OPINIÃO
12/06/2015 14:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Vaga para namorado. Mande seu CV

Sempre me intriga ver tantas mulheres lindas, inteligentes, interessantes e bem sucedidas solteiras no mundo. Tenho uma porção de amigas, primas e colegas de trabalho que não vão comemorar o dia dos namorados. São advogadas, altas executivas, artistas. Gente do mais variado perfil, temperamento, estilo, personalidade, mas com algo em comum: elas estão selecionando namorados pelo currículo.

stimpsonjake/Flickr
A young couple walking in Bucharest, Romania one rainy autumn day.

Sempre me intriga ver tantas mulheres lindas, inteligentes, interessantes e bem sucedidas solteiras no mundo. Tenho uma porção de amigas, primas e colegas de trabalho que não vão comemorar o dia dos namorados. São advogadas, altas executivas, artistas. Gente do mais variado perfil, temperamento, estilo, personalidade, mas com algo em comum: elas estão selecionando namorados pelo currículo. Não à toa a maioria já tem mais de 30 anos. Me parece que, quanto mais velhas, mais caem no equívoco de achar que para amar alguém é preciso fazer um cálculo rápido: a média das qualidades x defeitos. Ora, analisar pontos fortes e fracos serve para você escolher um candidato à vaga de emprego, não um pretendente a ter espaço no seu coração. Um amor não se seleciona assim. Aliás, um amor não se seleciona (PONTO).

Mas quanto mais o tempo passa, mais armaduras, defesas, camadas de racionalidade se impõem. E mais difícil fica acessar o que se sente, lá dentro, sem castrar o sentimento com a moral, os valores, os julgamentos, as análises e todos os condicionamentos que impomos a nós mesmas para amar.

Esses dias assisti um trechinho de uma entrevista antiga com o Tarcísio Meira falando da esposa, Glória Menezes (o casal está junto há quase 50 anos, algo muito raro principalmente entre atores). A jornalista perguntou: "o que faz você estar com a Gloria há tanto tempo, qual é a maior qualidade dela?". E ele respondeu "Olha, ela tem algumas qualidades, mas a amo independentemente de suas qualidades e defeitos. A amo (PONTO). É isso o que me faz querer estar com ela há tanto tempo".

Poderia dizer que a declaração do Tarcísio foi "fofa", mas foi muito mais do que isso. Achei-a extremamente complexa e profunda. É disso que se trata o amor: um sentimento inexplicável, inexpressável, muitas vezes inconveniente e imoral. Você poderia avaliar que Tarcísio foi hipócrita ou romântico. Muito pelo contrário, ele foi verdadeiro e humano. Nada mais humano do que amar o errado, o torto, o defeituoso. Se fosse preciso ser perfeito para ser amado, o mundo não teria sequer um casal.

Hipocrisia é a gente procurar o cara "certo". Qual o percentual de gente no mundo que de fato gosta do cara "certo"? Definitivamente, é o errado que a gente ama tantas vezes. Mas quantas de nós está sozinha porque não se permite amar o errado. A verdade é que é comum amar o grosso, amar o tosco, o abusivo. É comum gostar do perverso, do canalha, do machista, do controlador.

Tenho uma amiga que diz que sempre viveu um dilema: amava e tinha tesão por caras gostosos e toscos, mas admirava intelectualmente os gentis e bem articulados. Como resolver esta equação se dizem que para um relacionamento funcionar é essencial ter tesão e admiração? Ela não conseguiu. Está até hoje tentando encontrar - ciscando entre um e outro -- um cara que reúna todas essas características (talvez incompatíveis para uma pessoa só). Outra conhecida só se apaixona por homens casados. Fazer o que? Ela tem tesão em caras casados. Destruidora de lares? Não, está mais para destruidora do próprio lar, que nunca conseguiu construir. Chega sempre um determinado ponto do relacionamento que ela sai fora.

Aí essas moças como tantas outras viram consumidoras assíduas de livros e reportagens de autoajuda que vem com uma porção de receitas para a pessoa aprender a gostar de si mesma e assim atrair gente que "a mereça". E mais uma pilha daqueles que trazem listas sobre como reconhecer o cara "certo": 1.Ele vai fazer você sentir que tirou férias de si mesmo; 2. Com ele você se sentirá em paz; 3. Você vai se sentir à vontade para ser você mesma... Opa, peraí, e quem é você mesma? E quantas vezes amamos loucamente caras que nos tiram a paz? E quantos relacionamentos amorosos fazem a gente se enxergar mais profundamente em vez de se sentir de férias de si mesma? O amor é tão único e autêntico quanto você e eu. Cada uma sente de um jeito, cada uma deseja à sua maneira.

Não estou defendendo que se aceite relações abusivas, doentias ou de co-dependência para amar plenamente, sem culpa nem conflitos. Qualquer mulher minimamente escolarizada, de família minimamente estruturada e de formação razoável se nega a viver relações destrutivas por mais que tenha atração pela coisa. E sofre.

Diante desse cenário conflituoso do universo do sentir x pensar, a pergunta que paira no ar é: o amor pode mesmo acontecer? Parece que para muita gente não, ele não se concretiza, ao contrário do que nos ensinaram nos desenhos de princesa e contos de fada que ouvimos desde que nos entendemos por gente. Ainda assim, seria possível ser feliz, caso não tivéssemos aprendido que o amor romântico é obrigatório.