OPINIÃO
15/10/2014 17:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Enquanto a chuva não vem

Estamos vivendo um momento de mudanças climáticas no país: a seca que as regiões Sudeste e Nordeste estão sofrendo, as cheias históricas na Amazônia e as chuvas intensas que desabrigam milhares de pessoas todos os anos em diferentes cidades brasileiras se tornarão cada vez mais frequentes.

Bloomberg via Getty Images
Dry, cracked earth is seen where water usually stands at the Jaguari Dam, managed by Cia. de Saneamento Basico do Estado de Sao Paulo, known as Sabesp, near Santa Isabel, in the state of Sao Paulo, Brazil, on Friday, Feb. 7, 2014. The system that provides half the drinking water to South Americas largest city, Sao Paulo, will run dry in 45 days if there's no rain, amid the biggest drought on record. Photographer: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images

Desde o início do ano, tenho dividido meu tempo de trabalho com uma pesquisa sobre a crise de água que vem afetando a vida de milhões de brasileiros. Após uma entrevista recente dada a um jornal circulado em Belo Horizonte, juntamente com resultados que obtive a partir de dados de satélite e modelos computacionais, consegui reunir peças necessárias para, finalmente, escrever este meu primeiro artigo para o Brasil Post.

Contextualização da seca com o cenário global

Estamos vivendo um momento de mudanças climáticas no país: a seca que as regiões Sudeste e Nordeste estão sofrendo, as cheias históricas na Amazônia e as chuvas intensas que desabrigam - e, por vezes, matam - milhares de pessoas todos os anos em diferentes cidades brasileiras se tornarão cada vez mais frequentes. Mas não pensemos que isso ocorre somente no Brasil. Eventos extremos têm ocorrido no mundo inteiro. Por exemplo, a Califórnia, nos Estados Unidos, está também passando por uma seca prolongada. Grandes lagos, como o mar Aral, localizado entre o Cazaquistão e Uzbequistão, estão desaparecendo. As calotas polares estão sofrendo mudanças significativas em seus tamanhos e geleiras nos Andes e no Himalaia derretendo. Simultaneamente, a população mundial cresce e, com ela, a maior demanda por recursos naturais, em especial a água.

Medidas sociopolíticas devem ser tomadas por governos de maneira a se adaptarem a um novo cenário no qual extremos climatológicos serão mais frequentes, uma vez que a ausência delas, tanto no contexto de politicas internas quanto externas, pode levar a conflitos causados não somente pela falta de água, mas também pelo seu excesso. Ao longo da história da humanidade, inúmeras guerras foram travadas por recursos naturais.

Internacionalmente, conflitos podem ocorrer por águas transfronteiriças, como observado em diversas regiões no Oriente Médio e Norte da África, e se tornam mais frequentes em menores escalas. Tenho acompanhado estudos que tentam correlacionar a falta de água a conflitos em comunidades africanas. O conflito também pode ser local, entre agricultores abastecidos por um mesmo rio que se encontra em uma situação de escassez. No caso do Sertão brasileiro, o acesso à água pode ser sinônimo de poder político-econômico. Já na escala regional brasileira, há o caso recente entre Rio de Janeiro e São Paulo pelas águas do rio Paraíba do Sul. Considerando um caso extremo, em que o estado mais populoso do Brasil interrompa o abastecimento de água a dezenas de milhões de pessoas, o resultado pode ser desastroso. Fome e sede são fatores básicos capazes de levar populações a revoltas e guerras civis.

