OPINIÃO
30/04/2014 15:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Como não ser um expatriado no Brasil

Uma mensagem escrita por um estrangeiro num fórum de que participo gerou polêmica. O título: "66 razões para odiar viver no Brasil". Comparar a nova 'casa' com a antiga não é bom para a saúde mental.

Getty Images

Gringoes é um site que oferece espaço para que os estrangeiros comentem sobre a vida no Brasil. Enquanto muitos chegam lá com boas intenções - especiamente na página do Facebook - é justo dizer que o site ganhou uma má reputação por oferecer aos estrangeiros um fórum para vomitar toda a sua "bílis" expatriada.

Apenas uma hipérbole? Possivelmente, embora eu sugira a leitura de uma mensagem de fevereiro do ano passado em que alguém catalogou 66 razões para odiar viver no Brasil. Tudo bem que a mensagem foi postada na seção "desabafo", mas a sua ferocidade (e banalidade) gerou muitas respostas exaltadas (a favor e contra) e o post já tem mais de 140 páginas.

Mark Hillary, um escritor britânico e blogueiro que vive no Brasil, respondeu com um artigo para o Huffington Post (e alguns meses depois publicou um livro com o mesmo tema), no qual ele apresenta um relato mais equilibrado do que é ser um estrangeiro no Brasil. Ele também questionou por que os expatriados, particularmente aqueles com um "ódio beirando a obsessão", continuam se autoflagelando com o aparente "tormento" que é viver no exterior.

De fato.

Curiosamente, porém, eu observei uma espécie de crise existencial nos blogueiros 'expatriados' e comentaristas do fórum (incluindo alguns brasileiros) e uma enorme discussão sobre como as críticas são feitas e até mesmo se é apropriado (ou não) que estrangeiros critiquem o Brasil.

Bom, será que é?

Em primeiro lugar, deve-se dizer que parte do problema é anonimidade. A seção de comentários da maioria dos artigos online estão cheias de opiniões podres; pontos de vista que sem dúvida a maioria das pessoas não ousaria dizer a alguém cara a cara ou em público. Da mesma forma, em um fórum como o Gringoes você encontra pessoas dizendo tudo o que querem - com os posts mais virulentos muitas vezes ganhando mais atenção.

Em segundo lugar, grande parte das críticas deriva, sem dúvida, do fato de que as pessoas que vivem fora de seus países de origem inevitavelmente fazem observações e comparações com a vida em casa. Isso é normal - e certamente não é um fenômeno exclusivo ao mundo dos "expatriados".

Entre 2005 e 2012 eu trabalhei como assistente social com refugiados e migrantes e sempre ficava intrigado ao ouvir o que eles pensavam sobre o Reino Unido. Por exemplo, eu me lembro de um jovem muito confuso em seu primeiro "verão" no Reino Unido porque em um dia ligeiramente quente em Londres (cerca de 25º C, eu acho), muitas pessoas estavam com roupa de banho no parque, tomando sol. Mas ele logo entendeu porque depois daquele dia foram cinco dias consecutivos de chuva. "Bem-vindo ao Reino Unido," eu brinquei.

Com os expatriados, porém, o principal problema parece ser justamente o termo "expatriado".

Eu já escrevi sobre o meu desdém pelo termo "expatriado", que nada mais é que uma auto-categorização em que os estrangeiros ricos, predominantemente brancos e ocidentais, sutilmente insinuam seus privilégios, diferenciando-se de categorias menos "açucaradas" como migrante ou imigrante.

No entanto, o problema é que os estrangeiros que se auto-definem como 'expatriados' distanciam-se não só de outros tipos de migrantes, mas também da população local. Um efeito colateral negativo disso é que os 'expatriados', ao se autodefinirem (eles devem ser o único tipo de imigrante que faz isso) e privilegiarem seu próprio status, podem se tornar hipócritas sobre os países em que vivem e as pessoas que moram lá.

E não me levem a mal, estou mais do que disposto a admitir que eu também fiz parte disso.

Por exemplo, eu comecei meu blog, em parte, por sugestão da minha esposa brasileira e da minha cunhada, que se divertiam com algumas das observações que eu fazia quando me mudei para São Paulo no início de 2012. Inevitavelmente, já que eu sou britânico, meu primeiro post foi sobre o clima e escrevi tudo de maneira inocente e auto-depreciativa. As pessoas que comentaram apreciaram isso.

Mas então eu descobri que escrever um blog sobre a vida em um país estrangeiro não era uma ideia tão original assim. Lentamente eu comecei a encontrar outros blogs e receber convites para participar de sites que existiam apenas como diretórios de blogs de expatriados e eu até dei algumas entrevistas para eles.

Eu tinha caído direto na armadilha dos expatriados. Mas eu não tinha percebido até que escrevi um post sobre os ônibus de São Paulo. As respostas foram controversas. Os brasileiros pareciam apreciar minha opinião e meu senso de humor. No entanto, grande parte dos comentários negativos vieram de outros 'expatriados'. Acho que na ânsia de atrair visitas eu cometi o erro de postar links para o post em vários fóruns (o item no. 1 na lista do que não se deve fazer). Ironicamente, porém, a maior parte da negatividade parecia vir a partir do link que eu tinha postado no ... Gringoes.com.

É irônico porque em um site em que muitos postam coisas ultrajantes sobre o Brasil, eles agora se viam no direito de criticar o meu post. Era quase como se você tivesse que ser uma autoridade no mundo dos expatriados para poder fazer qualquer crítica sobre o Brasil - e claramente eu era apenas um novato.

Contudo, vou reconhecer que durante esse período, apesar de ter escrito aquelas mensagens em um tom de brincadeira, eu estava em uma fase inicial de altos e baixos, me adaptando à vida fora do Reino Unido. Acho que meus posts refletiam isso; apenas mais um expatriado reclamando das coisas, dizendo nas entrelinhas que "tudo no meu país de origem é muito melhor".

Na realidade, os meus posts eram muito mais sobre o meu esforço para me ajustar ao Brasil do que sobre o próprio Brasil. Mais importante que isso, percebi que comparar a nova 'casa' com a antiga não é bom para a saúde mental. Você acaba se tornando amargo e infeliz. E é também a maneira mais rápida de sentir ainda mais saudades de casa.

Pior ainda, você pode virar um hipócrita que assume uma suposta superioridade - um retrocesso cultural desagradável em relação às atitudes dos nossos antepassados colonialistas que, se não fizeram nada de bom naquela época, não vão fazer agora.

Para mim, o problema não é nem criticar nem comparar - é de onde essas críticas ou comparações vêm. A próxima vez que você fizer qualquer uma das duas coisas, se pergunte por quê.