OPINIÃO
20/03/2015 16:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Brasil: água demais e gestão de menos

Tendo em vista que sobram recursos hídricos no mundo e, em especial, no Brasil, a questão principal não se trata de como garantir água para a nossa geração ou as futuras, mas sim de saber gerir o recurso, tendo como base o conhecimento da sua distribuição espacial e temporal altamente heterogênea e, por vezes, incerta. Para isso, precisamos de (1) políticos competentes capazes de tomar decisões em prol da sociedade, além de (2) técnicos e acadêmicos portadores de um conhecimento mais aprofundado da dinâmica hídrica, meteorológica e climatológica no País.

ferjflores/Flickr

Não, a água não vai acabar. Pelo contrário, a água é um recurso farto no mundo. Com toda a sua disponibilidade, podemos abastecer centenas de vezes o consumo da população mundial.

Tomando um único rio como exemplo, o Amazonas, e considerando dados sobre consumo de água mundial publicados pelas UNESCO, seria possível suprir toda a demanda de água mundial com 75% de sua vazão. Claro, o rio Amazonas é o maior do mundo em vazão, contribuindo com cerca de 15% a 20% de toda a água que é despejada nos mares. Mas isto quer dizer que, se levarmos em conta a água disponível somente em rios no mundo - ou seja, excluindo qualquer outra fonte de água -, poderíamos abastecer de 7 a 9 vezes a demanda hídrica humana mundial, incluindo o consumo doméstico, industrial e agrícola.

Além disso, a água em rios é somente uma pequena fração da água doce no mundo. Outras fontes são aquíferos, lagos e reservatórios. E a água doce acessível - ou seja, excluindo-se as geleiras - corresponde a ínfimos 0,5% do total de água disponível no planeta.

No Brasil, temos não somente o rio Amazonas, mas também outros grandes rios, tais como o Paraná, o Tocantins e o São Francisco, citando apenas três dentre muitos outros. A lista é grande.

A grosso modo, o volume de água doce gerado a partir da chuva sobre terras tupiniquins representa cerca de 20% do total produzido em todo o mundo (ou seja, a água escoando nos solos brasileiros poderia abastecer facilmente toda a demanda mundial!). Apesar da grande disponibilidade hídrica no país, sabemos que a distribuição espacial dessa água é bastante heterogênea - e que segue um ciclo anual (o chamado ciclo hidrológico) -, além de sofrer impactos causados pelas mudanças climáticas, como a seca prolongada observada no Sudeste e Nordeste. Deixo claro que essas comparações são feitas meramente para demonstrar quanta água temos disponível, mas que ela deve ser usada levando-se em conta outras demandas ambientais.

Tendo em vista que sobram recursos hídricos no mundo e, em especial, no Brasil, a questão principal não se trata de como garantir água para a nossa geração ou as futuras, mas sim de saber gerir o recurso, tendo como base o conhecimento da sua distribuição espacial e temporal altamente heterogênea e, por vezes, incerta. Para isso, precisamos de (1) políticos competentes capazes de tomar decisões em prol da sociedade, além de (2) técnicos e acadêmicos portadores de um conhecimento mais aprofundado da dinâmica hídrica, meteorológica e climatológica no País.

Enquanto o primeiro fator é função de questões éticas e morais, o segundo pode ser adquirido através de investimentos massivos em tecnologia especializada. Essa tecnologia especializada refere-se ao desenvolvimento de modelos computacionais confiáveis e satélites capazes de observar diferentes fases do ciclo hidrológico, além de outros componentes climáticos.

Os Estados Unidos e alguns países europeus estão bastante avançados nesses temas. Entretanto, o Brasil, principalmente pelas questões éticas e morais no meio político, ainda tem um longo caminho a percorrer antes de alcançar um ponto onde soluções efetivas de abastecimento de água para gerações futuras sejam discutidas. Isto se torna claro quando o consumo de água per capita brasileiro é comparado com o de outros países.

No Brasil, o consumo médio per capita é estimado em 150 litros por dia, enquanto que em países mais desenvolvidos mas com menor disponibilidade hídrica - como Estados Unidos, Austrália e outros europeus -, o consumo é duas ou três vezes maior. Isso demonstra que, com uma gestão eficiente, o termo "racionamento de água" não deveria sequer ser mencionado no Brasil. Outra comparação que deveríamos fazer é a das secas na Califórnia e no Sudeste brasileiro. Ambas são secas récordes e tiveram início quase que simultaneamente. Mesmo com um maior consumo per capita e menor disponibilidade hídrica, o estado americano está se saindo melhor que o governo brasileiro ao se tratar de contornar os impactos negativos de um evento extremo. Alguns especialistas no tema estão caracterizando a seca americana como o início de uma "mega-drought", ou mega seca, que poderia se estender por dezenas de anos. Com base nisso, estão iniciando discussões sobre medidas a serem tomadas para minimização de impactos e adaptação ao novo cenário climático. Enquanto isso, no Brasil, espera-se pacientemente pela chuva retomar seus índices normais...

Uma vez que ambos os fatores mencionados no parágrafo anterior estejam presentes, a etapa seguinte seria o investimento em grande escala em infraestrutura necessária para garantir água em locais hidrologicamente desfavoráveis ou com alta demanda hídrica, como é o caso das regiões Sudeste e Nordeste. Uma ideia que tenho mantido em mente há algum tempo é a de interconexões de bacias hidrográficas na forma de transposições de água. Algo como o nosso atual sistema elétrico, mas com dutos transportando água. Acredito que seria uma forma efetiva de garantir água em regiões permanentemente carentes, ou durante períodos de déficit hídrico.

Esta solução exigiria altos investimentos, conhecimento técnico-científico para a operação do sistema e obtenção de previsões de tempo precisas, além da prática de legislações definidas pela Política Nacional de Recursos Hídricos. Também se poderia partir para a dessalinização de água do mar. Outras soluções criativas seriam igualmente apreciadas, mas para isso precisaríamos de mentes qualificadas trabalhando no seu desenvolvimento. Entretanto, nem todos os países se beneficiam da disponibilidade de recursos observada no Brasil. Em casos de extremo déficit hídrico, como testemunhamos em determinadas regiões africanas, cooperações internacionais e planejamento urbano tornam-se essenciais.

Resumindo: sobra água. O que ainda falta é competência para geri-la. Temos um longo e árduo caminho a percorrer, e mudanças politicas devem ser feitas. Mas, com a conscientização da população sobre as nossas reais necessidades, criaremos forças para chegarmos lá.