OPINIÃO
10/09/2014 18:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Santos x Grêmio: arena de muitos espetáculos

As ofensas racistas em contexto desportivo, uma questão ainda pouco tocada, nunca haviam sido tratadas de modo a gerar uma punição como essa - a exclusão do Clube da competição.

YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
Flamengo's fan holds a message against racism before their Brazilian championship match against Gremio at Maracana stadium in Rio de Janeiro, Brazil, on September 6, 2014. AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Todos assistiram à leitura labial inequívoca: "macaco". Uma violência diária pela qual passam os negros e negras no Brasil, mas que sob a luz de uma câmera de alta definição de uma grande rede televisiva, escancara a ferida: Brasil, um país racista.

O ocorrido contraria a famosa e criticada tese de Gilberto Freyre que, em Casa Grande & Senzala, fez questão de tecer um ambiente de suposta harmonia na Casa Grande entre brancos e negros. Com um olhar branco, o autor afirma que, na realidade, existiria uma quase camaradagem que enfraqueceria qualquer noção de hierarquia ou domínio de um sobre o outro. É possível imaginar e até se pode ver, nas redes sociais, pessoas que aderem, irrefletidamente, a essa tese: foi apenas uma "brincadeira".

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), uma instância administrativa, decidiu, nesta quarta-feira, que de camaradagem e de "brincadeira" provocativa a palavra "macaco", naquele contexto, não tem nada. Em decisão inédita na América Latina, os auditores acompanharam o relator de forma unânime e decidiram pela exclusão do Grêmio da Copa do Brasil e pela suspensão dos torcedores identificados por 720 dias dos estádios brasileiros - ainda cabe recurso. As ofensas racistas em contexto desportivo, uma questão ainda pouco tocada, nunca haviam sido tratadas de modo a gerar uma punição como essa - a exclusão do Clube da competição.

Parte da argumentação de STJD se baseou no fato de que o Grêmio seria reincidente na questão e, portanto, conivente com os atos racistas de sua torcida. Os críticos da decisão alegam que o clube não teria como controlar esses atos. Para além da questão da proporcionalidade da punição, acredito ser importante, como um exercício, separar duas esferas distintas: a da efetividade jurídica e a da moralidade pública. O STJD, em conjunto com o debate público em torno da questão, deve chegar a uma decisão acertada e espera-se que haja efetividade jurídica na solução do caso.

Em termos de conduta pública, um dos frutos mais importantes desse lamentável episódio é, certamente, o fato da voz do goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, ter sido escutada por todos. O que é violência rotineira, que acontece nos cantos do campo de futebol, cochichada, murmurada, gesticulada de forma rápida e dissimulada, essas pequenas grandes violências de todo dia praticadas contra os negros e negras foram escancaradas. Sendo o futebol arte e o jogo um espetáculo, nessa tragédia grega que se converteu, momentaneamente, a partida entre Santos e Grêmio, desponta ele, o negro como herói: ele foi ferido e ele fala, ele quer justiça, o lugar que ele ocupa fica onde ele bem entender. Quem passa a não ter um "lugar" no campo de futebol e nos futuros espetáculos são aqueles que praticaram o ato racista, indo contra o estabelecido, o esperado.

Como uma tragédia grega, a abrupta perda de privilégios de alguns "personagens" que, normalmente, traz uma lição ao leitor, deveria, também neste caso, servir de reflexão moral a todos da arena social: palavras são políticas, geram consequências e brincadeiras perpetuam preconceitos.

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