Brasil e sua abundância de água

O Brasil, com suas dimensões continentais, dispõe de grandes reservas de água, tanto subterrâneas quanto superficiais, contando com boa parte da bacia do rio Amazonas, dentre outros rios que cruzam estados e regiões. Vinte por cento da água doce gerada nos continentes, escoando ao longo dos rios para os oceanos, tem origem em terras brasileiras. Entretanto, grande parte dessa água encontra-se na região Norte. As regiões Sudeste e Nordeste, que abrigam juntas 64% da população brasileira, possuem somente 13% desse recurso natural. Logo, apesar da quantidade significativa de água disponível no país, não se tem uma distribuição proporcional às demandas. Adicionalmente, tem-se a variação temporal da disponibilidade hídrica, isto é, os períodos úmidos e secos que temos a cada ano. Outro fator que, até poucos anos, não levávamos em conta, é o das mudanças climáticas. Embora atualmente exista estimativas dos impactos desse último na escala global, seus efeitos na escala regional ou local ainda são pouco conhecidos. Junto a esses fatores naturais, há o acelerado e descontrolado crescimento de centros urbanos eleva a demanda por recursos nessas regiões, resultando em grandes impactos ambientais.

Em geral, precisamos da água para o consumo doméstico, irrigação, atividades industriais, etc. Na teoria, o planejamento urbano de uma cidade deveria levar em conta fatores como consumo doméstico, irrigação, atividades industriais, etc. ao instalar e gerir sistemas de abastecimento de água. Contudo, na prática brasileira, esse não é o caso. Nosso país não apresenta, ainda, uma cultura de prevenção de problemas. Adotam-se soluções "tapa-buraco" quando infortúnios batem à nossa porta. Basta lembrar a situação de seca bem similar que tivemos há alguns anos em grande parte do país, e que resultou no "Apagão". Aqui estamos, mais uma vez, enfrentando os mesmos problemas e, igualmente, sem soluções efetivas.

Estado atual da água no Sudeste brasileiro

Iniciei uma pesquisa sobre a atual disponibilidade de água nas regiões Sudeste e Nordeste, assim que a seca deu início a conflitos entre os estados do Rio e São Paulo, pelo uso da água da bacia do rio Paraíba do Sul. Comecei a acompanhar mais de perto reportagens na mídia carioca a esse respeito, para manter-me atualizado sobre o assunto, enquanto analisava dados de modelos computacionais e satélites e gerados pela NASA. Usei, em particular, dados dos satélites da missão GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment), que medem variações do campo gravitacional terrestre, e produtos de modelos computacionais gerados pelo projeto GLDAS (Global Land Data Assimilation System). A partir desses dados, podemos estimar a variação do volume total de água armazenada e caracterizar o balanço hídrico em grandes áreas.

O que se observa, primeiramente, é que nos últimos dois anos houve uma queda de, aproximadamente, 22% na precipitação nas regiões Sudeste e Nordeste, se comparada à média histórica. Tal anomalia resultou em uma redução de água armazenada na superfície e subsolo de 66km³ por ano, desde 2011. Isso corresponde a uma perda de mais de 7 mil piscinas olímpicas por dia, secando através dos rios e aquíferos das duas regiões brasileiras. Porém, apesar de termos uma boa estimativa do que aconteceu - e acontece -, satélites ainda não são capazes de prever o futuro.

Claramente, a falta de chuva é uma grande responsável pela escassez de água. Afinal, caso houvesse chovido no último período úmido, não estaríamos vivenciando este problema. Por outro lado, o impacto da seca sobre a população poderia ter sido amenizado se tivéssemos politicas de segurança hídrica que priorizassem o bem estar do brasileiro. Acredito que a agravação da seca em ano de eleições tenha sido uma péssima coincidência. De forma a não arriscar a perda de votos, políticos preferiram apostar num futuro incerto, levando a população ao risco de ficar sem água, ao invés de tomarem medidas preventivas quando ainda tínhamos tempo.

Há também a questão da falta de planejamento urbano. A carência por água em centros urbanos cresceu significativamente desde a instalação dos sistemas de abastecimento, devido ao crescimento populacional e à industrialização, por exemplo, trazendo à tona a ineficiência do governo em implementar, e estabelecer, um planejamento urbano que acompanhe o aumento da demanda de recursos - não somente da água, mas também de qualquer outra necessidade que uma grande cidade possui.

