Opinião

Uma reflexão sobre mães (e filhos) à beira de um ataque de nervos

Quando eu paro para repensar as brigas que tenho com meu filho, me culpo por não ter conseguido usar técnicas tão simples que poderiam ter me ajudado a contornar as situações mais bestas que acabaram em estresse e chateação para ambos os lados porque resolvi bater de frente com ele. Então, depois de fazer toda esta reflexão que agora compartilho aqui, resolvi enumerar algumas e pregar na parede do meu armário para relembrar diariamente, antes mesmo de sair do quarto pela manhã. Devagar e sempre vamos tentando.
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Mãe: "Para de pular neste sofá agora."

Filho de 2 anos: "não vou parar".

Mãe (gritando): "SE VOCÊ NÃO PARAR AGORA NÃO VAI PARA A FESTA DA SUA AMIGUINHA DA ESCOLA NO FINAL DE SEMANA".

Filho de 2 anos: "vou sim"

Mãe: "NÃO VAI NÃO"

Filho de 2 anos: "vou sim"

Mãe: "NÃO VAI"

Filho de 2 anos: "vou sim, sua bobona"

Mãe: "NÃO ME CHAMA DE BOBONA!".

Final da história: mãe berra com a criança até ela chorar. Ambas vão dormir estressadas. E a criança vai feliz da vida na festa de aniversário da amiguinha no final de semana.

Esta não é uma cena fictícia. Acontece nas "melhores" famílias. Talvez tenha acontecido até na sua casa. Ou na minha. Aliás, vira e mexe me pego batendo boca com meu filho de 3,6 anos. E me sinto patética. Não me serve de consolo saber que não sou a única, e ver por todos os lados crianças de 2 a 8 anos contagiando seus pais com o seu padrão mental infantil e dando as rédeas de como se dará aquela relação.

O que eu vejo é uma geração de adultos isenta de qualquer inteligência emocional ao lidar com o natural e previsível desequilíbrio emocional das crianças.

Sempre me intriga assistir mães comentando a respeito de como seu filho de 2 ou 8 anos está impossível, insuportável, inadministrável, como se a criança fosse um ser estranho a ela, completamente apartado do ambiente em que vive, uma "self made child" (criança que se fez por si mesma sem qualquer influência do meio). Como se aquela mãe não tivesse qualquer responsabilidade sobre o comportamento errático de seu filho. Relatam o comportamento dele como se a dinâmica daquela relação mãe-filho nada interferisse no modus operandi da criança. Pior: não enxergam que o filho é reflexo de si mesmas. E pior ainda: têm a expectativa de que crianças se comportem de forma linear e previsível como "mini-adultos", coisa que eles não são. Porque "problematizar" tanto atitudes que são tão comuns no universo infantil? Expectativa equivocada, reação equivocada, leitura da cena equivocada.

Me intriga ver mães reclamarem de seus filhos como se não enxergassem que seus rebentos são o seu "portfolio" e que falar mal de suas crianças é se dar um tiro no pé (ou no espelho). Para um interlocutor mais sensível, entretanto, não é difícil notar que tal lamento é, no fundo, um pedido de ajuda: "não estou dando conta". O discurso de "vítima" dessas mães seria completamente convincente caso não fosse movido por uma energia de raiva que revela o quanto ela, no fundo, se sente parte do problema, mas impotente para solucioná-lo. Desvia para a criança a raiva que sente de sua própria incompetência. Seria "sentimento de culpa" disfarçado de raiva?

Não estou falando da incapacidade dos pais de impor limites. Esta visão, já tão batida, também tem lá seus equívocos. Me refiro à incompetência dos pais em atuarem como protagonistas na condução da relação com seus próprios filhos. É como se abrissem mão de usar todas as sofisticadas ferramentas que desenvolveram ao longo da vida - psíquicas, emocionais, cognitivas, intelectuais - e não tivessem consciência do poder que tem de conduzir a relação de forma estratégica com um ser que ainda tem tão poucos recursos - psicológicos, fisiológicos, emocionais, cognitivos, intelectuais.

E por que nos vemos tão frágeis, indefesos e ineficientes diante destes pequeninos seres que vivem conosco?

Seria simplista minimizar tudo, dizer que estamos todos vivendo "à beira de um ataque de nervos", que o mundo está à beira de um ataque de nervos. Talvez falte a nós, pais, a noção de que criar uma criança é algo que requer mais que estudo, estratégia e planejamento do que administrar uma empresa. Não deveria ser algo puramente intuitivo, baseado no calor do momento, da emoção, e muito menos mera reprodução do que fizeram com a gente.

