OPINIÃO
02/03/2015 14:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Por que eu tenho (e não tenho) saudade dos meus 20 e poucos anos

Será que eu sinto saudade dos meus 20 e poucos anos? Sim, eu sinto. Será que gostaria de voltar a ter 20 e poucos anos só por um dia? Claro que gostaria - para que eu pudesse tirar novamente todas aquelas fotos em estou com maquiagem de palhaço e com reflexos tipo listras de tigre no cabelo. Mas será que eu realmente quero voltar?

Angela J. Kim

Eu já era blogueira antes mesmo da palavra blogueira existir em um site chamado Xanga. Ontem à noite coloquei as minhas filhas para dormir e assolada pela nostalgia, decidi tentar entrar na minha antiga conta para ler os desabafos que escrevi aos 21 anos. É claro que eu não lembrava mais da senha e demorou tanto tempo pra recuperá-la que eu quase desisti e pensei em assistir uma novela coreana.

Mas, ainda bem que não desisti, porque após um email e alguns cliques, tive acesso aos meus textos antigos, os desabafos dos meus 20 e poucos anos.

E lá estava uma versão sem filtro e sem censura do meu passado - o relato dos meus anos de faculdade, quando fiz várias burradas e tinha anseios infindáveis. A faculdade foi um momento de transição da adolescência para a vida adulta e como era de se esperar, a minha vida era repleta de incertezas, ansiedade, corações partidos e promessas que não foram cumpridas.

Eu me ressentia e tive o coração partido por ex-namorados, achava o meu emprego nada interessante no banco um saco e a única coisa da qual eu não reclamava era do tempo que passava com os meus amigos. "Tentei" colocar o pé na estrada várias vezes (graças a Deus nunca fomos adiante com a idéia de atravessar o país após uma noite de bebedeira) e a procura por aquela fantasia perfeita para o Halloween. (Me fantasiei de empregada francesa. Preciso deletar essa imagem da minha memória.)

Naquela época éramos selvagens e ousados. Usávamos palavras como f**a e m****a orgulhosamente e em alto e bom som com garotos bobos e também por qualquer, ou nenhum, motivo. Não dávamos a mínima para o que as outras pessoas achavam de nós, porque estávamos felizes com quem éramos.

Jovens, loucas e livres - éramos assim.

Não nos importávamos em limitar o nosso consumo de álcool preocupadas com o dia seguinte e nunca pensávamos em tomar vitaminas ou fazer exercício porque, tipo assim, ioga é coisa de gente velha. Não tínhamos a menor preocupação em nos comportarmos de maneira educada, e quem achasse ruim podia ir à me**a.

Ser educadinha? Bons modos? Como assim? Eu sou mais eu!

Éramos aventureiras e ousadas. Estávamos dispostas a arriscar no amor e na vida; dispostas a experimentar alguma coisa nova pelo menos uma vez, sem medo de errar enquanto o fazíamos. Nos apaixonávamos rapidamente e explorávamos com mais liberdade. Éramos jovens e livres - e apesar de reclamarmos de vez em quando da vida, do amor e dos homens (tudo bem, dos meninos), amávamos a vida com paixão, porque todo dia era uma nova aventura.

E éramos jovens.

Eu sinto falta do começo dos meus 20 anos. Sinto falta das paixões, daquela angústia existencial, da alegria sem preocupação e até das dores. Se você me perguntasse aos 21 anos onde eu gostaria de estar em 10 anos, eu provavelmente teria dito que gostaria de estar casada e feliz com meu marido perfeito, na minha casa perfeita, criando os meus filhos perfeitos com cachorros perfeitos que nunca fariam xixi no carpete ou comeriam os meus óculos de sol.

Eu teria três filhos (duas meninas e um menino, exatamente nessa ordem), teria um emprego perfeito que pagaria super bem e a minha casa estaria mobiliada com movéis caros e totalmente brancos. Minha casa seria impecável, super limpa igual àquelas casas de revistas de decoração. E como certeza não haveria brinquedos ou elásticos coloridos pelo chão.

Não, nunca! Na minha casa não.

10 anos depois, cá estou eu trabalhando no computador do meu marido porque o meu Macbook está moribundo. A escrivaninha está tão bagunçada e cheia de pilhas de papel, que no passado eu até tentava arrumar, coisa que desisti de fazer há muito tempo. Os meus dois poodles toy precisam urgentemente de um banho (são mais duas criaturas que eu preciso limpar...) e eles estão dormindo no nosso sofá de couro marrom barato e funcional, que há muitos anos foi usado como trampolim, caderno e prato.

Fico com saudade dos meus filhos quando eles estão na escola, mas quando eles voltam para casa, a guerra começa. É uma batalha que é contínua e sem fim, uma batalha diária que agora já se tornou a razão da minha própria existência.

Então será que eu sinto saudade dos meus 20 e poucos anos? Sim, eu sinto.

Será que gostaria de voltar a ter 20 e poucos anos só por um dia? Claro que gostaria - para que eu pudesse tirar novamente todas aquelas fotos em estou com maquiagem de palhaço e com reflexos tipo listras de tigre no cabelo. Mas será que eu realmente quero voltar?

Bemmmm... Sabe de uma coisa? Na verdade, não.

De uma maneira esquisita e meio deturpada, coisa de mãe mesmo, eu amo a minha vida os meus 30 e poucos anos, mesmo com o sofá de couro marrom e o chão imundo. Mesmo com as rugas e com o cabelo que está cada vez menos volumoso. Mesmo que agora eu precise fazer *pama e ioga como as velhas fazem. Eu ainda gosto da minha vida.

Apesar dos altos e baixos da maternidade, as minhas duas filhas são o meu mundo e eu sou o mundo delas. Graças a elas, eu agora tenho o título de mãe, o papel mais importante do universo. Graças às minhas filhas, o meu marido e eu formamos uma família; uma família tão imperfeita que ela é exatamente perfeita para nós.

Hoje em dia, todo dia parece ser novo e emocionante mesmo sem o álcool (bem, uma taça de vinho de vez em quando não faz mal). Alguns dias parece ser mais um capítulo do livro Escolha-A-Sua-Aventura e outros dias parece mais um capítulo de um livro de auto-ajuda. Mas o que é certo é que eu estou aprendendo constantemente e evoluindo continuamente para me tornar uma mulher melhor.

E eu acho que finalmente aprendi a ser educadinha, pelo menos na maioria do tempo.

Então sim, eu gosto mais dos meus 30 e poucos anos.

*Pama: Pama significa "permanente de cabelo" em coreano. É um rito de passagem cultural onde as meninas coreanas fazem permanente no cabelo para cachear o cabelo naturalmente liso. Muitas mulheres coreanas mais velhas acabam usando o cabelo assim pelo resto da vida.

Essa história foi postada originalmente no blog pessoal da autora, Mommy Diary.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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