Agravação de impactos ambientais

A falta de água não abala somente o consumo doméstico, a geração de energia e a agropecuária. Há também a agravação de impactos ambientais. Como muitos sabem, boa parte dos efluentes domésticos e industriais no Brasil ainda são descartados em corpos hídricos, com pouco ou nenhum tipo de tratamento. O grau de contaminação de um rio receptor de esgoto dá-se em função do volume de poluentes despejado, bem como da sua vazão. Ou seja, quanto menor for o rio, maior será o impacto do lançamento de esgotos nele. Dessa forma, considerando que a taxa de produção de efluentes domésticos permaneça constante, um rio que tem sua vazão severamente reduzida pela seca, terá uma maior concentração de poluentes. Além disso, incêndios podem ocorrer com mais frequência, já que o estresse hídrico pelo qual as plantas passam a sofrer, causado pela seca, representa um fator que facilita a expansão rápida de incêndios em matas. Em países localizados no hemisfério Norte, incêndios são frequentes durante os verões que, opostamente aos nossos, são secos.

Soluções?

Não se pode dizer com certeza quando cidades mineiras e paulistas poderão retomar seus padrões normais de consumo de água. Tudo dependerá de como será a próxima estação chuvosa. Segundo dados recentes, a Sabesp está distribuindo água do volume morto do sistema da Cantareira, e a população da maior cidade do país dispõe de água para consumo por apenas mais dois meses. Seguindo o mesmo caminho, Minas, se não houver um racionamento de água rigoroso ate a chegada do próximo período de chuvas, poderá atingir, em breve, a mesma situação. Dessa forma, a única solução de curtíssimo prazo é o racionamento de água. Uma vez que os reservatórios atingirem níveis mais seguros, poderemos pensar em soluções mais efetivas para tais situações.

Soluções devem levar em conta a grande variabilidade climática que estamos vivenciando atualmente. Elas vão desde a reeducação ambiental, de maneira a conscientizar a população a não desperdiçar água, à definição e implementação de políticas públicas, favorecendo a segurança hídrica brasileira. Políticas públicas devem ser acompanhadas de soluções infraestruturais capazes de aumentar a disponibilidade de água em regiões onde haja falta do recurso natural. Uma solução é a transposição de águas de uma bacia a outra. A transposição de águas do Rio Paraíba do Sul para o Guandú é um exemplo. Temos também a, ainda em construção, transposição do rio São Francisco.

Outra forma de se aumentar a disponibilidade de água em momentos de escassez é a dessalinização de água do mar. Israel, por exemplo, deu início à dessalinização de águas do Mediterrâneo para o abastecimento doméstico em 2005. Desde então, veio aumentando a sua capacidade de tratamento de água salgada e, hoje, o sistema é capaz de abastecer 80% da demanda domestica. Entretanto, o processo de potabilização de água do mar é extremamente caro, se comparado com tratamentos tradicionais de água doce. Segundo estudos realizados nos Estados Unidos, caso o consumo doméstico do pais norte-americano fosse completamente abastecido por água salinizada, isso aumentaria a conta de luz em 10%. Visto que o consumo médio de energia de brasileiros é inferior ao dos norte-americanos, a implementação de um sistema similar no Brasil teria um maior impacto no orçamento das famílias brasileiras. Além disso, dadas as atuais circunstâncias de geração de energia elétrica no pais, partir para uma solução dessas seria substituir um problema por outro.

A boa notícia é que, segundo dados disponibilizados pelo Serviço Meteorológico Americano da Noaa (National Oceanic and Atmospheric Administration), previsões globais indicam que o Sudeste terá chuvas seguindo a média histórica entre os meses de novembro a janeiro. Por outro lado, a situação não será tão boa para o Nordeste, que terá mais um verão com índices pluviométricos abaixo da média. De todos os modos, tudo que nos resta agora é aguardar e, assim que esse período de "vacas magras" passar, aprendermos com essa má experiência e buscarmos soluções efetivas para o futuro.

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