OPINIÃO
13/01/2015 19:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que o extremo oriente russo é tão importante para a China

A China busca assegurar "áreas de retaguarda" ao longo de sua periferia continental - no sudeste continental da Ásia, na Ásia Central e no Extremo Oriente Russo. Com o controle de tais regiões, a influência de Pequim na Eurásia aumentaria consideravelmente, dando-lhe mais confiança em seus embates com Washington.

Gazprom

VLADIVOSTOK - A Rússia normalmente não é considerada um país da região Ásia-Pacífico. Mas na verdade, o país está incluído nessa região, graças ao seu território Extremo Oriente. A região do Extremo Oriente da Rússia é uma enorme área do nordeste da Eurásia, que estende-se do Lago Baikal até o Oceano Pacífico. A ligação direta entre a Rússia e a região Ásia-Pacífico, que se faz possível através do Extremo Oriente, torna o país uma nação verdadeiramente transcontinental, sendo os EUA o único outro país no mundo com tal característica.

O EOR (Extremo Oriente Russo) contém inúmeros tesouros naturais - petróleo e gás natural, cobre e minério de ferro, diamantes e ouro, água doce cristalina (só o Lago Baikal abriga 20 por cento da água doce de superfície não congelada), madeira e espécies de peixes (por exemplo, o Mar de Okhotsk é uma das áreas de maior produtividade biológica de todos os oceanos terrestres).

Apesar da imensidão territorial do EOR, a sua população é de pouco mais de 6 milhões de habitantes. Devido à localização remota, os meios de transporte precários da região até o centro europeu do país, o sub-desenvolvimento e falta de infra-estrutura, o EOR é uma fonte de preocupação constante para Moscou. Desde que a Rússia adquiriu esses territórios, há uma preocupação recorrente de perda dos mesmos, seja por agressões externas, invasões estrangeiras, divisões internas - ou uma combinação dos três fatores.

A Sombra Assustadora da China

Historicamente, o EOR nutre um relacionamento questionável com o seu vizinho gigante, a China. Ela é vista como um parceiro economicamente indispensável. Ao mesmo tempo, a China representa uma ameaça constante. Afinal, a região sul do atual Extremo Oriente Russo esteve sujeita à soberania nominal da dinastia Qing até a segunda metade do século 19. Apesar da questão da fronteira entre Moscou e Pequim estar oficialmente resolvida por tratados legais, a Rússia ainda nutre desconfiança de que a China possa reivindicar controle do território no futuro. Esse temor é corroborado pelos sentimentos declarados de muitos na China, que consideram que os tratados da fronteira com o Império Russo firmados no século 19 são "injustos" e fazem parte do "século de humilhação."

Por enquanto, Moscou e Pequim continuam sendo "parceiros estratégicos", com um relacionamento que cada vez mais assemelha-se a uma semi-aliança. Uma das principais razões pela qual a China precisa de uma forte ligação com a Rússia, está justamente no Extremo Oriente Russo.

Em primeiro lugar, Pequim quer ter uma fronteira segura e pacífica com a Rússia, para que possa concentrar seus recursos militares e planejamento em outros cenários estratégicos, principalmente no Oeste do Pacífico. As memórias dos confrontos com a União Soviética, quando a China teve que investir pesado para reforçar as suas fronteiras por causa do vizinho hostil ao norte, ainda não se apagaram totalmente.

Em segundo lugar, a economia voraz da China precisa dos recursos naturais do EOR, não só pela questão econômica mas também, e com a mesma importância, por questões estratégicas. Existem sinais de que a China está começando a ver o leste da Rússia como uma importante "retaguarda estratégica", um fornecedor terrestre próximo de várias matérias primas essenciais. Isso está diretamente relacionado à competição cada vez mais acirrada com os EUA pela supremacia na região Ásia-Pacífico. O temor crescente de Pequim é que se essa rivalidade chegar a um embate, Washington acabe usando a carta que carrega na manga - lançando um bloqueio naval das rotas marítimas pelas quais a China recebe a maioria de suas matérias primas importadas.

A dependência crescente de matérias primas importadas e as preocupações cada vez maiores sobre a conturbada relação com os EUA e os seus aliados da região do Indo-Pacífico, parecem ter como resultado a priorização muito maior do EOR para Pequim do que havia há cinco ou dez anos atrás.

