OPINIÃO
08/11/2014 21:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

25 anos depois, outro muro se ergue entre o Ocidente e a Rússia

Eu tinha 13 anos quando vi na TV imagens do Muro de Berlim desmoronando nos dias eufóricos de novembro de 1989. Era um menino que vivia distante, no Extremo Oriente soviético, mas a importância histórica do momento me marcou -- tratava-se de muito mais que a mera unificação das Alemanhas Oriental e Ocidental.

Eu tinha 13 anos quando vi na TV imagens do Muro de Berlim desmoronando nos dias eufóricos de novembro de 1989. Era um menino que vivia distante, no Extremo Oriente soviético, mas a importância histórica do momento me marcou -- tratava-se de muito mais que a mera unificação das Alemanhas Oriental e Ocidental.

Era a Guerra Fria que chegava ao fim. Uma nova era de paz e colaboração global principiava, em que Moscou daria as mãos a Washington e a outras capitais mundiais. Essa foi a principal mensagem de Mikhail Gorbachev e dos líderes ocidentais, o discurso predominante nos noticiários e dos analistas de política exterior, coisas que eu, como jovem interessado em política, seguia avidamente e nas quais acreditava.

É verdade, essa sensação de otimismo era tingida por uma preocupação incômoda. Apesar de a mídia soviética de modo geral dar um viés positivo aos acontecimentos no Leste Europeu, estava claro que o império perdia seus satélites. Isso era bom? Poderia diminuir o status de que nossa nação gozava orgulhosamente, compartilhando com os Estados Unidos a posição de superpotência? Afinal, como quase todos os meus compatriotas, fui criado ouvindo as narrativas da grandeza russa, e nem mesmo o "novo pensamento" de Gorbachev foi capaz de modificar essa mentalidade profundamente incutida. Mas essa apreensão foi obnubilada pelo clima geral de esperança.

Vinte e cinco anos se passaram desde que o muro foi derrubado. A Otan identifica a Rússia como a principal ameaça de segurança para o Ocidente, juntamente com o Estado Islâmico e o Ebola, e se prepara para mobilizar uma rápida força de resposta perto das fronteiras russas para conter uma possível agressão do Leste, enquanto a União Europeia e os Estados Unidos endurecem as sanções econômicas contra a Rússia.

Moscou se dedica à exibição de poderio nuclear para lembrar ao Ocidente os possíveis custos de uma ação militar contra a Rússia, enquanto se esforça para formar uma grande aliança anti-EUA com a China. E as partes de uma nova Guerra Fria estão envolvidas em uma intensa luta ideológica, embora desta vez ela não se concentre em comunismo versus capitalismo, mas sobretudo em democracia versus autocracia e direitos humanos versus valores tradicionais.

Fechando o círculo simbólico, a Ucrânia, que substituiu a Alemanha da Guerra Fria como principal Estado na linha de frente, hoje constrói um muro físico na fronteira para se proteger da Rússia.

Como chegamos à triste situação em que nos encontramos hoje? Como perdemos a oportunidade de construir uma ordem internacional mais segura após o fim da Guerra Fria? Em 1997, o ex-primeiro-ministro da Austrália Paul Keating declarou de modo profético: "A grande questão para a Europa não é mais como inserir a Alemanha na Europa -- isso foi realizado -- mas como envolver a Rússia de uma maneira que traga segurança ao continente no próximo século". Infelizmente, as advertências de Keating, assim como apelos semelhantes de outros, não foram escutadas.

O fim da Guerra Fria, simbolizado pela destruição do Muro de Berlim, rapidamente passou a ser visto pelo Ocidente como sua vitória triunfal e a rendição incondicional da União Soviética/Rússia. Portanto, a Rússia seria tratada de acordo, como um país de segunda classe, no máximo uma potência regional, que deveria seguir obedientemente as orientações que pudessem vir de Washington e Bruxelas.

O "terceiro muro" -- isolando a Rússia

O problema era que os russos não compartilhavam essa opinião de si mesmos como nação derrotada, obrigada a aceitar os termos dos vencedores. No início, Moscou esperava que ainda fosse tratada como um parceiro mais ou menos equivalente na construção da nova ordem internacional.

