OPINIÃO
30/12/2015 11:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Meu primeiro assédio e nossa esperada liberdade

Aquele estranho transformou o recém-conquistado direito de andar sozinha em medo, vergonha, culpa, raiva, apreensão. Transformou minha roupa de brincar em algo perigoso. Senti o primeiro gosto da raiva impotente que todas sentimos todos os dias e que aprendemos a calar.

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Assim que começou a campanha #PrimeiroAssédio neste ano, lançada pelo coletivo feminista Think Olga, voltaram os flashes do que eu me lembro ter sido meu primeiro assédio. Ainda dá tempo? De falar sobre o assédio, a invasão, o medo? De falar sobre o efeito que um assédio, ainda que "pequeno", ainda que "somente" palavras, pode ter sobre alguém?

Eu tinha uns 11 anos. Lembro a idade porque estava passeando com a nossa cachorra, uma husky siberiana linda, e ela tinha chegado lá em casa quando eu tinha dez.

Meus dez anos, aliás, foram um marco de liberdade. Estava na antiga quarta série e já podia ir e voltar do colégio sozinha. Nos mudamos para um prédio com play e piscina, e eu passava tardes e finais de semana brincando com novos amigos. Nas férias, ficávamos acordados jogando baralho ou jogos de tabuleiro até o que eu achava ser a madrugada.

Veio também a Tequila, nossa husky, e um outro tipo de liberdade: as responsabilidades relacionadas a ela. Cuidar da casa, limpar a área, levar pra passear, tirar cocô.

Todos amávamos a Tequila. Ela era quase uma loba, e mais humana que muito humano. Temperamental, destruía coisas quando não passeávamos com ela, em cima da cama de quem ela sabia ser o responsável pelo passeio.

Mas quando alguém ficava doente, ela fazia a guarda do sono.

Passear com a Tequila era prova de amor e independência. Morávamos em Laranjeiras, um bairro relativamente tranquilo no Rio, perto da Praça São Salvador.

Os passeios eram de poucas quadras, mas de um prazer imenso. Uma conquista. E a Tequila fazia muito sucesso. Não havia muitos huskys no Rio nessa época (também, com o calor que eles passam...).

E, além da atitude de realeza, ela tinha um olho castanho e um azul. Era comum que pessoas parassem para falar com ela.

Não foi surpresa, portanto, quando certo dia um homem me parou em uma das esquinas da praça. Lembro que eu vestia uma blusa regata azul e um short branco, e que demorei um tempo para entender o que ele estava dizendo. Algo sobre a cachorra ser linda, meus peitinhos serem lindos, e perguntando se eu deixava ela me chupar.

Em plena luz do dia, a 500 metros da minha casa, no meio de uma atividade cotidiana.

Transformando o recém-conquistado direito de andar sozinha em medo, vergonha, culpa, raiva, apreensão.

Transformando minha roupa de brincar em algo perigoso.

Senti o primeiro gosto da raiva impotente que todas sentimos todos os dias, e que aprendemos a calar.

O primeiro gosto do medo de ser livre e independente.

O primeiro sentimento de estar desprotegida e em perigo, rondada por um predador que ataca sorrateiro, sem que nem minha loba pudesse me proteger.

Se ele tivesse encostado em mim, ela teria partido pra cima. O ataque covarde dos que sabem que passarão impunes.

Mal sabia eu que tão cotidiano quanto passear com um cachorro perto de casa é ser assediada e sentir esse medo. Porque é um medo diferente, não?

É diferente do medo de cair da bicicleta. Do medo de perder os pais. Do medo de cortar a mão. Do medo de ser assaltada, ou mesmo agredida.

O assédio traz cruelmente em palavras o medo de que algo ainda pior possa acontecer.

Porque fisicamente uma menina e, muitas vezes, uma mulher, está em desvantagem em relação a um homem. Podemos falar o quanto quisermos de igualdade e da força da mulher. Mas, em muitos aspectos, não somos iguais.

Ao ser atacada por um homem mais forte, uma mulher pode ser arrastada para um beco, ter as roupas arrancadas, ter o corpo violado.

E ter em seu corpo a representação da submissão histórica e estrutural pela qual passamos. Afinal, o assédio e estupro são banalizados de tal forma que parece ainda ser um direito do homem.

Vemos aí nossa ausência de direitos. O sistema que defende o algoz. A culpabilização da mulher. A demonização do sexo.

E a satanização do corpo feminino e de sua sexualidade. A ideia de que homens têm direito à sexualidade e ao prazer, e a mulher não.

A concepção que faz pais estimularem a sexualidade nos filhos e reprimir a das filhas. Isso faz parte do direito que homens têm de disporem da sexualidade de meninas.

O assédio começa com aquela Playboy que o filho ganha de presente, enquanto a filha é repreendida por se tocar. Na nossa sociedade, homem pode gozar mas mulher não. Por essa lógica, o corpo da mulher é um simples veículo para o gozo do macho.

E crescem em nós a culpa e a vergonha, ajudadas por nossa tradição judaico-cristã.

É preciso entender o tamanho da violação que é ser assediada, mesmo que com palavras, em um momento em que sua sexualidade está sendo formada. Em que a falta de compreensão do próprio corpo e dos instintos não permite que o incidente seja processado corretamente.

Somos violadas pelo algoz, pela sociedade e por nós mesmas.

É claro que a solução começa com todas as agendas feministas que visam a retirar a mulher do lugar de submissão, ainda que velada, na sociedade.

Mas não começa também, e principalmente, por nós? Por nosso próprio empoderamento, sem depender da autorização da sociedade, do Estado, da empresa, do marido?

Para mim, começa com a recuperação do nosso corpo, do nosso gozo, do nosso desejo. Mesmo sem perceber, esses assédios cotidianos nos fecham.

Nos cobrimos, nos defendemos, nos escondemos, nos culpamos.

Toda mudança começa individualmente. Devemos cobrar, sim, mudanças estruturais, legais, sociais e culturais.

Mas precisamos também mudar nossa relação com nós mesmas.

Não há nada mais nosso que nosso corpo. E não há nada mais oprimido hoje que nosso corpo.

Uma opressão que não começou por nós, mas a qual nós podemos dar fim.

Nossa igualdade na rua e na lei começa com nossa liberdade com nós mesmas.

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