OPINIÃO
11/09/2015 16:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Por que eu abri mão de independência financeira para ser mãe em tempo integral

Thanasis Zovoilis via Getty Images
Small boy with his mother using a digital tablet

Muitos me perguntam, com ar de espanto e incredulidade, como é possível ser mãe em tempo integral por escolha, mesmo tendo uma profissão. A resposta é mais simples do que parece: porque eu me sinto realizada. E as pessoas acham isso muito estranho porque a maioria acredita que só é possível se sentir realizada tendo uma profissão, um emprego, um ganha-pão para se ter independência financeira.

A independência financeira é extremamente importante, assim como reconhecimento pelo trabalho. Mas não é o que me faz sentir realizada, porque eu nunca tive a oportunidade de ter independência financeira por muito tempo nem reconhecimento em nenhuma profissão. Minha mãe fez questão que eu terminasse os estudos sem precisar ter um emprego fora de casa. Quando terminei o 9º ano, aos 14 anos, tivemos uma conversa. Eu queria fazer a Formação Geral para poder prestar vestibular numa faculdade pública e minha mãe me explicou que fazer esse 2º grau na escola pública (em 1991) não me daria chances de fazer o difícil vestibular das universidades públicas nem me daria uma profissão para que eu pudesse ao menos pagar um curso pre-vestibular. Com isso em mente, escolhemos juntas o 2º grau que me daria ao menos uma profissão: a Formação de Professores.

Terminado o 2º grau, em 94, continuei sem independência financeira porque morava em uma cidade do interior do estado do Rio, e as únicas oportunidades de trabalho eram as escolas públicas. Para entrar, só com concurso. Se ao menos fizessem concursos, né? Mas não fizeram. Quem tinha amigos na prefeitura, conseguia vaga de professora primária. Como eu não tinha... Não importava o meu suposto mérito.

Fiz concurso então para a prefeitura de uma cidade vizinha. Passei em 2º lugar. E nunca fui chamada! Não importava o meu suposto mérito. So conseguiu trabalho quem conhecia alguém na prefeitura.

Sem dinheiro, tentei o comércio local. Consegui trabalhar apenas um mês em três empregos diferentes. Fui tratada como capacho. Nada de reconhecimento ali. Você tem que chegar e já saber tudo. Não te treinam e quando você erra te despedem. Um desses empregos era de caixa de uma loja de sapatos onde eu tinha que lidar com uma caixa registradora antiga. Fui dispensada porque o método era tão arcaico que não consegui aprender a lidar mais rápido com ela. Outro emprego foi num café, onde fui dispensada porque a gerente, que era mãe da proprietária, ficava me mandando comprar um litro de leite aqui, outro ali, um quilo de farinha, todo santo dia. No final, me acusaram de sair do trabalho sem avisar (palavras da gerente), porque a dona não acreditou que a gerente me mandava sair para comprar itens para o café assim pingados, já que a dona fazia compra de mês. Nenhum reconhecimento ali. Nem satisfação financeira, já que eu trabalhei ali das 7 da manhã as 7 da noite, e de tarde a gerente reunia as três funcionárias e dava um lanche. Quando fui dispensada, todos os salgados que fui servida nesses lanches foram descontados do meu salário.

Em 97 conheci meu marido e aí surgiram oportunidades. Ele morava na capital e ficou de olho para mim no concurso público para professora porque o jornal Folha Dirigida não chegava no interior. Internet não era essa Brastemp toda ainda. Conexão discada... E esse tipo de informação não estava na rede. Ganhei de presente um curso pré-vestibular do namorado na cidade vizinha e sai da casa da minha mãe aos 20 anos. Fiz quatro vestibulares de uma só vez e mais o concurso da prefeitura do Rio.

Não passei nos vestibulares - o curso de formação de professores não me deu a menor base para enfrentar biologia, química, física. Mas passei na prefeitura, então me mudei para o Rio. Minha vida profissional finalmente havia começado!

Ganhava bem. Trabalhava em algo que gostava e em que era boa. Conquistei, por seis anos, a minha independência financeira com realização pessoal e profissional. A vida era ótima. Podia sair de casa de manhã as 6:15 com um biquini na bolsa, andar de ônibus por meros 20 minutos e voilá, estava no trabalho. Às 5 da tarde, quando acabava o 2º turno de aula da escola, eu podia sair e ir direto para a praia. Eu conseguia guardar dinheiro. Eu me sustentava. Comprei meu primeiro celular por 300 reais e ele não tinha sequer a função de enviar torpedos.

E aí, em 1999, o curso de jornalismo deixou de ser em tempo integral e passou a ser em turnos. E surgiram muitas vagas. De manhã e de noite estudavam quem trabalhava no outro horário, mas de tarde a procura estava fraca, então uma universidade particular fez uma série de promoções para atrair alunos. O horário da tarde era metade do preço do curso nos outros horários. E ainda por cima a prefeitura do Rio tinha convênio para descontar da mensalidade do curso à noite ou de manhã. Optei inicialmente pelo curso da tarde, mas depois consegui o convênio e fui estudar à noite. As coisas ficaram mais apertadas porque deixei de morar em república para alugar ap, então aumentaram as despesas. Mas ainda assim, era apenas um sacrifício por um bem maior.

Terminei a faculdade, mesmo com as dificuldades e o discurso contra. Sim, porque eu, sendo alta e magra, tive que ouvir de todos os professores que eu nunca iria ser jornalista por ser uma mulher bonita demais (leia-se: burra). A única exceção foi o professor que disse para ignorar esse idiotas, porque ele tinha certeza que eu daria uma ótima jornalista - de moda!

