OPINIÃO
18/02/2015 11:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Sobre o direito do homem de mandar fotos dos seus genitais

Está rolando nas redes sociais um vídeo mostrando a reação de várias mulheres ao olharem fotos de pênis através de seus telefones. Em poucas horas, o vídeo já contava com milhares de visualizações. Ao assistir ao vídeo com um homem ao lado, tive uma agradável resposta simpatética pelas mulheres.

Reprodução/Youtube

Está rolando nas redes sociais um vídeo mostrando a reação de várias mulheres ao olharem fotos de pênis através de seus telefones. Em poucas horas, o vídeo já contava com milhares de visualizações.

Ao assistir ao vídeo com um homem ao lado, tive uma agradável resposta simpatética pelas mulheres, que chegaram à conclusão de que os homens não devem mandar fotos dos seus órgãos genitais para as mulheres - a menos que sejam especificamente solicitados para tal. Nada de errado com isso.

Mas o vídeo acabou polemizando por aqui de qualquer maneira. Uma das mulheres do vídeo concluiu: não mande fotos não solicitadas de pênis. Se quer mandar algo, mande os dados da sua conta bancária. Ponto. Gracejo. Reflexão.

- Ah, que vadia!, replicou meu acompanhante.

No mesmo instante, me virei para ele e perguntei o que ele viu de errado na atitude dela. Seguem os principais argumentos do nosso debate.

- Ela é uma interesseira! Que rebati dizendo que poderia ter sido só um gracejo dela. E que mesmo que ela estivesse falando a sério, qual o problema? A mulher já é tão objetificada no dia a dia... Talvez ela ache mais útil receber dinheiro do que a foto de um pênis. É um direito dela querer dinheiro em vez de foto dos genitias alheios, não?

- Então se ela pode só querer o dinheiro do cara, o cara também pode querer só o corpo dela! Expliquei que a mulher já é um objeto sexual de qualquer maneira. Voltei até os tempos do sufragismo britânico, quando as mulheres foram trabalhar nas fábricas durante a 1ª Guerra Mundial em troca do direito de votar, e que depois da guerra só conseguiam ou ser mães, ou ser trabalhadoras, ou serem sexuadas. Nunca é do jeito delas. É sempre do jeito deles. Eles decidem a forma delas terem filhos, a forma de criar, que profissão podem ter...

- É por isso que ninguém presta atenção em você, você diverge totalmente do assunto. Repliquei que o machismo está em todo o lugar e em muitas pequenas atitudes e formas de pensar.

- Se um cara assobia para uma mulher, não quer dizer que vai estuprá-la. Nesse ponto, tive de respirar fundo, mas segui calmamente explicando que o sujeito assobiar já é uma forma de violentar a mulher, pois assim como a foto do pênis, não foi solicitado. Se a mulher quiser que um homem assobie para ela, não tem nada demais. No Reino Unido, uma amiga me garantiu que os trabalhadores de obra estão proibidos por lei de assobiar para mulheres passando na rua. Mas a mulher comentar que prefere que o homem mande os seus dados da conta bancária não é uma violentação do homem. A mulher apenas expressou essa vontade. Ela não exigiu que o homem enviasse os seus dados e não enfiou a mão na carteira de ninguém para tirar dinheiro.

- Então o cara não tem o direito de querer que a mulher se depile pra ele também né? Disse ele, horrorizado. Repliquei que o homem tem todo o direito de querer que uma mulher se depile. Ele só não tem o direito de obrigá-la a se depilar. A mulher do vídeo também tem todo o direito de querer uns trocados a mais em vez de receber fotos de pênis. Ela só não pode obrigar ninguém.

Depois disso, a conversa assumiu tons agudos e enfurecidos da parte dele. Eu achei engraçado na hora, mas fiquei entristecida ao perceber que a mulher ainda tem de percorrer um longo caminho para ser tratada com igualdade e respeito. Afinal de contas, o problema não é só a mulher do vídeo se mostrar interesseira. É, principalmente, dela ser julgada tão severamente apenas por expressar uma opinião. Já diz a historiadora britânica Mary Beard: há muitos anos existem inúmeras maneiras de se calarem as mulheres.