OPINIÃO
03/10/2014 09:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O debate na TV Globo e o novo Levy Fidelix

reprodução

O presidente do PRTB que compareceu ao debate na TV Globo desta quinta-feira (2) não parecia o mesmo que foi ao debate da TV Record.

O antigo era o já conhecido candidato que nunca chegou longinquamente perto de ganhar uma eleição e que já foi acusado de tentar vender o seu partido para o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Que ficou famoso pela bandeira política do "aerotrem" e pelo seu jeito caricato. Que causa risos das plateias dos debates ao fazer piadas em meio a um tom sério, dicção boa e preparo para discutir os diversos temas.

O candidato, que teve coragem no domingo de afirmar que os gays são uma "minoria a ser combatida". Que, em seus 62 anos de idade, concluiu que "dois iguais não têm filho" e que "aparelho excretor não reproduz" (se referindo ao ânus, que na verdade faz parte do aparelho digestivo, ao contrário do pênis que excreta, sim, e reproduz).

Que disse que se a homossexualidade fosse aceita pela sociedade, poderia reduzir a população pela metade, como se a ciência já não tivesse demonstrado que ser gay é uma condição de nascença.

Que citou a avenida Paulista, como local de circulação de gays, como se fizesse uma convocação a novas agressões na região. Uma coragem de ação aos brasileiros intolerantes que passaram a esconder os seus preconceitos com a crescente exigência de liberdades sexuais no Brasil.

Choro e nervosismo

O Levy Fidelix desta quinta era diferente. Para começar, tinha menos sorte que o outro. Foi a única opção para se fazer uma pergunta de um dos dois presidenciáveis que questionaram publicamente suas declarações homofóbicas.

Eduardo Jorge, quando o relógio mostrava cerca de 23h15, perguntou pesado e sugeriu que Fidelix pedisse desculpas. Os olhos vermelhos e lacrimejados de Levy e a sua voz trêmula e gagueira mostraram que a pressão das redes sociais durante a semana foi sentida.

Como uma criança, atacou o pevista com argumentos fracos em meio à expressão de choro. Deu azar depois de novo: Luciana Genro, a outra presidenciável que também entrou com uma representação contra ele no Ministério Público, era a sua única opção a se fazer pergunta.

Acusou-a de mentirosa e contou uma situação de bastidor como se fizesse uma fofoca no ensino médio: o ex-marido da candidata havia ido pedir para ele não fazer perguntas a Genro.

O público ria com o desespero de Fidelix. Gargalhou novamente quando Luciana foi de novo sua única opção de pergunta no próximo bloco. Riu quando Fidelix a acusou de ter treinado guerrilha em Cuba.

A diferença é que Fidelix não era mais o personagem caricato nesse debate. Agora era a piada.

Levy poderia ter feito como tantos políticos e voltado atrás no que disse. A decisão de mantê-lo mostra uma teimosia juvenil e sinceridade no que afirmou acreditar.

O político visto antes como alguém que queria ganhar votos fácil e elevar o prestígio de seu partido mantém os mesmos trejeitos quando abalado emocionalmente. Talvez o personagem caricato fosse o Levy Fidelix de verdade.

Não se sabe ainda se o candidato terá sua candidatura cassada e se suas declarações estimularão a aprovação de uma lei que criminaliza a homofobia. Mas a pressão da parcela da sociedade que tolera as diferenças com o próximo parece ter feito mais um intolerante pensar duas vezes no que fala.

Brincadeiras

O debate foi marcado também pela descontração. Dilma fez um sinal irônico de lamentação por Aécio não poder fazer perguntas a ela; Everaldo e o tucano tentaram driblar o tema sorteado para ser questionado; Aécio disse que está sempre disposto a fazer perguntas a Eduardo Jorge e pediu palmas à plateia para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ia escrever aqui que Marina Silva era a única com cara amarrada ao responder as perguntas, além do presidente do PRTB. Mas vi, mesma da TV, a peessebista dando um sorriso para alguém quando as câmeras não estavam focadas nela.

É difícil saber quando os políticos estão atuando ou sendo espontâneos.

Talvez a maior surpresa do debate tenha sido mostrar um Levy Fidelix de verdade. E que, sim, existem pessoas na sociedade que pensam que nem ele.

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