Por trabalhar o dia todo, não pude fazer estágios em veículos de comunicação. Fiz o mínimo de estágio necessário para formar dentro das próprias instalações da faculdade, que possuía estúdio de rádio, de vídeo e sala de internet para pesquisa ou diagramação de mídia impressa e online. Ali, portanto, nada de reconhecimento também. Restava o magistério. Era a minha tábua de salvação.

Mas então o marido resolveu tentar a vida fora do país. Me faltava mais de um ano ainda para completar a faculdade, então não fui com ele em 2002. Ficamos noivos por dois anos. Por dois anos, ouvi todos à minha volta dizer: o que você está esperando para ir atrás dele? Ele está morando na Europa! Larga a faculdade e vai. Larga seu emprego e vai. Você nunca vai ter oportunidade semelhante na sua vida (porque eu era pobre). Eu alegava que ir sem faculdade feita era arriscado, me diziam que isso era bobagem já que ele tinha emprego e poderia me sustentar até arranjar emprego. Eu dizia que já tinha um emprego estável, me disseram que eu era burra de ficar no Brasil por um empreguinho de professora quando eu podia estar vivendo na Europa. Eu alegava que queria ser jornalista, que ia deixar o magistério, e me disseram que jornalista tem em todo lugar, mas que engenheiro trabalhando com microchips (como o meu marido) só encontrava trabalho fora do País. Acabei deixando meu emprego e indo para a Europa.

Em Portugal, meu marido ganhava menos do que em seu emprego anterior no Brasil, e eu não consegui emprego por dois anos, só estágios não remunerados. Independência financeira foi finalmente pras cucuias porque, como muitos me disseram também, eu nunca deveria ser um obstáculo para o sucesso profissional do marido. Quando finalmente estava começando a ver uma luz no fim do túnel no novo país, marido resolveu fazer doutorado no Reino Unido. Concordei mais uma vez, fiz tudo feliz da vida. Mas cheguei aqui sem saber falar inglês. Fui aprender a língua e me preparar para fazer um mestrado. A ideia era depois voltar ao Brasil e ir dar aula em faculdade.

O mundo dá voltas. Dois anos de Reino Unido e nada de trabalho. Desanimada, já perto dos 30 anos, resolvi tentar aquela outra parte, a da maternidade. Pensei: não estou conseguindo trabalho. Então que tal ter filhos, que eu sempre quis, e ser mãe de tempo integral? A ideia me encantou! Nunca pensei que eu pudesse ter essa oportunidade. Nunca me passou pela cabeça ter a chance de ver meus filhos crescerem, apanhar cada detalhe. Mas foi dessa maneira que eu encarei a situação na época: como uma oportunidade, não como um fardo que eu teria que carregar. E veio o 1º filho, e havia tanta coisa para fazer - tantas atividades sensoriais para mães/pais e bebês, tanto parquinho em local seguro pra ir, que eu finalmente me rebelei. Pela 1ª vez desde os dez anos de idade, parei de usar relógio de pulso. Acabei com horários na minha vida.

Na maternidade, ou maternagem, como gosto de dizer agora, eu não tenho a tal independência financeira. No Reino UNido, creche custa caro. Muito caro. Babá custa caro. Muito caro. Me vi num dilema. Ou boto criança na creche e trabalho de faxina para ganhar apenas o suficiente para pagar a creche, ou fico em tempo integral com criança. Como a gente sabe que não faz mal para a criança estar com uma mãe ou pai em tempo integral e era mais barato, lá fui eu ficar com criança. E no fringir dos ovos, eu não sou mãe de tempo integral porque eu não tenho outra escolha. Eu sou porque eu gosto. Porque nos empregos que tive, mesmo no melhor deles, não tive a satisfação que agora tenho. O fruto do meu atual "trabalho" é muito recompensador. A satisfação pessoal que tenho agora supera milhares de vezes a satisfação profissional que tive no magistério.

Faltou a independência financeira, né? Isso não tenho mais. Dependo do marido para me sustentar e sustentar meus filhos. Eu meio que me sinto bastante "independente" ao fazer uma economia sem tamanho para viabilizar ficar em tempo integral com as crianças sem onerar o salário do marido. Me sinto fazendo algo concreto no sentido de contribuir para as finanças da família ao fazer sacrifícios de não comprar certas coisas, de não gastar dinheiro em coisas que outros gastam normalmente. Por exemplo, não temos TV em casa. Você precisa pagar uma licença anual em UK. Não pagamos. Gasto o dinheiro em outras coisas.

Ninguém precisa ter pena de mim porque eu não tenho uma carreira. Eu não tenho. Nem carreira, nem pena. Enquanto meus filhos quiserem fazer cama compartilhada comigo, enquanto o mais novo quiser amamentar, enquanto eu precisar levar filho na escola e buscar (e se realmente for preciso levar na escola, porque o que eu mais queria era fazer ensino caseiro), eu vou estar lá pra eles. E pra mim também, porque eu me sinto muito realizada em escrever artigos jornalísticos mesmo sem ter um emprego que me sustente ainda. Quando eles estiverem maiores, digamos um com dez anos e o outro com cinco, eu não vou ter mais bebê querendo jogar bola comigo na sala. O mais velho provavelmente vai levar o mais novo no parque e eu nem vou ter mais nada a ver com isso. E só falta três anos pra isso. Se eu viver até os 80 anos, digamos, vou ter 40 anos ainda para ir fazer mestrado, trabalhar como jornalista, professora, faxineira, o que eu quiser. Então... tô de boas como mãe de tempo integral.