OPINIÃO
27/07/2015 15:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Helloou, você não é um super-herói

Apesar de considerados o "sexo forte", os homens morrem, em média, 7 anos mais cedo do que as mulheres. Isso porque bebem mais, usam mais drogas, correm mais riscos, se metem mais em briga, frequentam menos o médico.

Nastco via Getty Images

Já publiquei aqui neste Brasil Post um texto que questionava as mães de meninas sobre os valores por trás do incentivo às filhas a se identificarem com "princesas" (Você quer mesmo ser mãe de uma princesa?). Hoje, proponho uma reflexão às mães de meninos que incentivam seus filhos a se identificarem com super-heróis.

Tudo começou na semana passada, quando meu marido teve um pico de pressão e foi parar no pronto-socorro. Soro na veia, batelada de exames de sangue, eletrocardiograma etc. etc. etc... Com menos de 40 anos, de repente me vi diante de uma realidade até então impensada: a possibilidade de um dia ter de cuidar do homem que até o momento teve o papel de me divertir, de me apoiar, de ser meu parceiro, meu cúmplice... meu herói invencível. Do homem que, para mim, é meu porto seguro, um touro de saúde de ferro, que pode andar de bicicleta na chuva sem ficar doente, passear sem camisa no sereno, virar noites sem dormir e seguir com o mesmo bom humor e disposição.

Aparentemente, está tudo certo com ele agora. Mas me dei conta de que, eventualmente, de uma hora para outra, por um dia, um período ou um longo tempo, até que a morte nos separe, ele pode ficar frágil. Pânico!

Ok, ter de cuidar do marido por fatalidade da vida é mais do que obrigação de uma esposa ou de qualquer pessoa que viva junto à outra. Mas ter de cuidar do marido porque ele não se cuida é uma atitude extremamente machista. E a igualdade de gênero tem evoluído muito lentamente neste quesito.

Meu marido desempenha com maestria um estereótipo de gênero bastante arcaico para os meus conceitos feministas: o do homem que não se cuida. Enquanto é corriqueiro para mim frequentar o consultório de diversos profissionais de saúde ao longo do ano - ginecologista, dermatologista, nutricionista, psicólogo, homeopata etc. -, vivo pesquisando sobre alimentação saudável, gasto tubos de dinheiro com cremes e vitaminas rejuvenescedoras, meu marido tem 40 anos, e não se lembra da última vez que tinha feito exames. "Ah, talvez quando eu tive hepatite, aos 21 anos." O médico do pronto-socorro que o atendeu recomendou alguns exames extras para ele agendar na semana seguinte ao seu "piripaque", mas o bonitão não moveu uma palha para marcar. Saiu do hospital como se nada tivesse acontecido e como se nada estivesse o afligindo. Tal postura me coloca aqui no papel de "mãe" dele, pressionando-o a agendar os exames imediatamente, querendo marcar por ele e, se pudesse, até realizar os exames em seu lugar, só para garantir. Me vejo monitorando sua comida, sua bebida e seu sono.

"Que lindo, isso é amor", você poderia dizer. Não vejo desta forma. Não sei se estou fazendo isso por ele, por mim ou por meu filho. Talvez seja por nós três. Fato é que não estou feliz neste papel. Não acho justo. Me sinto uma mulher do século passado. Divisão de tarefas domésticas não é suficiente. É preciso divisão de preocupações e de precauções, inclusive consigo próprio, e sua própria saúde.

Não culpo o meu marido, ele é vítima de uma cultura muito arraigada na sociedade que alimentou durante séculos um estereótipo de gênero bastante cruel para os homens: cresceram ouvindo que "macho" não chora, é forte, é destemido. Um papel que não se encaixa com o de vítima de uma doença. Um papel que não combina com uma pessoa deitada na cama sendo examinada por outra. Afinal fragilidade é uma característica do feminino, oras. Eu própria me fio nessas características quando vejo o meu marido como um touro forte e me choca ao pensar na possibilidade de vê-lo frágil.

Há muito pouco tempo o sistema de saúde público assumiu que os homens necessitam de políticas públicas de saúde voltadas a eles. Só em 2009, quase três décadas depois da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), nos anos 80, e mais de 20 anos depois da inauguração do departamento de Saúde da Mulher, é que o Ministério da Saúde criou o departamento de Saúde do Homem. Até então, era como se os homens não tivessem problemas de saúde!

Porém, apesar de considerados o "sexo forte", os homens morrem, em média, 7 anos mais cedo do que as mulheres. Isso porque bebem mais, usam mais drogas, correm mais riscos, se metem mais em briga, frequentam menos o médico.

As atuais campanhas do Ministério da Saúde que têm como alvo o público masculino ainda são voltadas ao público feminino, para atingir os homens indiretamente, "por tabela". Isso porque partem do princípio que as mulheres é que desempenham mesmo este papel de cuidar de seus maridos e orientá-los em relação à sua saúde.

Acontece que as mulheres da minha geração não foram criadas para cuidar. Uma ou outra pode até ter mais jeito pra coisa, mas por transferência genética, ou habilidade pessoal. A nossa educação foi focada no hedonismo, no individualismo, na dedicação aos estudos e ao trabalho. Um primeiro choque ocorre quando um filho nasce e a gente tem de encarar este papel para o qual não foi treinada. Parar de pensar em si mesma e passar a pensar em um ser completamente indefeso e carente de todos os cuidados, 24 horas por dia, é realmente assustador e sofrido para quem sempre foi acostumada apenas a ser cuidada. Superar esse primeiro momento requer um verdadeiro salto evolutivo.

Cuidar de filhos, ok, será sempre obrigação de toda mãe (e pai). Mas cuidar de marido parece algo quase inaceitável.

Volto o olhar para o meu filho. Não quero aprisioná-lo neste estereótipo do "macho invencível". Quero que ele se permita ser frágil quando precisar. Que se permita chorar quando tiver vontade. Que se permita pedir ajuda. Quero que ele saiba que não é um super-herói. Sim, ele é volúvel. E nem por isso deixará de ser corajoso e forte quando for necessário. Afinal, nós, mulheres, não somos assim? Fortes e frágeis, passivas e mandonas, choramos e pedimos colo, mas também sabemos falar alto e nos impor quando é preciso. Ser homem à moda antiga parece um papel pesado e engessado demais para um ser humano.

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