OPINIÃO
08/12/2014 18:27 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Onde o PT quer chegar?

O partido não possui novas lideranças. Dos dois líderes da corrente interna do PT que levou o partido para o pragmatismo de se manter no poder, um está preso em regime aberto e o outro está envelhecendo e com resistências de voltar ao cenário político.

Roberto Stuckert Filho/Presidência da República

Após 50 anos do golpe de 1964, pessoas vão às ruas novamente pedir a intervenção militar no governo.

Aécio Neves, José Serra e outras lideranças tucanas e conservadoras estimulam essas manifestações em que vemos bandeiras e faixas defendendo um novo golpe contra a Democracia, independente do discurso destas lideranças.

O discurso oficial desses protestos também não carrega respeito à vontade manifestada pela população em outubro, nas urnas, pois pede o impeachment da presidente pouco tempo após o fim das eleições.

O que sustenta a derrubada institucional da presidente é uma reportagem da revista Veja, esta própria que questiona a credibilidade do conhecimento de Dilma Rousseff sobre os atuais escândalos de corrupção. O importante no caso, entretanto, é capa da revista, "Eles sabiam de tudo", difundida por militantes antigoverno e repercutida por outros veículos jornalísticos.

O PT, em contrapartida, se encontra apático do outro lado da história. Lideranças não fazem discursos, Dilma - a mais ameaçada - não faz pronunciamentos.

O partido governista vai para o seu 13º ano no poder parecendo estar sem rumo, ou, com um rumo tão retilíneo como o de um homem embriagado.

A sigla se difere da agremiação surgida no fim da Ditadura Militar em 1980 com lideranças sindicais, do progressismo católico e de intelectuais. Buscava transformar a sociedade e era crítica ao populismo varguista, que se equilibrava em conciliar interesses de setores da sociedade para se manter no poder.

Muita coisa mudou de lá para cá e hoje José Dirceu vai preso para a cadeira com um livro da biografia de Getúlio Vargas embaixo do braço. O partido se coloca vítima da grande imprensa assim como Vargas foi um dia.

Não se trata aqui de medir o nível de veracidade da ideia, mas de analisar o discurso.

O jornalista Paulo Moreira Leite, ex-membro da corrente esquerdista Libelu, analisou a mudança como um processo de "getulização" de Lula em artigo para a revista Interesse Nacional, em 2010.

"A getulização de Luiz Inácio Lula da Silva foi um processo de anos e possui aspectos surpreendentes. O estudioso da evolução das ideias políticas do País irá lembrar-se de que Lula e o PT nasceram num movimento político de crítica a Getúlio Vargas e boa parte de sua herança, em particular nos sindicatos. Eram de esquerda, sim, mas socialistas e não populistas nem nacionalistas. Sua referência era a classe social, e não a nação."

Hoje o PT exalta interesses nacionais como a Petrobras, criada por Vargas, e concilia interesses. Na campanha eleitoral, flertou com movimentos sociais contra uma política econômica ortodoxa. Após eleito, escolheu para ministro da Fazenda um profissional do mercado especialista em cortes fiscais, oriundo do setor bancário e conselheiro da campanha do adversário tucano Aécio Neves.

O rumo tortuoso nem sempre foi assim. O PT já oficializou um projeto socialista por meio de resolução em maio de 1990, onde esboçava um "socialismo petista", no 7º encontro nacional do partido. Não divulga ao menos um projeto de governo catorze anos depois.

Petistas falam internamente em um impeachment de Dilma Rousseff. O risco explica as concessões políticas da ex-brizolista Dilma à base governista. Independente do motivo, quem aprova a derrubada da presidente é o Congresso, sempre controlado pelo instável PMDB.

O partido, entretanto, joga na defensiva em momento diferente dos quando tomou esta posição nos últimos 12 anos.

Quando aderiu a uma política econômica ortodoxa em 2002, para não enfrentar o mercado financeiro e correr o risco de ser derrubado por uma economia em crise, tinha acabado de ser eleito e detinha o apoio das urnas, mesmo com as primeiras dissidências com o deslocamento do partido no espectro político.

Em 2005, o PT possuía a militância nas ruas contra o uso do escândalo do Mensalão como um golpe político-midiático. Hoje se percebe o impacto que o escândalo teve, mesmo sem retirar o partido do governo, ao colocar na cadeia as suas principais lideranças. Sete anos depois, o partido não faz uma crítica ao principal culpado pelo escândalo de corrupção: ele mesmo.

Hoje também se percebe como a comemoração do sucesso dos "postes" de Lula, em 2010, era precipitada. A avaliação hoje dentro do partido é que nenhum deu certo: Dilma, Haddad e Padilha. O último nem foi eleito.

O partido não possui novas lideranças. Dos dois líderes da corrente interna do PT que levou o partido para o pragmatismo de se manter no poder, um está preso em regime aberto e o outro está envelhecendo e com resistências de voltar ao cenário político.

Zé Dirceu está fora de combate, ao menos em público. Lula está envelhecendo e o tempo é finito para todos. Sua eleição em 2018 é hoje a esperança do partido.

A possível nova liderança petista e com maior atual representatividade, Dilma Rousseff, foi eleita com o apoio de setores do PT contrários a ela e de setores à esquerda. Ao tentar manter a governabilidade e não sofrer um impeachment, dá as costas para todos e até petistas mais pragmáticos se mostram incomodados.

Passo a concordar cada vez mais com a avaliação do meu amigo e cientista político da Umesp, Kleber Carrilho: o PT errou ao buscar continuar no poder em 2015. Poderia ter deixado um economia em crise e um país instável politicamente nas mãos do PSDB e retornar depois em 2018.

O partido, entretanto, esforçou-se para não sair do poder, nem que o fizesse apenas com o apoio de metade dos brasileiros que foram as urnas.

Cada vez menos diferenças se enxergam com o passar dos anos entre o PT e PSDB, como sempre preconizara o sociólogo Francisco de Oliveira, rompido em 2003 com o partido. Se o PT vai para a direita para se manter no poder, o PSDB poderia fazer o contrário pelo mesmo motivo.

A sigla tucana já garantira que manteria, no poder, programas sociais petistas, onde o partido governista parece ter estacionado frente a outras demandas políticas como uma reforma eleitoral, a taxação de fortunas e a criminalização da homofobia.

Talvez o PT hoje, três décadas depois de seu nascimento, não queira chegar a nenhum, e sim, apenas manter-se onde está.

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