Até recentemente, a presença econômica chinesa no EOR era bastante limitada. A quantidade de chineses que migram para o EOR também tem sido modesta -- não mais que 300.000 - a maioria desses vai por uma temporada, ao invés de estabelecerem residência permanente. No entanto, existem sinais de que a marca da China no EOR está para aumentar. O interesse da China no EOR coincide com o momento de necessidade de Moscou. Apesar de há poucos anos o Kremlin mostrar-se reticente em permitir o acesso direto dos chineses às indústrias mais importantes do Extremo Oriente, precisou mudar de ideia ao deparar-se com o isolamento do ocidente por causa dos embates com a Ucrânia, restando-lhe poucas alternativas além da China. Indo em direção, ou melhor, sendo empurrado em direção à China entre os confrontos com o Ocidente, Moscou revogou as restrições formais e informais sobre os investimentos chineses que existiam até então e começaram a ativamente tentar atrair investimentos chineses.

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A principal iniciativa foi no setor de hidrocarbonetos, tendo como ápice o contrato monstruoso totalizando 400 bilhões e 30 anos, assinado em maior de 2014 pela Gazprom e CNPC para o fornecimento de gás do EOR à China. Em outros acontecimentos históricos, mais especificamente no leste da Rússia, Moscou concordou aceitou vender ações do campo de petróleo mais lucrativo do país e do terceiro maior campo de cobre do mundo a empresas chinesas.

Os acordos mais recentes firmados entre a Rússia e a China no EOR não se limitam somente a indústrias de extrativismo. Em 2014, empresas estatais dos dois países anunciaram que iriam juntos desenvolver o porto de Zarubino, localizado estrategicamente no sul do EOR, onde as fronteiras da Rússia, Coreia do Norte e China se encontram. O porto de Zarubino permitirá o acesso direto da China ao Mar do Japão, cobiçado há muito tempo pelo país. O porto, cuja capacidade prevista é de 100 milhões de toneladas, abrigará principalmente cargas chinesas. Empresas chinesas também têm sido as principais investidoras de um grande empreendimento de um cassino e resort próximo a Vladivostok, que também deve ser inaugurado em 2014, visando atender principalmente visitantes da China.

Em discurso no Fórum Econômico de São Petersburgo em maio de 2014, o vice-presidente chinês Li Yuanchao pediu uma ligação do EOR com o nordeste da China a fim de "transformar os dois em um grande mercado - um novo bloco econômico na Ásia." Ao lidar com o EOR, Pequim pode contribuir através de suas gigantescas estatais, algumas das mais ricas do mundo, movidas tanto pelas estratégias calculistas do governo quanto pelas mais puras motivações comerciais. Comparadas com empresas ocidentais que respondem aos seus acionistas, elas podem investir pesado com horizontes de planejamento bem mais extensos, sem esperar resultados a curto prazo. Isso confere à China uma vantagem significativa no EOR, onde os projetos comerciais muitas vezes requerem investimentos financeiros gigantes, acompanhados de riscos significativos, sem a promessa de lucros rápidos.

O EOR é uma apenas um peça no jogo geopolítico de longo prazo da China, cuja estratégia é criar zonas de influência ao longo de suas fronteiras continentais na Eurásia. Dois outras principais áreas onde Pequim possui objetivos similares de tornar suas fronteiras seguras, conquistar acesso à riqueza de recursos naturais e provavelmente garantir um certo nível de controle político no futuro, são o Sudeste Continental da Ásia e a Ásia Central. A propósito, grande parte dessas regiões, com é o caso do EOR, já estiveram sob o domínio ou soberania da China. Outra característica comum da política de Pequim em relação às "áreas de retaguarda" é de conectá-las com as áreas chinesas adjacentes: o sudoeste da China (especialmente a província de Yunnan) com o sudeste da Ásia, o oeste da China (Xinjiang) com a Ásia Central, e o nordeste da China (Heilongjiang) com o EOR.

Apesar do aparente entusiasmo em relação à crescente aproximação com Pequim, Moscou está bem ciente dos custos e riscos do enlace com a China. O acesso privilegiado da China ao EOR pode resultar no domínio econômico chinês, que não só pode excluir outros competidores estrangeiros mas pode também afastar empresas Russas do EOR. A "sinicização" econômica pode, mais cedo ou mais tarde, contribuir para a erosão do controle soberano.

