OPINIÃO
28/05/2015 18:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

De quantas licenças-maternidade mãe e filho precisam ao longo da vida?

Estou prestes a voltar ao trabalho depois de seis meses curtindo uma segunda licença-maternidade com o meu primeiro e (ainda) único filho. Isso mesmo: eu me dei uma segunda licença-maternidade quando ele completou 2,6 anos. A experiência foi tão fantástica que saio dela achando que todas as mães deveriam se planejar psíquica e financeiramente para se darem quantas licenças-maternidades acharem necessárias ao longo do desenvolvimento da criança. Definitivamente, não é suficiente aquela única licença concedida pelo Estado, de 4 ou 6 meses logo após o parto.

BruesWu via Getty Images
Rear view 18 months child climbing on stairs with mother

Estou prestes a voltar ao trabalho depois de seis meses curtindo uma segunda licença-maternidade com o meu primeiro e (ainda) único filho. Isso mesmo: eu me dei uma segunda licença-maternidade quando ele completou 2,6 anos. A experiência foi tão fantástica que saio dela achando que todas as mães deveriam se planejar psíquica e financeiramente para se darem quantas licenças-maternidades acharem necessárias ao longo do desenvolvimento da criança. Definitivamente, não é suficiente aquela única licença concedida pelo Estado, de 4 ou 6 meses logo após o parto.

À medida que a criança vai crescendo, a gente se dá conta de que há diversos momentos-chave na vida dela em que uma maior presença da mãe se faz necessária. Ideal mesmo seria planejar a maternidade a longo prazo, bem antes de você decidir ser mãe. Talvez antes até de encontrar "o cara" para se casar. Só uma poupança cultivada durante muito tempo pode dar esta autonomia à mulher de, de repente, decidir parar de trabalhar por um período.

O problema é que a gente geralmente só descobre quanto preparo psíquico e financeiro são necessários para ser mãe depois de ter o primeiro filho. Antes disso, estamos preocupadas demais em achar um marido, nos autoafirmar como mulher e profissional. Então preferimos torrar a grana com balada, viagens, cursos de aperfeiçoamento, restaurantes e bares da moda, roupas caras, carro do ano.

Comigo não foi diferente. Passei toda a vida adulta envolvida com prioridades momentâneas. Mas a oportunidade de um emprego provisório com um bom salário me apareceu, como milagre ou presente de Deus, quando meu filho fez 2 anos. E eu tive a ideia de economizar todos os recursos possíveis para esta segunda licença, já prevendo o delicado momento da introdução à vida escolar, que no caso do meu filho ocorreu aos 2,6 anos. Essa é uma fase especial na vida de uma pessoa, em que ela precisa do apoio da mãe para ter segurança de que pode, sim, ter maior autonomia e ficar sozinho em um ambiente fora de casa, dividindo o espaço com outras crianças. Inicialmente, é um choque, e acontece uma espécie de retrocesso na cabeça e no comportamento infantil. A criança nota que está deixando de ser um bebê completamente dependente e vacila entre crescer e estagnar. Então, é muito comum, no processo de adaptação à vida social, grudar na mãe quando está em casa, voltar a acordar diversas vezes à noite. E coitada da mãe que trabalha. Foi muito bom poder estar em casa, descansada e desestressada, para acompanhar meu filho neste processo.

Pela primeira vez na vida, desde que entrei no mundo corporativo, há cerca de 15 anos, me concedi uma pausa, algo que talvez eu jamais me daria o direito não fosse pelo meu bebê. Mas só foi bom para ele porque foi bom para mim, comigo mesma. Se para ser mãe é preciso muito preparo psíquico, para abandonar o emprego, ainda que seja por um período, também é. É importante estar com a autoestima legal para se dar essa chance de, de repente, sair de uma cena na qual você foi protagonista por muito tempo (no caso, o trabalho). Nossa identidade é muito constituída pela profissão e pela empresa a qual estamos associadas. Sem isso, é bem comum se sentir improdutiva, vazia, irresponsável e rolar uma crise. É bom ter em mente que a escolha foi sua, que o motivo é nobre e que você é tantas outras coisas além de funcionária de uma firma. A gente leva um susto quando vai preencher qualquer ficha cadastral e deixa os campos "empresa onde trabalha" e "telefone empresarial" vazios. Tem de haver um esforço para resgatar todas as outras pernas que compõem a identidade para não se sentir um zero à esquerda.

É também preciso coragem para encarar seus próprios desejos e frustrações. Porque quando nosso dia não é preenchido por afazeres e uma rotina comandada por um chefe, é a gente quem tem de fazer esse papel. E de repente você pode perceber que desconhece seus desejos. Descobri-los pode ser um processo doloroso, até porque, eles podem ser nada convencionais. E aí, você está preparada?

Em um primeiro momento, fiquei meio perdida. Mas aos poucos aprendi a pautar o meu dia e me organizar. Comecei a sentir e enxergar coisas que eram tamponadas pela correria da rotina. Coisas boas e coisas ruins, que precisavam ser trabalhadas. Pude olhar não só para o meu filho, mas para mim mesma e a vida ao meu redor que corria enquanto eu olhava para o computador horas a fio. Rever gente que amo, respirar sentada na grama de um parque qualquer mirando o horizonte, tomar um café à tardinha batendo um papo com meu pai que acabara de se aposentar, bater perna no shopping com a minha mãe, acompanhá-la ao médico. Pude relembrar do que gosto e voltar a fazê-lo (como escrever este blog). Descobri novos interesses, e tive boas ideias. Minha inspiração e minha intuição, antes atropeladas pela correria e praticidade racional exigidas pela rotina, fluíram como nunca. Viajei (a dois e em família), cuidei do corpo, da cabeça, da alma, do meu marido e da minha casa com a freqüência necessária. Li ficção, poesia, crônica. Conversei com estranhos. Pesquisei sobre assuntos e cursos exóticos. Uma janela de possibilidades de vida se abriu. E, ao contrário do que podem pensar, me tornei uma pessoa mais interessante, com assuntos diversificados para conversar e observações "fora da caixinha".

Neste processo de autorredescoberta, todos ganharam. Inclusive meu filho, que tem uma mãe mais inteira. Foi por pouco tempo, mas o suficiente para eu aprender a administrar a liberdade.

É claro que houve dias de agonia e de saco cheio. Nesses momentos eu marcava um almoço com ex-colegas de trabalho para me sentir "in", saber das fofocas da empresa, dos bastidores das decisões. E, claro, jamais deixei de acompanhar as notícias do mundo. Não me permitiria nunca a alienação, não só porque continuava sendo jornalista (mesmo estando momentaneamente não-atuante), mas por ser eternamente cidadã consciente.

Vai ser sacrificante voltar para as quatro paredes 8 horas por dia mirando a tela do computador? Não, porque me dei o tempo suficiente para sentir saudade do meu habitat natural: o trabalho. Meu filho está numa fase tranqüila e nosso vínculo suficientemente firme para que eu volte sem culpa nem pesar. E espero poder trazer para dentro da empresa o olhar e a vibe que desenvolvi fora dela.

Imagino que ainda haverá alguns outros períodos em que minha presença se fará mais necessária para o meu filho (e para mim mesma). E por isso vou continuar enchendo meu porquinho de moedas, já que nem sempre são previsíveis e padronizadas essas fases mais difíceis do desenvolvimento infantil (e adulto!), em que a gente precisa de maior atenção e tempo para o outro e para si mesma.

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