OPINIÃO
15/05/2015 17:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Mulheres que criticam outras mulheres são inimigas do feminismo

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A parte mais interessante de "Mad Men", que agora está em sua temporada final, é a dinâmica tensa entre as duas protagonistas femininas. Peggy e Joan teriam razões para se entender: as duas começaram em cargos administrativos baixos no setor da publicidade dos anos 1960 e alcançaram posições de poder normalmente reservadas a homens. Em vez disso, porém, o sexismo que enfrentam no trabalho acaba por distanciá-las.

Num capítulo recente, as duas tentam convencer três acionistas homens a apostar numa conta de uma empresa de meias-calças. Como seria de se prever, Joan é assediada. "Você devia trabalhar no ramo dos sutiãs", diz o primeiro homem assediador à ruiva sedutora. "Você é uma obra de arte."

Depois da reunião, em vez de se unirem no sentimento de revolta, Joan e Peggy descontam suas frustrações uma na outra. Quando estão lado a lado no elevador, Peggy atribui o comportamento sedutor barato dos acionistas à roupa trajada por Joan -um blazer roxo justinho. Joan responde que Peggy é feinha demais para entender. O diálogo delas me deixou incomodada, remetendo a coisas que já vivi de perto. O seriado é de época, mas a dinâmica nociva mostrada continua muito presente em 2015.

Você sabe a que dinâmica me refiro. Frustradas pela discriminação de gênero, o assédio e os padrões absurdos de beleza, as mulheres canalizam sua raiva contra outras mulheres. É mais fácil julgar uma colega que lutar contra o patriarcado. Mas o feminismo não vai evoluir se não pararmos de enxergar nossas diferenças como pontos de conflito.

As mulheres avaliam umas às outras de modo rápido e superficial. A empresa de aparelhos dentários Incognito fez um estudo que revelou que as mulheres formam opiniões nos primeiros 20 segundos depois de ver outras mulheres (sim, esta empresa tem interesse em nos provocar sentimentos de insegurança).

A maioria dessas opiniões diz respeito à barriga da outra mulher, passando em seguida para sua maquiagem. Na verdade, nós, mulheres, muitas vezes somos muito mais intransigentes umas com as outras que com os homens. Trinta por cento das mulheres disseram que, quando saem à noite, elas se arrumam mais para competir com outras mulheres que para atrair homens. As mulheres norte-americanas adoram odiar Gwyneth Paltrow e Anne Hathaway. Sim, o Goop é irritante e Anne Hathaway é dentuça, mas jamais dirigiríamos esse tipo de raiva fútil contra celebridades do sexo masculino.

Nós nos sentimos ameaçadas por outras mulheres; elas nos provocam sentimentos de insegurança. Uma pesquisa de uma psicóloga na Universidade de Ottawa constatou que, quanto mais bonita é uma mulher, mais as outras mulheres a rejeitam. Desde uma perspectiva evolutiva, a beleza atrai os homens, e as mulheres querem proteger sua unidade familiar. Num contexto mais moderno, quando vemos uma loira sensual, sentimo-nos insatisfeitas com nossa própria aparência.

Esse misto de medo e rejeição por nós mesmas tem como resultado comportamentos maldosos (cientistas chamam a isso "agressão indireta"). Em vez de canalizar seu antagonismo diretamente, as mulheres tendem muito mais a falar mal de outras mulheres pelas costas ("ela é uma vagabunda"), a exclui-las de atividades ou lhes lançar olhares ferinos. Psicólogos dizem que, como no passado as mulheres dependiam de grupos sociais para criar seus filhos, nós nos apunhalamos pelas costas para tentar evitar as consequências da agressão.

É claro que o "bullying" é mais declarado quando é cometido online. A internet acrescentou vozes minoritárias ao feminismo do mainstream (de mulheres pobres, mulheres LGBT, mulheres de diferentes etnias), mas conversas importantes sobre o privilégio feminino branco às vezes assumem mais o aspecto de difamação que de um esforço para resolver problemas (veja o caso dos comentários pouco sutis de Patricia Arquette na cerimônia do Oscar e as reações negativas online).

Existem muitas mulheres que cometem bullying no local de trabalho. Ouvimos falar muito em assédio sexual, mas não se fala tanto do fato de que mulheres em cargos de poder frequentemente demonstram desdém por suas colegas de trabalho mulheres. Uma pesquisa recente do Instituto sobre Bullying no Local de Trabalho revelou que mulheres que cometem bullying no trabalho têm outras mulheres como alvos em mais de 70% dos casos. Um professor na escola Olin de Administração da universidade Washington constatou que a maioria das chefes mulheres desencorajam novas funcionárias, por duas razões principais: elas se sentem ameaçadas em seu papel de mulheres inteligentes e poderosas, ou então temem que a nova funcionária aja de modo estúpido e que isso reflita mal para elas. Viva a irmandade corporativa!

Hoje já não é aceitável passar uma reunião de negócios assediando uma mulher com comentários sobre seus seios, mas os sentimentos que Joan e Peggy têm uma pela outra estão longe de extintos. Apesar de todos os avanços conquistados em matéria de direitos iguais, ainda não tentamos combater nossa própria dinâmica nociva com outras mulheres. Em vez de xingarmos umas às outras de vagabundas ou criticar as roupas de outras mulheres, deveríamos nos unir para enfrentar os verdadeiros opressores.

*Esta coluna foi publicada originalmente no The Ottawa Citizen.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.