OPINIÃO
06/04/2015 19:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O lugar da mulher é onde ela quiser

mariko2/Flickr
ORIGINAL SOLD. Stickers and washi tape on a vintage photo. More at <a href="http://purplewoods.wordpress.com" rel="nofollow">purplewoods.wordpress.com</a>

Assistindo a uma série de documentários na BBC britânica sobre o movimento sufragista, finalmente percebi algo que já me incomodava há muito tempo: em cem anos de luta acirrada, houve poucas mudanças favoráveis à imagem das mulheres.

Os três episódios da série exibida em março de 2015 trazem uma mensagem clara: apesar das mulheres no mundo ocidental já terem obtidos várias e significativas vitórias, muitas dessas foram conseguidas não devido ao seu protesto por igualdade, mas por concessão masculina.

Certa vez, ouvi um amigo dizer que a liberação sexual feminina foi inventada pelos homens para que eles pudessem "pegar" mais sem a obrigação de casar. Vendo os documentários citados, não pude deixar de relacionar. A história é reveladora. Muitos acreditam na lenda de que as mulheres britânicas só começaram a trabalhar nas fábricas a partir da 1ª Guerra Mundial para o esforço de guerra, mas já haviam mulheres trabalhando em fábricas muito antes disso, em condições precárias, e em trabalhos considerados "femininos".

Outra lenda muito divulgada é a de que as mulheres finalmente obtiveram o voto, ou sufrágio - daí o nome de movimento sufragista - após a 1ª Guerra Mundial porque foram recompensadas pelo seu esforço durante o conflito. Mas a verdade não é tão doce assim. Apenas as mulheres acima dos 30 anos cujos maridos possuíam propriedades podiam votar. Quando ao menos estas mulheres conseguiram o voto, a maioria dos homens, independente de idade e condição, conseguiram o seu ao mesmo tempo que elas. As trabalhadoras de fabricas, as solteiras e as jovens continuaram, no entanto, permaneceram sem direito de votar. E pior, com a volta dos homens após a guerra, as mulheres foram proibidas novamente de exercer várias funções consideradas da esfera "masculina".

Apesar de terem conquistado o voto universal mais tarde, tem sido um movimento tipo "cabo de guerra": ganha-se um pouco aqui, perde-se um monte ali. Durante o conflito mundial, as trabalhadoras foram incentivadas a se manter em forma, e nessa época proliferaram as equipes de futebol femininas, que atraíam grande público. Após a guerra, autoridades pediram aos clubes de futebol que não permitissem mais que as mulheres praticassem esse esporte nos seus campos.

Cem anos após os primeiros protestos públicos no Reino Unido por igualdade, o país, que já teve uma primeira-ministra, Margaret Tatcher, possui apenas 20% dos cargos políticos ocupados por mulheres. A situação de degradação da mulher tornou-se bastante clara quando, em 2013, a jornalista Caroline Criado-Perez fez uma campanha vencedora junto ao Banco da Inglaterra para colocar a foto de uma das grandes autoras britâncias, Jane Austen, na parte de trás da nota de dez libras. Após a vitória - a foto da autora de Orgulho e Preconceito será impressa nas notas a partir de 2017 - a ativista recebeu ameaças de estupro e de morte pelo Twitter.

O abuso virtual contra mulheres está em clara ascensão no mundo civilizado, porque é mais fácil escapar à lei na anonimidade da internet. É preciso entender que o machismo é a subjulgação da mullher pelo homem, e ceifa milhares de vidas todos os anos. Milhares de mulheres são submetidas a mutilação genital. Grupos organizam ataques à jovens que estudam - uma delas levou um tiro na cabeça por defender a educação de meninas. Há pais que abortam meninas na China, Índia e outros países onde a mulher não tem importância. Às vezes, essas meninas nascem e são deixadas em casas especializadas, onde elas serão deixadas para morrer. Com sorte, serão jogadas fora e terão a chance de serem adotadas, se sobreviverem.

Machismo mata, restringe e viola direitos das mulheres. Feminismo valoriza as mulheres. Talvez precisemos de um novo termo para a luta pela igualdade entre os sexos, porque muitos ainda pensam que feminisno é o ódio aos homens. O que não precisamos mais é de ser mandadas para o nosso lugar. O lugar das mulheres é onde elas quiserem.