OPINIÃO
06/04/2015 17:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Quando a doença é o remédio

Queremos soluções imediatas, resultados práticos para o agora. Mais pra frente certamente a ciência já terá desenvolvido novas drogas para os problemas que eventualmente forem desencadeados hoje... É o que queremos crer, e o que interessa à indústria que acreditemos, pois é dessa neurose coletiva que ela se alimenta. E nós estamos ocupados demais para encher a cabeça com tanta reflexão. Melhor recorrer ao rivotril ou algo semelhante e ir dormir.

Meriel Jane Waissman via Getty Images

Há algumas semanas notei pequenas mariposas pretas sobrevoando o armário da minha cozinha. Descobri que eram traças adultas e, muito enojada, imediatamente liguei para uma empresa de dedetização e agendei a visita para o dia seguinte. Além de ter de cobrir todo e qualquer móvel da minha casa antes da aplicação do produto, a empresa recomendava uma faxina total após a dedetização, que precisava ser feita na casa toda, já que as tais mariposas poderiam ter botado ovos em outras partes do apartamento. Além disso, exigia que ninguém entrasse no ambiente novamente por, no mínimo, oito horas. Por precaução, esperei mais tempo, e só 10 horas depois estava de volta ao meu lar doce lar. Mesmo assim, o cheiro do veneno estava ainda muito forte e não consegui conter os espirros. Conforme recomendado, fiz uma faxina total no dia seguinte. Mas passei a semana me perguntando se tinha tomado uma decisão acertada ao mandar jogar aquele troço em casa para matar o bicho. Seria o veneno menos nocivo do que o inseto?

Me lembrei que, outro dia, depois de notar que havia dado para o meu filho comer um cereal que continha uma espécie de larvinhas brancas (só vi depois de algumas colheradas), liguei desesperada para o pediatra que, dando risada, me respondeu: "fique tranqüila, insetos não fazem mal ao homem. Eles morrem assim que ingeridos". "O que? Não pode ser", pensei. Continuei intranqüila e passei o resto da semana carregando aquele pesado sentimento de culpa, esperando uma diarréia ou vômito do meu bebê. Mas nada aconteceu.

A atendente da empresa de dedetização também me explicou que, ao cozinhar os alimentos onde as traças botaram seus ovos (e elas entram até em pacotes fechados), elas morrem sem causar nenhum mal para o nosso organismo.

De fato, já vi programas de turismo na Ásia onde o povo costuma comer insetos. Mas nem o argumento médico, nem o químico nem o exemplo concreto praticado em outro país me convenceram a deixar as mariposas morando na minha dispensa. Engraçado como os bichos podem ter conotações tão diferentes em cada sociedade. Aqui, temos verdadeira aversão a insetos, mesmo aos inofensivos. Me pergunto até que ponto nos tornamos tão neuróticos com higiene e tão afastados da natureza que nem nos permitimos cogitar: não seria uma questão de costume conviver com aqueles bichos, se eles forem realmente inofensivos (não transmitirem doenças, nem picarem)? Pode parecer viagem, mas será que elas fazem mais mal do que um cachorro ou um gato dentro de casa?

Também me dei conta que recorri ao veneno sem nem antes procurar saber o que as atrai pra dentro de casa, ou seja, a origem daquele problema. Eu queria era eliminar logo aquele bicho e pronto.

Na semana seguinte à dedetização, meu filho ficou gripado (ele começou a vida escolar este ano e tem ficado doente a cada duas semanas ou menos). Mais uma vez me bateu um dilema de mesma natureza: dar um remédio forte pra ele poder voltar logo à escola ou esperar que ele se recupere no seu próprio ritmo, apenas dando vitaminas e gotinhas homeopáticas? O que seria mais nocivo a longo prazo: o remédio ou a gripe?

Ok, ninguém quer ver o filho sofrendo e com mal estar. Mas e se considerássemos que o sofrimento de hoje pode ser a salvação de amanhã? Explico: doenças obrigam o corpo da criança a produzir anticorpos que vão defendê-la contra esses mesmos males em um segundo "ataque". Remédios acabam com a doença, mas deixam o corpo mais frágil devido aos efeitos colaterais (que sempre existem) e dependente dessas drogas para acabar com os mesmos vírus caso eles retornem.

Porém, nessa vida corrida que levamos, onde "time is money", não temos tempo a perder com problemas: queremos tirar os obstáculos do nosso caminho da maneira mais rápida, simples, pontual e certeira possível. Seja para eliminar doenças, gordura da barriga ou problemas de ordem psíquica. Ora, nosso corpo não segue o ritmo imposto pela vida moderna. A recuperação é mais lenta do que precisamos. E como assim vou pagar um mês de escola para o meu filho só freqüentar três semanas e ainda ter de gastar com babá para ficar com ele se recuperando em casa?

A questão é que podemos encarar como solução o que, mais tarde, nos trará mais problemas. Ou, o inverso: encaramos como problema o que seria, mais tarde, a solução.

Uma vez li não sei onde (deve ter sido na Superinteressante) que Karl Marx escreveu O Capital depois de uma depressão que o deixou acamado por 9 meses. Naquele tempo, não existia Prozac, e a reportagem questionava se Marx teria sido capaz de elaborar sua obra caso ele tivesse "abortado" a depressão com um remédio. Não teria sido justamente a depressão o combustível que o levou às brilhantes idéias que teve de uma sociedade totalmente diferenciada da que vivia?

Mas quem tem tempo hoje de ficar observando aonde vai dar algo que nos tira da nossa zona de conforto? Nos cobramos ter o domínio de toda e qualquer situação, com a mente sempre direcionada a resultados. O que parece ser mesmo o mal da humanidade atualmente é essa neurose por controle e assepsia -- uma doença com uma série de efeitos colaterais de difícil controle. Estamos intoxicados de produtos químicos, cada vez mais afastados da natureza, cada vez mais afastados de nós mesmos, sempre preocupados com assuntos externos: a empresa, as contas a pagar, o networking, as questões práticas do dia a dia.

Onde é que vamos parar? Ah, quem se importa com o longo prazo! Queremos soluções imediatas, resultados práticos para o agora. Mais pra frente certamente a ciência já terá desenvolvido novas drogas para os problemas que eventualmente forem desencadeados hoje... É o que queremos crer, e o que interessa à indústria que acreditemos, pois é dessa neurose coletiva que ela se alimenta. E nós estamos ocupados demais para encher a cabeça com tanta reflexão. Melhor recorrer ao Rivotril ou algo semelhante e ir dormir.