OPINIÃO
27/03/2015 19:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Como a neurociência pode revelar os mistérios do sono

Patrick Fuller é neurocientista da estimada Divisão de Medicina do Sono da Escola de Medicina de Harvard. Em resposta às minhas perguntas, ele compartilhou seus insights sobre a importância da higiene do sono, a ligação do relógio cerebral com nosso bem-estar e o problema dos remédios para dormir.

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Patrick Fuller é neurocientista da estimada Divisão de Medicina do Sono da Escola de Medicina de Harvard. Em resposta às minhas perguntas, ele compartilhou seus insights sobre a importância da higiene do sono, a ligação do relógio cerebral com nosso bem-estar e o problema dos remédios para dormir.

O que o senhor descobriu em suas pesquisas sobre o "neurocircuito base" que sustenta o sono?

Especificamente em referência ao nosso trabalho recente sobre o "centro" promotor do sono de ondas lentas do tronco cerebral, mostramos que essa região do cérebro se conecta primeiro (sinapticamente) com uma importante região do tronco cerebral responsável por nos acordar, que por sua vez se conecta com o córtex cerebral. Essencialmente, desenhamos um "diagrama da fiação" do circuito segundo o qual a ativação dos neurônios do tronco cerebral que promovem o sono pode produzir um sono do "cérebro inteiro". A razão pela qual enfatizo a palavra "neurocircuito" é que acredito que, para entender como o cérebro faz qualquer coisa, é necessário entender antes os "andaimes" funcionais celulares e sinápticos dos quais emergem os fenômenos cerebrais.

Fale como a regulação circadiana afeta nosso sono e nossa consciência quando estamos acordados.

Tudo começa (e termina) com um pequeno relógio biológico em nosso cérebro. Esse chamado relógio "mestre" circadiano é na verdade uma coleção de neurônios localizada em uma pequena região do hipotálamo, que por sua vez é uma estrutura muito pequena. (Nos humanos, o hipotálamo tem mais ou menos o tamanho de uma amêndoa.) Esse relógio é formidável por várias razões. Talvez a mais notável seja que nenhuma outra região do cérebro possa assumir suas funções se/quando ele estiver danificado.

O papel fundamental do relógio é nos manter "sincronizados" com o ciclo de luz-escuridão da Terra, assim como manter os ritmos internos do corpo sincronizados entre si. E agora sabemos que uma sincronização correta interna e externa é fundamental para nosso bem-estar físico e mental. Um ótimo exemplo do que acontece quando nossos ritmos internos ficam fora de sincronia com o ambiente, assim como entre si, é o jet lag - sintomas de fadiga, perda de apetite, insônia, irritabilidade, disrupção gastrointestinal, dificuldades cognitivas e mal-estar generalizado. Quando temos uma disrupção ou dessincronização de mais longo prazo, tal como verificamos em quem trabalha em turnos, pilotos de avião de rotas longas, astronautas ou em pessoas que têm transtornos de sono causados por problemas no ritmo circadiano, as consequências físicas podem ir muito além desse mal-estar generalizado (como no caso do jet lag).

Esses indivíduos correm mais riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, doenças metabólicas, como obesidade e diabetes, e até mesmo câncer. Na verdade, não seria exagero dizer que nosso relógio cerebral é uma consideração biológica inescapável quando se trata da nossa saúde e nosso bem-estar.

Provavelmente não é surpresa que o relógio circadiano também controle o ciclo (ritmo) de dormir-acordar.

Como é autoevidente, dormimos à noite e estamos acordados durante o dia, pelo menos quem tem uma rotina regular (ou seja, não trabalha à noite, por exemplo). E o relógio circadiano tem um papel muito importante no timing segundo o qual acordamos e pegamos no sono. O relógio também tem um papel importante em nos ajudar a ficar acordados no fim do dia e em nos manter dormindo a noite inteira. Em outras palavras, o relógio promove estados de alerta ou de sono em horários diferentes do dia. Voltando ao exemplo do jet lag, essas propriedades do relógio ajudam a explicar por que nos sentimos tão mal depois de um voo longo - seu relógio quer colocar o cérebro e o corpo para dormir (ou mantê-los acordados) na "hora errada". E a situação fica ainda pior porque seu relógio também está confuso com a mudança do ciclo externo de luz e escuridão.

Um perfil seu na revista New York tinha o título "Será quem um neurologista de Harvard encontrou a cura da insônia?".

