OPINIÃO
14/02/2015 17:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Não se esqueça de quem só tem o SUS

É muito fácil falar que você quer um parto normal no Brasil. Ou uma cesárea, mesmo sem real indicação clínica. As mulheres brasileiras têm essa "escolha". A escolha está entre aspas porque, na maioria dos casos, a cesárea é imposta.

Science Photo Library - IAN HOOTON via Getty Images

É muito fácil falar que você quer um parto normal no Brasil. Ou uma cesárea, mesmo sem real indicação clínica. As mulheres brasileiras têm essa "escolha". A escolha está entre aspas porque, na maioria dos casos, a cesárea é imposta.

Como a cesárea é imposta

Bem, se a mulher escolheu cesárea porque achou mais segura do que um parto normal, ela fez sua escolha baseada numa falsa premissa. Alguém, que faz parte do sistema cesarista e está numa posição de autoridade reconhecida, repassou essa falácia. Pode ter sido um guia de gravidez, artigos jornalísticos, representantes de órgãos de saúde, o próprio médico, os pais da gestante ou o marido, na qualidade de conselheiros.

Se a mulher escolheu a cesárea porque ouviu histórias apavorantes de partos sofridos e sequelas graves, também não foi uma escolha informada. Se ela escolheu a cesárea porque o médico indicou por motivos que agora se discute ser falsos, ou simplesmente disse que tanto faz a via de nascimento, essa escolha também não foi da mulher. Outros fatores determinaram a sua escolha.

Nas últimas décadas, o processo do nascimento dos humanos tornou-se medicalizado. As mulheres foram instruídas a terem seus filhos nos hospitais, atendidas por médicos, usando roupas esterilizadas, cercadas de instrumentos, recebendo o mesmo tratamento padronizado: indução, ficar deitada numa maca sozinha sem poder gritar, sendo forçada a fazer força comprida depois de um determinado tempo, tendo dilatação total ou não, temendo acabar com uma matrona em cima da barriga e um corte no períneo, ou uma cesárea por passar do tempo.

Quando uma mulher decide gerar um filho, é implícito que ela deve levar em conta o que isso significa. Não existe uma "saída fácil", com perdão da figura de linguagem, dessa situação.

Existe alternativa ao parto normal sofrido e à cesárea eletiva

Ao que parece, há luz no fim do túnel - com perdão da expressão. É a volta do parto natural, sem intervenções que não sejam baseadas em evidências. Para incentivar o parto normal, o governo divulgou uma série de medidas para conter o excesso de cesarianas eletivas.

Ainda há um longo caminho a percorrer. Quem pode, contrata equipe de parto, uma alternativa que não está disponível a todas as gestantes. A maioria das mulheres no Brasil só tem acesso ao atendimento nos hospitais do SUS. Há locais no interior que nem isso possuem. Nos rincões do país, a parteira tradicional vem sendo treinada pelo governo para trabalhar pelo sistema público, recebe equipamento e é o melhor atendimento que se possa oferecer nessas circunstâncias.

Muitos hospitais públicos estão realmente começando a se adaptar às recomendações da OMS e oferecer um atendimento mais humanizado, permitindo acompanhante durante toda a internação, oferecendo formas naturais de alívio da dor como bola de pilates e chuveiro, permitindo a livre movimentaçao da gestante durante o trabalho de parto. Quanto mais próximo das capitais, mais humanizado o atendimento fica no SUS.

Resta conscientizar o sistema privado da sua importância como complementador do sistema público e fazer o atendimento respeitoso ao parto e ao protagonismo da mulher finalmente chegar, sem excessões, a todos os hospitais do país. A humanização do parto é um serviço que deve ser estendido a todas as gestantes por uma questão de cidadania. Não nos esqueçamos de quem só tem o SUS.