Em pouco tempo essas esperanças foram eliminadas. Não apenas o Ocidente negou à Rússia uma participação importante na governança mundial, como também continuou a tratá-la como potencial inimigo, o que se manifestou de maneira mais drástica na ampliação da Otan para leste, alcançando áreas que a Rússia sempre considerou cruciais para sua segurança.

A reação da Rússia, quando se recuperou um pouco do choque do colapso da URSS, foi previsivelmente forte. Primeiro, em 2007, veio o discurso de Munique feito por Putin, quando, ao abordar o Ocidente, ele estabeleceu as linhas vermelhas de Moscou. Este foi seguido pela guerra em 2008 com a Geórgia. E agora a crise na Ucrânia se desenrola, com a anexação da Crimeia e a guerra em Donbass. Esse ciclo de confrontos pode não terminar na Ucrânia. Pontos de choque potenciais incluem a Moldávia, os Países Bálticos e o Cáucaso.

Nos últimos cem anos, a construção de "muros" parece ter-se tornado um assunto estabelecido nas relações entre a Rússia e o resto da Europa. Em 1919, o primeiro-ministro italiano Vittorio Orlando e o primeiro-ministro francês Georges Clemenceau pediram que os novos países independentes do Leste Europeu formassem um cordão sanitário, uma aliança defensiva contra a Rússia bolchevique para impedir a disseminação do comunismo para a Europa ocidental.

Em 1961, Moscou e seu regime comunista cliente em Berlim oriental resolveram erguer uma barreira para isolar a República Democrática Alemã e todo o bloco oriental da subversão ocidental.

O "Terceiro Muro" na Europa está sendo construído hoje pelos dois lados -- com o mesmo zelo. O Ocidente tenta isolar a Rússia de Putin econômica e diplomaticamente de modo a torná-la um Estado pária. O Kremlin reprime as ONGs liberais, eliminando programas de intercâmbio humanitário e instigando a histeria antiocidental.

Em uma reversão às batalhas ideológicas entre o Ocidente capitalista e o Leste comunista, a Rússia de Putin não deixa de ter admiradores na Europa e nos EUA.

Eles se encontram principalmente entre os elementos mais radicais -- a extrema-direita simpatiza com Putin por seu credo nacionalista e apoio aos valores cristãos conservadores, enquanto os radicais de esquerda gostam do antiamericanismo de Putin.

Entretanto, as elites da corrente dominante ocidentais parecem estar furiosas com Putin e ávidas para entrar em luta com uma Rússia ressurgente. Afinal, Moscou não foi a perdedora na rivalidade bipolar? "A Rússia não aceitou o resultado da Guerra Fria. Essa é a história toda", disse recentemente Anders Rasmussen, recém-aposentado chefe da Otan, ao se referir à causa original das tensões entre a Rússia e o Ocidente.

Ver o Terceiro Muro se erguendo na Europa não pode deixar de atiçar algumas memórias da minha infância. Eu cresci em uma cidade costeira que abrigava uma grande instalação naval onde os submarinos estratégicos da Frota do Pacífico soviética eram reparados e mantidos. Quase todo menino de lá sabia que nossa cidade estava no topo da lista de alvos soviéticos para os americanos.

Esse foi o auge da Guerra Fria que veio a ser conhecido como "ameaça nuclear". Lembro-me muito vividamente desse medo assombroso de um ataque nuclear iminente. Também me lembro da derrubada, em setembro de 1983, de um Boeing sul-coreano que invadiu o espaço aéreo soviético -- invocando recentes paralelos terríveis com outro jato de passageiros asiático cujo voo terminou tragicamente sobre o leste da Ucrânia em julho de 2014. E ainda me lembro das palavras de Ronald Reagan, que chamou meu país de "império do mal".

Hoje os historiadores nos dizem que na época o mundo esteve muito mais perto de um Armagedon do que as pessoas percebiam. Provavelmente nós apenas tivemos sorte de evitar a aniquilação mútua na era do Muro de Berlim. Seremos igualmente afortunados na era do Terceiro Muro?

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