Descreva o que o senhor descobriu e o que isso significa para o sono.

Bem, eu diria que o título tomou uma certa liberdade jornalística. Nós (e reforço o nós) não descobrimos a cura de nada. O que nós, e minha colega de pós-doutorado Christelle Anaclet, em particular, "descobrimos" foi que o tronco cerebral contém um locus de neurônios que dispara, e possivelmente mantém, um sono profundo de "ondas lentas" e seu correlato eletroencelográfico, a atividade de ondas lentas corticais. Mostramos que conseguíamos disparar rapidamente um sono profundo em camundongos ativando "remotamente" um certo tipo de neurônios nessa região do cérebro, assim como conseguíamos evitar a entrada no sono profundo inibindo essas mesmas células. Nossas descobertas, portanto, têm implicações potenciais para o tratamento de transtornos do sono, como a insônia, ao oferecer novos (potenciais) alvos estruturais/celulares para o design racional de remédios ou para o desenvolvimento de outras modalidades de tratamento.

O que o senhor diria para quem considera remédios de dormir a resposta para insônia e outros problemas do sono?

Para ser honesto, preciso começar dizendo que acho que nossa sociedade confia demais em remédios (de qualquer tipo) e que eu, em geral, não sou muito fã de tomar remédio para todo e qualquer tipo de doença. Então minha resposta para você pode ser considerada enviesada. Ao mesmo tempo, acho que receitar e usar remédios de dormir ou hipnóticos/sedativos de forma criteriosa pode ter um propósito médico valioso. Eles são uma bênção divina para pessoas que têm problemas sérios para dormir. Com certeza a insônia é um problema de saúde importante, e quem sofre dela costuma perder muita qualidade de vida. O problema é com o diagnóstico da insônia, uma tarefa clínica complexa e algo que não acredito que possa ser feito sem uma análise médica/psiquiátrica e um eletroencefalograma (realizado num laboratório especializado em sono). A insônia autodiagnosticada e a prescrição de remédios de dormir por médicos que têm boas intenções, mas não estão completamente informados, é um problema, pelo menos na minha opinião. Essa perspectiva se sustenta no fato de que os pacientes que sofrem de insônia primária (ou seja, insônia que não está associada a nenhum outro problema de saúde identificável) respondem por apenas cerca de 15% de todos os pacientes vistos em clínicas especializadas em sono.

Como mencionado acima, a questão do diagnóstico é complicada pelo fato de que a insônia muitas vezes é um sintoma de (ou está associada a), e não é a causa de, muitos problemas, particularmente neuropsiquiátricos. Nesses casos, remédios de dormir para lidar com uma insônia provocada por ansiedade seria análogo a tratar febre com um agente redutor de febre sem atacar a infecção que a causa. (Reconheço que tratar sintomas de acordar/dormir também pode, em alguns casos, ajudar a resolver o problema principal.) Outro problema com muitos remédios para dormir são os efeitos colaterais documentados, algo que considero um elefante na sala. E isso ocorre porque alguns remédios aprovados pela FDA - e amplamente receitados - pode ter efeitos colaterais que são, para dizer o mínimo, "indesejáveis", incluindo sonambulismo, comer durante o sono, alucinações e parassônias sexuais. Muitos usuários também relatam que esses remédios os fazem sentir uma certa ressaca no dia seguinte. Em resumo, minha resposta para sua pergunta é muito simples, mas gostaria de reiterar que é importante saber que o tratamento de transtornos do sono, incluindo a insônia, pode ser complexo, especialmente porque os transtornos do sono frequentemente estão ligados a outros problemas difíceis de tratar.

Acredito que a chave para um bom sono, na ausência de patologia, é manter uma boa "higiene do sono". Isso inclui adotar e manter um horário específico para deitar e acordar, dormir de sete a oito horas todas as noites, evitar estimulantes depois do começo da tarde e manter o consumo noturno de álcool ao mínimo. Se a insônia persistir apesar da boa higiene do sono e do afastamento de questões psiquiátricas (ansiedade, TEPT, depressão, estresse etc.) e outras (doenças cardiovasculares, abuso de substâncias, transtornos do sono como apneia do sono ou síndrome das pernas inquietas etc.), então a insônia primária pode ser o diagnóstico clínico correto, e o uso limitado de remédios para dormir, tais como eszopiclone, pode ser justificado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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