OPINIÃO
07/10/2014 12:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O autor de "O Capital no Século XXI" não é marxista, é liberal

BERKELEY, CA - APRIL 23:  Economist and author Thomas Piketty speaks to the Department of Economics at the University of California, Berkeley on April 23, 2014 in Berkeley, California.  Economist author Thomas Piketty gave a lecture about his best-selling book titled 'Capital in the 21st Century' at UC Berkeley's Department of Economics.  (Photo by Justin Sullivan/Getty Images)
Justin Sullivan via Getty Images
BERKELEY, CA - APRIL 23: Economist and author Thomas Piketty speaks to the Department of Economics at the University of California, Berkeley on April 23, 2014 in Berkeley, California. Economist author Thomas Piketty gave a lecture about his best-selling book titled 'Capital in the 21st Century' at UC Berkeley's Department of Economics. (Photo by Justin Sullivan/Getty Images)

Pelo menos é que defenderam economistas em debate sobre o livro promovido na tarde desta sexta-feira (3) pela UFABC, em São Bernardo.

Sim, o livro mais discutido ultimamente no mundo da economia - e que tem lançamento previsto, no Brasil, para novembro - continua a ser comentado no Brasil.

Isso porque o conteúdo escrito pelo economista francês Thomas Piketty interessa a todo o mundo capitalista. OS EUA voltam a discutir a ideia de concentração de renda após décadas.

Piketty provou pela primeira vez com números - dados do imposto de renda de diversos países - que o mundo caminha para concentrar o dinheiro nas mãos de poucos. O culpado tem nome: o mercado financeiro.

O negócio funciona assim: a renda do capital (dinheiro ganho no mercado) é maior e mais rápida que a renda do trabalho (como a grana ganha por um operário na indústria, por exemplo). Além disso, a renda do capital não gera empregos. É apenas dinheiro fazendo mais dinheiro.

Piketty acredita que o mundo caminha para um futuro onde os bens e riquezas estariam tão concentrados que voltaríamos à Era Moderna: alguém só subiria de classe social a partir de casamento ou herança.

Aí o economista defende duas questões. Uma consiste na taxação sobre grandes fortunas, levada ao debate no Brasil pela candidata à presidência Luciana Genro (PSOL).

Já dados pesquisados e analisados pelo francês mostram que a concentração de renda no mundo só caiu por um tempo após a 2ª Guerra Mundial, quando os governos intervieram mais nas economias para ajudar na reconstrução dos países.

O livre mercado defendido pelos economistas ortodoxos promove uma sociedade melhor? Piketty leva a concluir que não.

Mas nem tão à direita, nem tão à esquerda

As mudanças defendidas no livro empolgaram críticos ao mercado. "O Capital no Século XXI" seria uma continuação de "O Capital", obra prima de Karl Marx, o padroeiro dos comunistas.

Piketty seria um marxista que comprova suas teses com números.

O professor de economia da UFABC Vitor Schincariol, entretanto, analisa que o francês não é isso, nem ao menos alguém com ideias keynesianas (que defende certa intervenção do Estado na economia).

Piketty seria apenas um "liberal crítico" que defende o mercado, mas dá importância para a distribuição de renda e quer um mundo melhor.

O próprio francês classifica Marx em sua obra como um economista "apocalíptico" e não cita o período da Guerra Fria no mundo, embate entre o mundo capitalista e socialista, que poderia ter relação com a queda ou crescimento da concentração de renda.

Piketty não menciona pensamentos econômicos. Despolitiza a economia ao deixar de fora as questões políticas e a ideia de conflito entre classes sociais, como também analisa a professora Cristina Reis.

A análise dos professores é interessante, já que a separação entre política e economia é feita pelo discurso liberal e visto por economistas "à esquerda" como um discurso ideológico. O que é exato não presume opinião. Logo, constitui pensamento único. A economia não dependeria de questões política, e sim, de números.

Entretanto, a ciência econômica faz parte das ciências humanas. Trata de pessoas que tomam ações sociais, que não são previstas por números.

Brasil

O terceiro economista docente na mesa, Giorgio Romano, politiza a questão no país. O período Vargas (1930-1954) e Jango (1961-1964) mostraria que o crescimento econômico faz com que as "elites" não hesitem em quebrar o "pacto democrático" para defender os seus interesses.

Os principais candidatos à presidência fogem, hoje, de falar em uma reforma tributária.

Temos um sistema tributário que concentra renda. A maior parte da arrecadação ocorre por impostos indiretos. Não incidem sobre patrimônios, mas sobre produtos. Tanto os ricos quanto os pobres pagam os mesmos valores.

Para o professor, se discute muito também no país a inclusão social, mas nem tanto a ideia de distribuição de renda. A questão pega fogo na época de eleição após 12 anos de governos que criaram e fortaleceram programas sociais como o Bolsa Família.

Claro, acreditar que um Congresso Nacional composto for famílias ricas e poderosas poderia aprovar um imposto sobre grandes fortunas ainda é longínquo. Mas o importante é discutir.

De qualquer forma, o debate sobre como diminuir a desigualdade social e a diferença de renda entre os mais ricos e mais pobres ao menos permanece no ar, independente dos ideários que acredite o autor de "O Capital no Século XXI".

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