OPINIÃO
18/03/2015 18:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Pelo direito de sermos coletoras de frutas

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Fico imaginando como seria a organização social das primeiras comunidades de humanos, vagando nômades pela terra. Acredito que, antes das sociedades, havia muito mais igualdade entre homens e mulheres. A busca por alimento devia ser a grande tarefa diária de todos. Nada de profissões, de hierarquias.

Mas a busca de alimentos para a sobrevivência deve ter provocado a especialização das tarefas. Todos teriam que buscar o próprio alimento, no início. Mas para as famílias, o esquema provavelmente era diferente. Afinal, os bebês não sabem ir buscar alimentos sozinhos. As mães é que procuravam alimentos para eles, assim como vemos outras espécies animais fazendo. Com bebês pequenos, é provável que as mães se movimentassem menos também. Os pais, então, assumiriam a tarefa de trazer comida para aquelas mulheres amamentando.

Além de cuidar dos filhos pequenos e ensinar a eles maneiras de buscar alimentos, as mulheres deviam buscar alimentos elas próprias, é claro. Pode ser bem daí que surgiram papeis diferentes para homens e mulheres. As que não amamentavam ou carregavam bebês tinham maior mobilidade e provavelmente se juntavam aos homens, em pé de igualdade, para caçar. Você precisa de mobilidade, destreza, e também se camuflar para caçar. Imagino o quanto era difícil fazer isso com um bebê atrelado às costas, berrando. Portanto, nada mais justo do que deixar a caça para todos os que podiam correr e se esconder em arbustos em absoluto silêncio, e a coleta de frutos, folhas e raízes para qualquer que não tivesse essa possibilidade.

Com essa pequena história elucidatória em mente, temos que começar a repensar o atual sistema trabalhista. Desde 2014 tramita no Congresso uma emenda para estender a licença maternidade para um ano (em muitos locais, funcionárias públicas já têm esse direito garantido). Com um ano de vida, um bebê ainda precisa de sua mãe para a amamentação. Um ano de licença maternidade garante o mínimo dos mínimos que todos os bebês precisam ter - a própria OMS recomenda amamentação no mínimo até dois anos.

Alguns bebês já começam a balbuciar palavras com 18 meses. Muitos já andam, comem de colher, usam copo sozinhos. Mas ninguém pode dizer que, com um ano de idade, os bebês já estão prontos para seguir o resto da "manada". Ainda falta muito para isso. E nós obrigamos os bebês a ficarem longe de suas mães para que elas possam ir caçar. Pior: a maioria não tem nenhuma pessoa com vínculo familiar para ficar com os bebês. Temos que deixá-los com estranhos que, por mais treino que tenham, nunca vão ser um substituto à altura para a família da criança, que a quis, que a desejou. Por melhor que seja o atendimento, por várias horas por dia nossos filhos viverão sem amor. Funcionários de creches não dão amor. Eles mantêm crianças vivas. Estamos criando sobreviventes.

Antes de exigirmos apenas mais creches para as mulheres trabalhadoras, precisamos também olhar para formas mais flexíveis de trabalho para os pais em geral. Sim, porque criar os filhos não é tarefa apenas da mulher. Se pegarmos o exemplo das comunidades primitivas, homens e mulheres provavelmente dividiam essas tarefas também. Embora o pai não pudesse amamentar, ele provavelmente ensinava com a mãe a caçar, encontrar abrigo, se proteger do frio. Por que os homens ensinam sobre ferramentas e as mulheres sobre costura? Porque provavelmente era mais fácil para o homem andar ao seu redor, recolher e depois lascar pedras e madeira do que para uma mulher que tem um bebê grudado no peito. Essa impossibilidade de andar fez surgir outras ferramentas, inclusive o sling para que a mulher recuperasse mais rapidamente a sua capacidade de rápida locomoção.

É preciso perder o medo de ser um "coletor de fruta", porque essa pode ser uma tarefa temporária para quem está impossibilitado de ir caçar. O ser humano vive aproximadamente 60, 70 anos. Desses, os pais só precisam gastar o que, uns cinco, seis anos para treinar seus filhos para "caçar". Todos sabem que crianças nessa idade já são super independentes em comparação a um bebê. E ser coletor de fruta, costureiro de roupa, fazedor de cestos e potes são tarefas importantes também dentro da sociedade.

Estamos lidando com um sistema que exclui as mães de forma hostil da sociedade, em vez de incluí-la. As mães só podem trabalhar se abrirem mão de estar com seus filhos, só podem ter filhos se não amamentarem, e têm de abrir mão da vida social e de uma série de prazeres. Porque no jogo da especialização do trabalho, só quem está apto a caçar é levado em consideração. Não temos o direito de sermos coletoras de frutas quando nos tornamos mães. Só podemos voltar a caçar com os bebês pendurados, correndo risco de cair, de se machucar, e ainda por cima chorando alto e espantando a caça. Não é o ideal!