OPINIÃO
18/12/2015 17:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Casamento: Quando os obstáculos viram trampolins

Tenho percebido que é quando nos vemos diante de lados obscuros (e não tão bem-vindos) do outro que chegamos mais perto do coração dele -- se estivermos abertos. E que, diante das surpresas desagradáveis, a melhor reação é a de penetrar no desconhecido. Inclusive no que é desconhecido em nós.

BarA Muratolu via Getty Images

Na fila do caixa de uma loja de departamento, véspera de Natal, uma mulher pedia para o marido experimentar a bolsa que pretendia comprar para a tia. O homem virava para lá, pra cá, exibindo o acessório pendurado no ombro, enquanto a esposa o analisava minuciosamente.

"Não, não gostei. Vai lá naquela seção para mim e pega aquela outra bolsa grande que a gente viu primeiro, enquanto eu espero na fila. Mas observa com cuidado se não tem defeito! Você é distraído, presta atenção!", alertou. O marido, calmamente, foi.

"Paciente, seu marido, né? Que gracinha, acompanhar você nas compras de Natal. O meu não tem paciência", comentei.

"Paciente, né... Ah, minha filha, você não sabe quanta coisa já mudou desde que nos casamos... Homem apronta, depois fica assim, atrás da gente que nem um cachorrinho para todo lado."

"Vocês têm muito tempo de casados?"

"Sim, quase 20 anos, três filhos. Há uns nove anos, descobri uma safadeza dele, quase me separei. Na época, eu estava amamentando meu segundo filho, e o meu primeiro tinha três anos. Mas sabe que foi a melhor coisa que nos aconteceu? A partir disso, ficamos mais verdadeiros um com o outro, e mais unidos também. Conversamos sobre tudo, tudo mesmo, não tem tabu. Bem companheiros, sabe?"

Depois de quase sete anos de casamento e quase 40 de idade, eu estava começando a compreender o que ela estava falando. Mas até bem pouco tempo atrás, e durante muito tempo, eu teria uma percepção tão diferente daquela cena.

Ao ver o homem seguindo as orientações da mulher que fazia compras, pensaria "que pau mandado! Coitado dele com essa mulher mandona!". E, ao ouvi-la contar que perdoou a "safadeza" do marido e ainda teve o terceiro filho com ele, julgaria: "que otária! Eu jamais toleraria uma traição". Como as aparências enganam...

A minha mais nova confidente continuou:

"Quando nos casamos, ele não cuidava nada das crianças. Comia antes de todo mundo e nem via se elas estavam se alimentando, sequer sabia onde estava uma peça de roupa delas. Eu tinha que pensar em tudo: arrumar a bolsa para sair, dar comida, dar remédio. Agora, ele é outro pai: se importa com elas de verdade. Faz comida, se preocupa em agasalhá-las, levar suquinho para o passeio. E eu estou muito mais tranquila. Antes eu fazia tudo para agradá-lo, morria de ciúme dele, e agora sou mais eu. Hoje tiramos sarro um do outro, contamos nossas frustrações, revelamos nossos segredos..."

"Que interessante é a evolução de um relacionamento em um casamento quando optamos por não desistir dele, né?"

"Pois é, menina. Casamos com um sonho, pensando que é uma coisa, depois caímos na real e vemos como é diferente. Mas não necessariamente para pior... É menos romântico, mas mais...sincero."

Meus ouvidos estavam atentos.

Aquela mulher, de aparência simplória, olhar firme e sorriso doce, tinha me transmitido tanta sabedoria em menos de dez minutos. Uma sabedoria que nada tinha de intelectual, religiosa, acadêmica ou erudita.

Sabedoria popular de quem não tem dinheiro para pagar terapia, mas tem perspicácia, autocrítica e abertura suficientes para deixar a experiência atropelar a ignorância e os preconceitos. Sabedoria de quem tem resiliência para adaptar seus sonhos à realidade.

As aparências enganam mesmo. E como gostamos de nos apegar apenas ao que é aparente para não ter de lidar com a complexidade do ser humano!

Pensei em mim, no meu casamento, e em como é difícil estar mesmo atenta à verdade do outro e não deixar que a nossa verdade nos cegue.

Tenho percebido que é quando nos vemos diante de lados obscuros (e não tão bem-vindos) do outro que chegamos mais perto do coração dele -- se estivermos abertos.

E que, diante das surpresas desagradáveis, a melhor reação é a de penetrar no desconhecido. Inclusive no que é desconhecido em nós.

Despejar nossos princípios (que como a palavra diz, é só um princípio, portanto, não é um fim) ou nos espantar é o caminho mais próximo para nos distanciar do real, e de quem está ao nosso lado.

Lembrei de uma amiga, casada há alguns anos, com dois filhos, que sempre disse que o marido não era lá tão ligado em sexo. Até o dia em que ela se surpreendeu com dezenas de filmes pornôs em seu computador.

Inicialmente, se sentiu traída. Depois, triste por se deparar com o fato de saber tão pouco sobre as fantasias do marido.

Pensou bem e percebeu que ela não conhecia nem mesmo as dela! Em vez de sucumbir ao impulso de xingá-lo, criticá-lo, e fazer drama, minha amiga abriu seu coração ao marido e relatou os sentimentos que estavam passando por sua cabeça depois do ocorrido.

"Foi a primeira vez que conversamos de coração para coração", me relatou.

O marido pediu desculpas por nunca ter tomado a iniciativa de se abrir e convidou a mulher para sair. Ela não quis, preferiu ficar em casa e assistir a um daqueles vídeos com ele.

Logo no início do filme, o tesão entre eles era tanto que esqueceram a TV ligada e foram para o quarto. "Parecia que estávamos transando pela primeira vez, ele era outro homem e eu, outra mulher."

A redescoberta de si mesmos e um do outro apimentou o sexo entre eles, que, desde então, nunca estiveram tão conectados. Parecem outro casal. E são mesmo.

Não somos os mesmos, estamos sempre mudando se nos permitirmos. Uma prova de que assumir nossos desejos e acolher os do outro, sem preconceitos, é a maneira mais rápida e certeira de se ter prazer.

Poucos dias depois do meu encontro com aquele casal na loja de departamento, fazendo uma caminhada pelas ruas da cidade em um domingo ensolarado, esbarrei com uma frase pichada no muro: "Seja um curioso em vez de um julgador".

O universo me mandando recados... Acho que estou captando a mensagem.

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