OPINIÃO
25/06/2015 17:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Entre monstros, dinossauros e dragões

Meu menino é atraído por tudo o que é agressivo, feio, bruto, tosco. Já suas coleguinhas se encantam pelo belo, delicado e doce. Me preocupa ver a repetição destes estereótipos de gênero e comportamentos-padrão de séculos atrás nesta geração, que a princípio nasce em um cenário muito mais aberto à diversidade e à flexibilização de condutas.

lambda's/Flickr

Esses dias eu estava zapeando pelos canais infantis para escolher uma atração para meu filho de 2 anos assistir e parei no desenho animado "Enrolados", uma versão atual de Rapunzel. Passados 10 minutos de filme, eu vidrada na TV e meu pequeno resmungando: "muda de canal, mamãe, não gostei desse". Mas eu estava tão envolvida pela história da menina de cabelos longos que foge da torre onde era trancafiada pela mãe malvada, que tentei persuadi-lo. "Como não gostou? É tão bonitinha a história, será o que vai acontecer com essa garota e a mamãe dela? Vamos ver?". Não fui suficientemente convincente. Ele passou para o nível 2 do piti, começando a chorar e a bater os pés no chão com raiva. Tive de ceder. No final, coloquei pela centésima sétima vez o desenho Monsters S.A., que ele AMA.

A grande maioria das minhas amigas mães de meninas da mesma idade desconhecem por completo este desenho dos monstros. Enquanto elas estão fixadas nas mais variadas princesas (Branca de Neve, Elza, Cinderela, Rapunzel...), o imaginário do meu pequeno é permeado por bichos horripilantes de três olhos, dinossauros, dragões e bruxas.

Esses meninos e meninas têm apenas dois anos, estamos em pleno século XXI, ano 2015, mas parece que mal nasceram e já incorporaram todas as características clássicas do arquétipo masculino e feminino para reproduzi-las exatamente como "deve ser". Meu menino é atraído por tudo o que é agressivo, feio, bruto, tosco. Já suas coleguinhas se encantam pelo belo, delicado e doce.

Me preocupa ver a repetição destes estereótipos de gênero e comportamentos-padrão de séculos atrás nesta geração, que a princípio nasce em um cenário muito mais aberto à diversidade e à flexibilização de condutas. Cresci em um universo paralelo tão distante do dos meninos, e é triste ver que as crianças de hoje seguem passando pelo mesmo processo: caminhos opostos. Me lembro como era difícil fazer os coleguinhas meninos entenderem o "espírito" das nossas brincadeiras de menina e sempre achava bobas e chatas as brincadeiras deles.

Fico me perguntando: como é que, desde tão pequenos, garotas e garotos absorvem essas diferenças clássicas (e agudas) de gênero? Transmissão por osmose, pelos genes, inconsciente coletivo?

Eu e o pai do meu filho não seguimos exatamente a cartilha do masculino e do feminino. Tenho uma personalidade mais agressiva em muitos momentos. E o pai dele, em diversas ocasiões, mais sensível e doce. Venho de uma família de mulheres "fálicas", dominadoras, controladoras. E tanto no lado paterno quanto no materno há exemplos de pessoas que não se identificam com o gênero comumente relacionado ao seu sexo. Tampouco me vejo incentivando meu pequeno a gostar apenas de brincadeiras e personagens tipicamente masculinos (haja vista o exemplo da minha insistência em assistirmos a versão atual do desenho da Rapunzel). Já peguei o próprio pai dele assistindo o desenho da Sininho (atual Tinker Bell) enquanto meu pequeno brincava de carrinho sem nem prestar atenção na TV.

"Não se nasce mulher, torna-se mulher", disse a feminista francesa Simone de Beauvoir, ainda nos anos 40. A mesma frase, obviamente, cabe para o sexo oposto: "não se nasce homem, torna-se homem". Beauvoir queria dizer, com isso, que nem homem nem mulher tem um destino pré-definido biologicamente. Eles são formados dentro de uma cultura que define qual o seu papel no seio da sociedade. Mas desde que me tornei mãe de menino, tenho me perguntado em que ponto exatamente torna-se homem ou mulher? Mais do que isso, o que é ser homem e ser mulher hoje?

Acredito que é meu dever como mãe pensar sobre essas questões. Preciso ter em mente que homem eu pretendo formar dentro de casa e estar sempre atenta para como está se encaminhando o desenvolvimento do menino que vejo crescer. Mas tenho notado que este "molde" do masculino escapa à minha conduta e direcionamento conscientes.

Me parece que essa nossa cultura que há anos vem reforçando diferenças de gênero está tão arraigada em nós que as mensagens subliminares saem pelos nossos poros por vias que nem percebemos, por meio de códigos sutis que passamos sem nos dar conta. Essa nossa cultura bipolar (numa ponta o homem, noutra ponta a mulher), que penetra em suas pequenas mentes e corpos sem que possam se defender, atropela as nossas boas intenções de pais esclarecidos que pretendem construir homens e mulheres mais abertos, gêneros mais flexíveis, com personalidades mais híbridas e diversificadas.

E de repente nos vemos refém desta mesma cultura que nos atravessa e não nos dá espaço para sermos verdadeiramente autênticos como pais. Parece que todo o nosso desejo de construir um mundo menos polarizado entre os gêneros é pura retórica, discurso frágil e oco. Aos 2 anos de idade, a criança já sabe, mais até do seus pais presumem, o que a mãe e o pai realmente desejam, lá no fundo, muito antes de seus intelectos pretensamente "prafrentex", que se mostram puro verniz. Nossos filhos nos despem de nossos discursos e se mostram à imagem e semelhança do nosso querer mais puro, impregnado de estereótipos de gênero e preconceito. A infeliz verdade é que já não há nenhuma autenticidade numa criança de 2 anos.

Melhor pensar que talvez ainda consigam, mais tarde, por meio de seus intelectos, alcançar tal autenticidade. Ou será que também serão vítimas, quando adultas,do fracasso desses modelos, violentos, que nos reprimem e dificultam os relacionamentos?

Minha geração, como tantas outras para trás é vítima deste "gap" entre um universo e outro. Um buraco que acarreta genuína falta de compreensão mútua entre pessoas de sexo oposto. Homens cheios de grilos e monstros internos x mulheres românticas, que não conseguem se relacionar por diferença de expectativa. Homens brutos, frios e agressivos x mulheres delicadas e doces. Mulheres que se apaixonam pelo fofo e homens que se apaixonam pelo perverso. Mulheres fofas tentanto atrair homens perversos. E a conta nunca fecha.

Só hoje, como mãe de menino, pela primeira vez tenho a oportunidade e a motivação para compreender, gostar e me engajar neste universo tão estranho a mim. Um universo que vê como intimidade e carinho chutes, pontapés e empurrões. Que vê no futebol o maior passatempo do mundo e investe seu tempo aprendendo suas regras (a pelada da quadra é a única atividade capaz de prender a concentração total do meu filho por uma hora!). Um universo onde brincar de carrinho é uma superaventura. E que se entretém sempre com atividades que permitam movimento: carrinho, bola, corrida, bicicleta, velotrol. E haja energia física para um corpo feminino que já gasta tanta energia mental!

Quem sabe esta experiência de ser mãe de menino seja a única esperança de concretizar a união entre yin e yang em um único ser, mais pleno, completo e equilibrado.