OPINIÃO
16/11/2015 19:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Carta a Caetano

Com enorme sensibilidade, você conta a brutalidade que se passa em Israel, uma violência que parece lhe doer tanto, e que deveria doer tanto em todos nós. Assim como a morte diária de Amarildos cujos nomes desconhecemos no nosso Rio de Janeiro. As vítimas do ISIS na Síria, em Paris, no Quênia. O Rio Doce.

J.F.Diorio/Associated Press

Caetano,

Escrevo de Los Angeles, onde sinto saudades do Rio de Janeiro do qual você se lembra quando vai a Tel Aviv. Baiana de Vitória da Conquista, carioca de Laranjeiras, escrevo porque não posso quase escrever ao ler o tanto que você quase falou em seu show em Israel.

Aqui, em junho, li sua resposta a Roger Waters em relação ao pedido de que cancelasse seu show com Gil em Israel. E achei sua posição pela ida consciente e questionadora mais corajosa do que o boicote. E você escreveu:

"Se minhas canções, voz ou mera presença puderem ajudar os israelenses que não concordam com a opressão e a injustiça -- em uma palavra, a se sentirem mais longe de votar em alguém como ele -- eu estarei feliz."

Li essas palavras e fui arrebatada por essa noção de que arte pode mudar o mundo que me levou pro cinema, e que eu deixei que se apagasse um pouco na máquina de moer gente do mundo, das corporações e burocracias que dominam a cultura - e a vida - hoje.

Esse sentimento de que podemos e devemos mais sempre, e ainda mais quando a intolerância e a violência galopam ao nosso redor. Suas palavras me encontraram em um momento em que precisava ouvi-las.

Obrigada, Caetano.

Dois meses depois, em agosto, entrevistei Jorge Drexler aqui e mencionei sua ida a Israel. Ele congratulou sua postura, de ir a Israel e fazer questão de visitar Susiya, conhecer de perto a realidade. Tirar suas próprias conclusões e criar suas próprias pontes.

E hoje leio seu relato da viagem. A sensibilidade com que você conta a brutalidade que se passa lá - uma violência que parece lhe doer tanto, e que deveria doer tanto em todos nós. Assim como a morte diária de Amarildos cujos nomes desconhecemos no nosso Rio de Janeiro. As vítimas do ISIS na Síria, em Paris, no Quênia. O Rio Doce.

Drexler pontuou que a ocupação degrada o ser humano, tanto o ocupante quanto o ocupado. E você pontuou a relação entre as ocupações no Oriente Médio e a segregação no Brasil.

Assim como, em 1993, você nos lembrou que "o Haiti é aqui".

Eu tinha sete anos, e Trópicalia 2 é um dos primeiros álbuns que eu lembro escutar.

Foi meu primeiro contato com a amplitude do Brasil e a formação da minha sensibilidade estética, política e social.

Sua voz e de Gil abriram em mim feridas incuráveis, que doem com a desigualdade, a segregação e a brutalidade em qualquer lugar.

Seja os pretos no Brasil, os palestinos na Cisjordânia ou os latinos na Califórnia. Novamente, te agradeço, Caetano.

Agradeço por hoje, mesmo longe, me indignar com a corrupção, os retrocessos políticos, o conservadorismo, a ganância e a intolerância que afetam mais, é claro, os pretos, pobres, mulatos e "quase brancos quase pretos de tão pobres".

Agradeço porque leio o seu relato e sinto engasgadas na garganta as palavras que você não disse.

A homenagem que não fez a Yeshayahu Leibowitz. O "Break the Silence" que não gritou.

Será um daqueles casos em que o silêncio fala? Afinal, você havia se pronunciado sobre o assunto antes do show, pedindo "um basta à ocupação, um basta à segregação, um basta à opressão".

Nas resenhas do show, no entanto, me embrulhou o estômago ler depoimentos de pessoas na platéia dizendo que não se deve misturar música com política. Mas como não misturaremos, se o Haiti é aqui? Se caminhamos contra o vento? Se fomos "todos Amarildo" no Circo Voador e gritamos "fora, Cabral" enquanto você cantava "Odeio Você"? Se dois dos locais escolhidos para os ataques terroristas dos últimos dias foram uma universidade e uma casa de shows?

Não consigo pensar que pode haver silêncio onde há opressão.

Gostaria que quem foi ao show em Tel Aviv tivesse sido mordido pela transgressão de um grito seu ou de uma homenagem pouco educada vinda do visitante de Santo Amaro. Porque música se mistura com política, sim. Sempre.

E eu sei disso graças a você.

Obrigada, Caetano.

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