OPINIÃO
23/01/2015 12:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Como o futuro do trabalho pode nos fazer mais felizes

Caminhamos em direção a uma economia dramaticamente diferente, na qual os trabalhadores serão prestadores de serviços independentes em sua grande maioria. Os freelancers vão trabalhar sob demanda para quem quer que precise de seus serviços, em vez de ter cargas horárias fixas e um único empregador.

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Caminhamos em direção a uma economia dramaticamente diferente, na qual os trabalhadores serão prestadores de serviços independentes em sua grande maioria. Os freelancers vão trabalhar sob demanda para quem quer que precise de seus serviços, em vez de ter cargas horárias fixas e um único empregador.

Como descreve a revista The Economist, os trabalhadores estarão numa plataforma que vai casá-los com clientes. Essa plataforma vai oferecer verificação, segurança e sistemas de pagamento. Esse é o mundo do Uber e, cada vez mais, será o mundo de praticamente tudo: serviços domésticos, cozinha, lavanderia, compras; personal trainers, programadores, médicos, advogados e criadores de tudo: de anúncios de TV a roupas que protegem contra o ebola. Conforme esses serviços se espalham, eles criam uma economia "sob demanda", ou uma "economia de plataformas".

Os motores dessa economia são as forças tecnológicas que estão virando Ronald Coase de cabeça para baixo. Precisávamos de empresas - entidades verticais, centralizadas e coletivas - porque eram altos demais os custos transacionais para conseguir clientes, pagar benefícios e oferecer infra-estrutura e os próprios escritórios onde os funcionários pudessem trabalhar. Hoje, entretanto, essa equação se inverteu. Precisamos de plataformas porque os custos de alugar um espaço central, centralizar procedimentos e políticas e ter funcionários permanentes são altos demais. É muito mais barato conectar clientes e provedores - e agora isso é possível.

Mas a The Economist deixou de notar uma transformação ainda mais profunda: são forças que vão mudar não só como trabalhamos, mas também como consumimos. A chave para esse ponto cego está na seguinte frase: "É pouco provável que a economia sob demanda seja uma experiência feliz para quem valoriza a estabilidade mais que a flexibilidade: profissionais de meia idade com crianças para educar e financiamentos para pagar". Talvez essa seja a visão de uma classe média do sexo masculino que tenha um dos integrantes do casal em casa, cuidando das tarefas domésticas. Mas, para profissionais de meia idade e todos aqueles que precisam coordenar o ganha-pão com o cuidado dos filhos, a flexibilidade é o Cálice Sagrado.

"A 'economia do cuidado' dá às pessoas tempo para ganhar a vida e fazer o que elas mais gostam."

A flexibilidade permite que advogadas, empresárias, banqueiras, médicas e muitas outras profissionais continuem a avançar em suas carreiras - ou pelo menos que se mantenham no jogo - e, ao mesmo tempo, sejam o tipo de mãe que querem e acham que devem ser. E a flexibilidade permite que mulheres de menor renda fiquem em casa cuidando de um filho doente sem o risco de perder o emprego.

Considere as implicações de um estudo recente de Claudia Goldin e Lawrence Katz, dois economistas de Harvard, sobre a profissão de farmacêutico, considerada por ambos uma das mais igualitárias quando se trata de mulheres e homens que a desempenham e a que tem uma diferença salarial mínima entre os sexos. A razão para isso, dizem eles, é que mudanças tecnológicas tornaram o trabalho dos farmacêuticos altamente divisível - ou seja, as tarefas podem ser quebradas em pedaços e, portanto, é fácil para um farmacêutico completar uma tarefa iniciada por outro. Ou considere o escritório Bliss Lawyers, que tem uma "equipe" de mais de 10 000 advogados espalhados pelos Estados Unidos. Cada um recebe mais de 200 dólares por hora e é remunerados de acordo com seu "envolvimento" em cada projeto.

Outras profissões seguirão o mesmo caminho, entendendo como dividir o trabalho em projetos ou jobs. Dessa maneira, é possível casar clientes específicos com profissionais específicos, dedicados a tarefas específicas, em vez de esperar que um grupo fixo de indivíduos lide com múltiplos casos ou clientes ao mesmo tempo. Como resultado, vai ficar muito fácil navegar as fases da vida em que precisamos cuidar da família. Cada vez mais pessoas estarão envolvidas com o cuidado de pais em idade avançada, graças ao envelhecimento dos baby boomers. A economia vai se tornar sob demanda por causa dos prestadores de serviço e também por causa dos clientes.

"Vai ficar muito fácil navegar as fases da vida em que precisamos cuidar da família."

A dimensão mais importante dessa flexibilidade é que ela permite que os trabalhadores tenham uma ocupação e também tempo para fazer outras coisas de que gostem. Olhando por esse ângulo, também vemos uma transformação naquilo que é importante para os mais jovens. Os millenials optam por uma relação diferente entre dinheiro e realização. Eles certamente querem uma renda decente e um padrão de vida razoável. Mas uma mudança dramática da economia sob demanda é que a definição de qualidade de vida para os millenials agora envolve mais tempo e menos coisas. Por que ter um carro, uma máquina de lavar, um cortador de grama ou até mesmo um vestido de noite ou um bracelete de diamantes? Consuma-os só quando precisar.

Você vai precisar de menos dinheiro porque antes precisava pagar um carro (ou qualquer outro bem material de grande porte), seguro, gasolina e manutenção. Agora você paga pelo serviço, só quando precisa dele. Pode gastar seu dinheiro em experiências, que nos deixam muito mais felizes, como sabem os psicólogos há muito tempo. Essas experiências, para jovens ou velhos, incluem esportes, viagens, arte e a possibilidade de fazer todo tipo de coisa. Para aqueles de nós que estamos na meia idade, muitas dessas experiências serão tempo com nossos filhos e nossos pais. Quando esse tempo tem de ser espremido num dia cheio, as experiências podem ser exaustivas. Mas, quando temos tempo suficiente para curtir, elas se tornam educação, crescimento e companhia.

Chamemos esse fenômeno de "a economia do cuidado" ou "a economia do interesse": aquela que permite que as pessoas tenham tempo para ganhar a vida e fazer o que lhes é importante. Os sortudos - certamente nós que estamos aqui em Davos - gostam do trabalho não somente como fonte de renda, mas pelo que ele representa. É algo que gostamos de fazer, que faz parte do propósito de nossas vidas. Mesmo assim, entretanto, podemos ser unidimensionais e chatos se nos preocuparmos só com o trabalho.

"Uma mudança dramática da economia sob demanda é que a definição de qualidade de vida para os millenials agora envolve mais tempo e menos coisas."

A economia sob demanda tem de se tornar uma economia do cuidado em outro aspecto crucial. Teremos de nos importar com todos os trabalhadores da plataforma, para garantir que eles tenham uma remuneração digna, acesso a saúde e a educação e condições de garantir seu futuro. Freelancers com habilidades ou profissões específicas provavelmente vão se organizar em associações, em vez de sindicatos, para fazer valer sua força coletiva com os empregadores - pense na Associação dos Atores. Mas, para os trabalhos de plataforma que exijam menos educação e habilidades, de dirigir a lavar roupas, serão necessárias leis, sistemas e apoio de uma sociedade que se importa.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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