Canso de ouvir a batida frase "eu apanhei e não tenho nenhum trauma, olha eu aqui inteirinha". Todos temos traumas, e ninguém está inteiro. Acho que este argumento é suficiente para te tirar do comodismo e fazer você pensar em melhores estratégias para lidar com seu filho. Mas, se precisar de mais argumentos, gostaria de lembrá-la que talvez você tenha sido educada na época da Ditadura Militar no Brasil, onde vigorava a imposição do poder pela força e o autoritarismo. Graças a Deus, os tempos mudaram, estamos numa democracia, onde predominam técnicas muito mais requintadas de conquista de poder (por meio da persuasão, do marketing, de argumentações bem fundamentadas), do que pelo tosco abuso da força. Portanto, ser ditatorial com seu filho é um grandioso retrocesso.

Cuidar de uma criança requer primeiro um grande autoconhecimento por parte dos cuidadores, para entender quais são os seus pontos fracos. E reconhecer que o ponto fraco é seu: esperta a criança que consegue atingi-lo. Covardia puni-la por isso.

As crianças parecem intuitivamente conhecer as principais lições de uma obra milenar: o tratado A arte da guerra, de Sun Tzu, escrito durante o século IV a.C. Sun Tzu escreve que, em uma disputa, a pior estratégia é a medição de forças. A saída é focar as fraquezas do adversário para desequilibrar suas forças e, assim, preparar-se para o ataque. Porém, ao serem atacados em seus pontos fracos, muitos pais acabam fazendo exatamente o contrário: apelando por medir força. "Quem manda aqui sou eu!".

Mais do que estratégia de negociação, cuidar de uma criança requer conhecimentos básicos de psicologia infantil. E bastante disponibilidade emocional e de tempo, para escutá-la, observá-la, lê-la nas entrelinhas, e interagir com ela.

Cuidar de uma criança requer também que os pais aceitem que o timing dela é diferente do dos adultos e que é o timing dos adultos que está equivocado, não o da criança. Não é natural do ser humano viver correndo. Se é uma violência para nós, cascas grossas já habituados a este mundo insano, imagine para um ser que acaba de chegar?

Também parece que os pais têm uma expectativa irreal em relação ao comportamento infantil: esperam uma maturidade para lidar com decepções e frustrações que é inalcançável para uma criança daquela idade.

Quando eu paro para repensar as brigas que tenho com meu filho, me culpo por não ter conseguido usar técnicas tão simples que poderiam ter me ajudado a contornar as situações mais bestas que acabaram em estresse e chateação para ambos os lados porque resolvi bater de frente com ele.

Então, depois de fazer toda esta reflexão que agora compartilho aqui, resolvi enumerar algumas e pregar na parede do meu armário para relembrar diariamente, antes mesmo de sair do quarto pela manhã. Devagar e sempre vamos tentando.

1. Desviar o foco da criança despertando a curiosidade para outro objeto (que não aquele que causa perigo ou me desagrada). Exemplo: tirar a atenção dela do sofá macio (que por motivos óbvios mais parece um pula-pula aos olhos infantis) para, vamos imaginar, uma caixa fechada onde tem uma "surpresa", e "vamos adivinhar o que é?". Como ensinou Sun Tzu: quando estamos em desvantagem em algum atributo, a melhor tática é atrair o adversário para um cenário no qual temos vantagem.

2. Entender a origem da birra aparentemente gratuita, iniciada por um gatilho qualquer. Enxergar que o motivo verdadeiro pelo qual a criança está chorando, não foi porque você não deu colo para ela na hora que chegou na escola, mas porque, antes de sair de casa, em vez escutá-la, você passou todo o tempo trocando mensagens pelo celular com uma amiga.

3. Não reagir com nervosismo ao nervosismo da criança. Faça o contraponto: dê a ela silêncio e serenidade. Assim, você não contribui para botar lenha na fogueira. Ouça o mestre Sun Tzu, que diz que o mérito supremo consiste em quebrar a resistência do "inimigo" sem lutar. (vamos substituir a palavra "inimigo" por "criança").

4. Levar o choro da criança menos a sério no momento em que está ocorrendo. Deixe o murmurinho como pano de fundo e vá cuidar da sua vida. Não se incomode (ou ao menos finja!) com o choro e lamento que insiste em pedir um doce cm mil vezes, e vai bater papo com o marido.

5. Não tentar impor à força silêncio para a criança no momento em que ela está fazendo escândalo. Ela não sabe conter sua decepção por não ganhar o que quer. Apenas oriente-a a ficar em um local "mais reservado" até se acalmar.

6. Depois que o nervosismo da criança passou, tente ajudá-la a nomear o sentimento que a levou àquele rompante e descobrirem juntas o motivo, e como ela poderia reagir melhor com a própria tensão, de uma maneira menos sofrida.

Não duvide da capacidade destes serzinhos de nos compreender a partir de uma abordagem amigável e adulta. E assim, quem sabe a gente consiga amadurecer um pouquinho com eles também?

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