OPINIÃO
30/06/2014 11:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Deixe o futebol para os homens

Pouco nos importa o estereótipo, brandamos nós, mulheres, que gostamos de futebol e estamos cansadas de ouvir comentários machistas e repugnantes, que menosprezam nossa opinião sobre o assunto.

Getty Images

"Dai voz à vossa mágoa", escreveu William Shakespeare. Uma das frases mais lindas que já li, sem dúvidas. Hoje, então, resolvi seguir esse poderoso conselho e falar por toda e qualquer mulher que já tenha sido insultada ao falar sobre futebol. "Mulher não entende nada de futebol", diz o estereótipo. Pouco nos importa o estereótipo, brandamos nós, mulheres, que gostamos de futebol e estamos cansadas de ouvir comentários machistas e repugnantes, que menosprezam nossa opinião sobre o assunto.

Quem gosta de futebol? Homens que, aos finais de semana, vão a bares, tomar cerveja para acompanhar um belo jogo. Ou então aqueles marmanjos que vão de regata aos estádios e ficam cantando músicas do time para incentivar os jogadores. Mas, calma aí, o Brasil não é o país do futebol? Por acaso os 200 milhões de habitantes do nosso país são homens? E quer dizer que TODOS gostam de futebol?

Vou a jogos de futebol há anos, acompanho meu time na televisão durante todo o campeonato, seja ele qual for. Sei a escalação completa do time e acabo com minhas cordas vocais quando vejo um jogador perdendo um gol. Odeio quando tenho que sair de casa aos domingos às 16 horas e não, eu não sou homem. Sou apenas, somente, um ser humano que se interessa por esse esporte.

É verdade que o público nos estádios é majoritariamente masculino. Infelizmente, grande parte do público é, também, machista. O futebol não é um espaço democrático, que dá voz a todos que gostam do assunto. E, nessa ditadura sexista, as mulheres têm pouco espaço, sendo muito reprimidas pelos "donos da bola".

Além das torcedoras oprimidas, há também as bandeirinhas, que, quando erram, são mal faladas como nenhum homem jamais será, mesmo se anulasse um gol do Corinthians na final do Mundial de Clubes. Isso sem falar das jogadoras, de quem a mídia, em especial, não fala nunca. Se alguém souber o nome de alguma jogadora que não seja Marta, que atire a primeira pedra.

Até parece que todos os homens que você conhece gostam do esporte. Conheço um monte que nunca foi a um estádio, não torce para nenhum time e acha um saco ficar duas horas na frente da televisão vendo 22 pessoas correndo atrás de uma bola. E você, machista idiota, que pensou que esse homem deve ser gay, pode fechar essa página, porque ela não é para você.

Não há um gênero no ser humano que determina se a pessoa gostará de futebol ou não. É questão de costume, do ambiente em que você vive, do meio que te influencia a gostar de uma coisa ou de outra.

Contenta-me ver, cada vez mais, o mercado do jornalismo esportivo crescendo para mulheres. Quem gosta tem que estar lá. Quem se interessa e entende do assunto deve fazer o que gosta da vida. Se você acha uma delas ruins, posso te prometer que o número de comentaristas homens ruins não é pequeno. Isso porque não depende de gênero, e sim da pessoa.

"Futebol é coisa de homem" é o caralho, com todo o respeito. E claro que há os que não pensam assim, ainda bem. Mas as experiências da minha vida me dão a certeza de que muitos têm esse chavão como verdade absoluta e não tem vergonha de escancarar seu machismo por ai.

Ter expectativas de que esse protesto mudará a mentalidade de alguém idiota que pensa assim não vai adiantar nada, provavelmente só me causará frustração. Nascer mulher já deveria vir com um pacote completo de preparação para o preconceito de gêneros que diminui, mas ainda existe.

Como bandeira estava em relação ao lirismo que não era libertação, estou farta. Farta do machismo, dos que se recusam a entender que homens e mulheres podem fazer as mesmas coisas, gostar das mesmas coisas, agir da mesma maneira.

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