OPINIÃO
18/12/2014 15:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Uma história de racismo no centro de SP

Emílio Sá/Flickr/Creative Commons

Saio do metrô em uma tarde bem ensolarada na quarta-feira, 17, por volta das 15h40, no centro da cidade de São Paulo, para me dirigir a um compromisso com horário marcado para vinte minutos depois.

Não me lembrava ao certo qual a estação de metrô era a mais próxima do local, então, simplesmente com o celular com a bateria quase sem carga, fui a um ponto de táxi preocupado de o aparelho apagar sem eu ter memorizado o endereço do local. Cuidei, portanto, disso.

Aproximei-me do primeiro táxi parado em frente ao ponto e perguntei ao taxista - um homem alto, jovem e negro - se ele sabia me levar até o endereço, pois nunca havia ido para lá. Sabia que os taxistas daquele ponto não possuíam GPS, normalmente.

Após o homem afirmar que não conhecia o local e que seu celular estava com pouca bateria, pedi para que esperasse eu tentar localizar o endereço pelo meu aparelho, com uma internet lenta além da bateria quase acabada.

Enquanto percebia que o GPS não iria carregar tão cedo, um outro possível passageiro pedia corrida para o taxista e outro táxi chegava logo atrás.

Desisti do meu celular, desliguei o 3G para economizar a bateria e fui até o outro taxista fazer a mesma pergunta que fizera para ao outro. Este era um homem já de idade, talvez de uns sessenta, com um bigode e cabelos brancos e uma pele rosada.

- Sei sim. Eu te explico como chegar lá. Mas espera um pouco.

- Mas eu quero ir de táxi - afirmei em vão, sendo ignorado pelo taxista que estava mais concentrado em olhar o colega de profissão da frente.

O problema que surgira - e que só agora eu reparava - é que o primeiro taxista não era daquele ponto e estava parado lá na frente pegando um passageiro. O segundo taxista, que pertencia ao ponto, observou o primeiro taxista por alguns segundos até reclamar ainda de dentro do carro.

- Você vai ficar parado aí?

- Já estou saindo... - disse o primeiro taxista sem olhar nos olhos do segundo.

- Aqui não é estacionamento.

Fico observando a cena da calçada pensando se vou ter o azar de presenciar uma briga, quem sabe com tiros - tratando-se de São Paulo -, e acabar me atrasando para o meu compromisso.

- Você vai ficar aí no ponto que não é seu pegando passageiro? Você sabe que é errado.

A conversa se repetiu por alguns vezes até o segundo taxista sair do seu carro e começar a anotar a placa do outro veículo. O primeiro taxista, após ajudar seu passageiro a colocar uma bagagem no porta-mala, diz ao senhor:

- Quer anotar? Pode anotar... (dizendo a placa do carro)

- Não, não precisa... já estou anotando...

Chega então um terceiro taxista, também pertencente ao ponto, que é informado pelo colega do ocorrido. Ele avança, aproxima o táxi do primeiro taxista e fala algo que não consigo ouvir do lugar da calçada onde estou. A cena toda, entretanto, acaba tranquilamente e embarco no segundo táxi.

- Você quer ir de táxi? Vamos lá, então.

Após entrar no carro, puxo conversa com o taxista surpreso pelo ocorrido e pelo senhor ter sido paciente e não ter ido para a agressão.

- Mas que cara de pau esse cara, hein? - digo sincero sem imaginar o que estou alimentando.

- Vou passar a placa para o corregedor do ponto e ele vai fazer uma reclamação no DTP (Departamento de Transportes Públicos). O cara vai ser chamado lá e vai arrumar uma encrenca.

Eis que o taxista, então, responde o que eu inocentemente não esperava ouvir.

- É preto, só podia ser preto.

Penso, por alguns segundos, se devo entrar em uma batalha perdida ou me omitir em relação ao que posso tentar mudar.

- Eu acho que isso não tem a ver com raça, né...

- Não adianta tentar defender! A maldade do negro tá no sangue. - diz ele passando a mão e mostrando a cor branca da pele do seu rosto.

O taxista então, justifica sua afirmação como se possuísse uma prova científica melhor do que os cientistas que outrora disseram que os negros eram inferiores em relação aos brancos ou que os religiosos que diziam que os negros não possuíam alma.

- Já fui assaltado 13 vezes por um negro. Quero ver você falar alguma coisa com um 38 na sua cabeça.

O resto da viagem se seguiu praticamente em silêncio. Meu gravador estava guardado no fundo da mochila e meu celular estava agora com menos bateria. No fim da viagem, o taxista afirmou não possuir um cartão para deixar comigo e nem ao menos um telefone, já que nenhum havia sido instalado ainda no ponto.

Afirmei que poderia ligar para ele me buscar, mas ele me respondeu que muitos taxistas passavam por lá.

Na volta de meu compromisso, meia hora depois a caminho do metrô, rapidamente encontrei um grupo de policiais, em um posto da gasolina, e fui conversar com o mais perto de mim, com a esperança de que ele não me dissesse o que eu já esperava.

- Sem testemunha, vai ser a sua palavra contra a dele. Você vai ter que o reconhecer e eu tenho de levar o processo para a área cível. Você só pode levar o caso para a área criminal se conseguir provar. Se não conseguir, ele pode reverter o processo contra você.

Enquanto suspiro, o negro e gentil policial comenta.

- Não me leve a mal, mas infelizmente é assim. Outro dia atendi a um caso parecido. Um cara escutou um outro sendo ofendido - no ponto de vista dele era preconceito - mas depois o cara que foi ofendido ficou com medo de abrir queixa. O outro cara tentou levar para frente, mas não conseguiu.

O policial militar conclui com um comentário calmo e inesperado para mim, que aguardava uma resposta rígida e burocratizada.

- Infelizmente é assim. É a justiça do nosso país, ela favorece os agressores. Precisava mudar essa justiça, as pessoas precisavam se unir para mudar a justiça.

Agradeço e digo que é melhor não abrir a queixa e que vou torcer para o taxista ser pego ou mudar de pensamento. Pergunto ao PM onde fica o metrô e sigo o meu caminho.

Volto de trem e saio novamente da estação onde tudo havia começado, anoto a rua e o nome do ponto de táxi e depois retorno para casa pensando no que aconteceu.

Sim, existe preconceito racial no Brasil.

Em tempo: a página no Facebook"Apoiamos Jair Bolsonaro contra a hipocrisia politicamente correta" postou texto na rede social nesta quarta para se manifestar em favor do boicote aos médicos negros, como uma forma de combater às cotas raciais nas universidades.

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