pode fazer diferença é a existência de um acompanhamento profissional que o auxilie nos primeiros anos de profissão.

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Um dos maiores gargalos da educação brasileira é o baixo investimento na etapa inicial da carreira docente. O tema é objeto de estudo de diversos pesquisadores na América Latina, como Denise Vaillant, do Observatório Internacional da Profissão Docente. Como já escrevi em outro blog, Denise defende que a formação inicial dos professores pode contribuir com a perpetuação de iniquidades múltiplas ou pode impulsionar reformas que tenham como foco o direito de aprender dos alunos. O que pode fazer diferença nesse sentido é a existência de um programa de desenvolvimento e acompanhamento profissional que auxilie o docente nos primeiros anos de profissão.

Na semana passada, participei de um programa, como o que descreve Denise, para professores assistentes na universidade em que estudo. Em geral, quem é admitido para o doutorado aqui, nos Estados Unidos, também é contratado como professor assistente de cursos de graduação. Com o objetivo de nos preparar para tal função, são oferecidas atividades de desenvolvimento profissional conduzidas por professores assistentes experientes (os professores-mentores) e por outros funcionários da universidade.

Relato aqui duas delas (ambas conduzidas por professores-mentores): o "microteaching" e as seções focadas nos possíveis problemas que encontraremos em sala de aula. Durante as férias, fomos instruídos a preparar uma aula curta sobre um tópico introdutório de nossa disciplina. O plano era apresentá-la para um grupo de alunos recém- admitidos de outras disciplinas e para um professor-mentor. A aula seria gravada, e depois haveria uma seção de debate sobre os pontos fracos e fortes do trabalho realizado por cada aluno.

Optei por dar uma aula sobre teorias de policymaking (em português, processo de formulação de políticas públicas), focando na teoria elitista. Comecei explicando o conceito de política pública, e então pedi aos meus colegas um exemplo de política pública que estivesse presente no cotidiano deles. Esperava ouvir algo como "Medicaid", o programa norte-americano que subsidia planos de saúde para a população pobre. Um deles levantou a mão e disse: "a Constituição?". Naquele momento percebi que a estratégia que adotei havia se mostrado ineficiente. Deveria ter começado a aula com um exemplo de política pública para só então explicar a definição do termo. No dia seguinte, assistimos ao vídeo da minha aula, e recebi feedback escrito e oral tanto do professor-mentor como dos colegas recém-admitidos.

Também assistimos a cenas gravadas ou esquetes encenadas pelos professores-mentores sobre problemas que encontraremos em sala de aula. Exemplos: o que fazer quando um aluno tenta dominar a discussão durante a aula? Como incentivar os alunos a participar nas aulas? Qual postura devemos ter quando um estudante não cumpre prazos, não frequenta aulas e corre o risco de perder o semestre? Devemos ou não aceitar convites de amizade feitos por alunos no Facebook ou em outras redes sociais? Ao invés de apresentar fórmulas ou respostas prontas sobre como agir nessas situações, os professores-mentores queriam primeiro saber de nós: como vocês agiriam? Em seguida, falavam das suas próprias experiências. Como eles agiram quando encontraram essas situações pela primeira vez? Foi possível melhorar ao longo dos anos?

Ao final do treinamento, percebi que a troca entre nós e os professores-mentores se mostrou fundamental por três motivos. Primeiro, tirou um pouco do medo e da ansiedade de entrar em uma sala de aula pela primeira vez. Segundo, deverá evitar possíveis angústias com as situações descritas acima, já que refletimos sobre elas antes mesmo de entrar em sala de aula. Terceiro, o feedback dos pares nos ajudou a ter uma dimensão real do trabalho que desenvolvemos como professores. Só foi possível realmente entender como minha aula havia acontecido quando ouvi e li o feedback dos professores-mentores e dos meus colegas.

Só começarei a lecionar em 2015, mas já estou contando os dias para o início das aulas.

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