OPINIÃO
17/11/2015 09:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Manhã de guerra, dois dias depois

Tantos rostos bonitos. Você vê como as vítimas era bonitas, como seus amigos choram? Jovens que estavam tão errados por sair para beber, errados por curtir um show, talvez errados só por amar.

AFP

Nestes tempos de luto nacional, os falecidos estão constantemente em nosso pensamento...

Dois dias se passaram. O próprio tempo chorou ontem. Pela primeira vez em dias, o céu escureceu e o vento estava frio. O dia se desenrolou com o pesadelo da noite anterior e o torpor do acordar.

Foi um dia de ligar para amigos e pessoas queridas, para se perder um pouco, para olhar fotos de uma Paris vazia, mas cheia de flores nas ruas e velas nas janelas.

Um dia para procurar análises e hipóteses, tentando encontrar sentido na loucura que se acometeu sobre nós, assim como sobre Sousse, Bagdá, Beirute, Damasco ou Tel Aviv.

A internet estava cheia de imagens de prédios do mundo inteiro iluminados com as cores azul, branca e vermelha, e assim nos sentimos menos sozinhos.

Nossos corações se aqueceram ao ver jornais do mundo todo, edições do HuffPost em tantos países da Europa, da Ásia e das Américas compartilhando nossa dor e celebrando a França.

Começamos a retuitar metodicamente as mensagens de famílias que procuravam pessoas desaparecidas. Nosso estômago se embrulhava ao ver a mesma foto anunciando a morte daquela pessoa.

Tantos rostos bonitos. Você vê como as vítimas era bonitas, como seus amigos choram? Jovens que estavam tão errados por sair para beber, errados por curtir um show, talvez errados só por amar.

Em janeiro, eles foram atrás daqueles que representam liberdade e pouca familiaridade com o Islã.

Na sexta à noite, eles tentaram esmagar a própria vida - esportes, música, a jovialidade de amigos num restaurante.

Esses jovens respiravam a vida. Abaixo a vida, a despreocupação, a felicidade. Os comandos poderiam muito bem ter gritado "viva la muerte", como o exército de Franco na guerra com a Espanha.

O sol pálido no céu do domingo nos convida a emergir lentamente do nosso terror.

Atos de solidariedade vistos ao redor do mundo - as pessoas cantando a Marselhesa na Trafalgar Square, Madonna cantando "La Vie en Rose" em Estocolmo com a ajuda do público, as faces sombrias dos políticos no mundo inteiro - nos incentivam a voltar à normalidade, a ouvir música, talvez reler Cimitière Martin, de Paul Valéry: depois da tentação de morrer, que existe nas primeiras fases metafísicas, essa tentação se transforma em um desejo de vida.

"O vento sopra, deve-se tentar viver."

Este artigo foi originalmente publicado pelo Le Huffington Post e traduzido do francês.

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