Há uma probabilidade de que a penetração econômica exclusiva da China no EOR possa, com o passar do tempo, ocasionar um maior controle geopolítico, prejudicando a soberania russa, com o risco do EOR tornar-se não apenas um anexo e fonte de matérias-primas, mas também uma base militar estratégica para a China no norte do Pacífico, principalmente se Moscou firmar uma aliança total com Pequim. O EOR poderia tornar-se exatamente o que alguns chineses preferem chamá-lo - "Manchúria Extrema", um território onde a soberania russa está cada vez mais tênue e onde as questões são decididas mais em Pequim e Harbin do que em Moscou ou Vladivostok.

Alguns especialistas em segurança na Rússia chegam até a discutir um cenário em que a China irá anexar o EOR através de uma ataque surpresa. Claro, isso não significa que tal invasão seja iminente ou mesmo provável. No entanto, não se pode descartar essa possibilidade se a Rússia ficar enfraquecida - principalmente se ela enfrentar uma situação de caos por conta de uma séria crise política ou econômica. Se a China tentar tomar controle do EOR, isso pode atrair outros atores ao cenário. Será que os EUA ocuparia Chukotka, Magadan, Kamchatka e a margem Ártica de Yakutia antes que os chineses invadam esses territórios? E será que por sua vez, o Japão passaria a controlar Sakhalin e as Ilhas Kuril?

Os Estados Unidos e o Extremo Oriente Russo

Talvez a candidata Sarah Palin não estivesse falando um absurdo tão grande quando afirmou que conseguia ver a Rússia do quintal da sua casa no Alasca. De fato, a Ilha Diomedes Menor situada no Alasca, fica apena duas milhas da ilha russa Diomedes Maior, situada no Estreito de Bering.

O EOR talvez não tenha grande importância econômica para os EUA, como o país já possui reservas naturais próprias em abundância, muitas iguais às que o EOR tem a oferecer. Mas, do ponto de vista geopolítico, a importância do EOR para os EUA é cada vez maior, à medida que a rivalidade Sino-Americana na região Ásia-Pacífico não mostra sinais de trégua.

"Uma participação maior das economias desenvolvidas da Ásia, como o Japão, Coreia do Sul e Cingapura, ajudaria a equilibrar a influência econômica crescente que a China exerce no EOR, contribuindo para uma estabilidade maior na região Ásia-Pacífico."

Como já foi mencionado, a China busca assegurar "áreas de retaguarda" ao longo de sua periferia continental - no sudeste continental da Ásia, na Ásia Central e no EOR. Com o controle de tais regiões, a influência de Pequim na Eurásia aumentaria consideravelmente, dando-lhe mais confiança em seus embates com Washington. Das três áreas mencionadas, o EOR traz ainda mais importância devido à localização adjacente à América do Norte, bem como a fronteira com o Ártico, região cada vez mais importante. Quanto maior a penetração chinesa no EOR, maior os riscos em potencial para os EUA.

O interesse americano no destino não é inédito historicamente: em parte, foi graças à intervenção diplomática dos EUA que o Extremo Oriente Russo permaneceu sob domínio russo, quando no começo da década de 1920, Washington obteve sucesso em pressionar o Japão, o maior opositor geo-político do país na época, a retirar suas tropas da região.

O objetivo dos EUA não deve ser manter a China fora do EOR, pois tal situação não é possível nem desejável. Ao invés disso, deve trabalhar no sentido de facilitar a integração do EOR com as economias da Ásia-Pacífico, para que a China não se torne o ator predominante na região. A Rússia certamente aceitaria de bom grado tal estratégia, já que ela corresponde totalmente ao seu próprio interesse de ter alternativas econômicas à China. Além disso, os russos também tem ciência de que a China não irá prover o que o EOR precisa, fora capital financeiro, tecnologia avançada e especialização profissional. É exatamente aí que os EUA e outras economias desenvolvidas possuem uma expressiva vantagem sobre a China.

Obviamente, as sanções contra a Rússia relacionadas aos conflitos com a Ucrânia dificultam investimentos americanos no EOR. Porém, Washington faria bem em pelo menos permitir que os asiáticos façam negócios com o EOR ao invés de pressioná-los a adotarem as sanções anti-russas do ocidente. Uma participação maior das economias desenvolvidas da Ásia, como o Japão, Coreia do Sul e Cingapura, ajudariam a equilibrar a crescente influência econômica que a China exerce sobre o EOR, contribuindo para uma estabilidade maior na região Ásia-Pacífico.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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