OPINIÃO
15/06/2015 17:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Diga-me de que tens saudades e te direi quem és

marcelometal/Flickr
banca e lanchonete em Anchieta/ES

5 meses e um dia. É o tempo que estou em Los Angeles. E a saudade do Brasil aumenta a cada dia. Os amigos de direita dizem pra eu não voltar, que a situação está terrível. Os amigos de esquerda dizem que agora mesmo é que não saem, que é preciso lutar pelo Brasil.

Estou com o segundo grupo. Mas vim pra passar um tempo com meu irmão que mora aqui com a mulher e meu sobrinho mais novo, que vai fazer dois anos. É meu quarto sobrinho, e apertava o coração não vê-lo nessa fase. Ser roteirista e produtora freelancer podendo trabalhar à distância tornou isso possível, e está sendo interessante estar na Mecca da indústria.

Los Angeles está para o entretenimento como Brasília está para a política. Uma cidade construída ao redor de um tema e que só tem identidade através de migrantes (nordestinos em Brasília, latinos em LA). E um grande circo em ambos os casos, não? Difícil conhecer as pessoas de fato em Los Angeles. Ao individualismo atrás do american dream a qualquer custo, somemos que esse sonho é Hollywood.

É claro que tem suas qualidades. É um lugar cosmopolita, o que pra muita gente significa compras. Mas é também um rico centro de diversidade e oportunidades culturais. Pessoas, festivais, museus, restaurantes. Dá pra se manter ocupado e entretido, mas não impede a saudade de bater, implacável.

Quando me perguntam, então, do que mais sinto saudade, há a resposta mais clara e simples: minha família, meus pais, meus sobrinhos, meus amigos. Assim como o pastel, o caldo de cana, a tapioca, o chorinho da General Glicério, a cerveja de garrafa em lugares mais baratos do que a supervalorizada mureta da Urca. Mas o mais difícil de explicar é sentir falta do calor brasileiro, tão difícil de encontrar por aqui, mesmo com o verão se aproximando no hemisfério norte.

Me salvam os latinos. Os abraços, os sorrisos, as cores, os sabores, a pimenta, o coração aberto, os tambores. O senso de comunidade e coletivismo. O segredo compartilhado de que a praia de Santa Monica não se compara às do Rio, Bahia ou Caribe. A perspectiva atávica de que não se prospera sozinho e de que, no final do dia e das contas, sua família e seus amigos são o mais importante na vida.