OPINIÃO
31/03/2015 19:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Hospitais lotam com cesáreas nas vésperas dos grandes feriados

Nas vésperas de feriado, o cenário obstétrico de cinco anos atrás poderia ser descrito como uma produção em série: fileiras de mulheres sentadas em cadeiras de roda, pacientemente à espera da sua vez na mesa de cirurgia - houve caso de médico que realizou 30 cesarianas num mesmo sábado.

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A humanização do parto é um movimento pelo retorno do protagonismo da mulher no nascimento dos filhos, e pelo respeito à fisiologia do processo, baseado em evidências. Houve muitos protestos, de diversos segmentos da sociedade para mudar o sistema obstétrico brasileiro, marcado por partos cheios de intervenções ou cesáreas desnecessárias.

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Os resultados já começam a aparecer. Quando uma mãe foi tirada de casa em pleno trabalho de parto por dez policiais em Torres e forçada a fazer uma cesárea, uma ONG que trabalha pelos direitos das mulheres denunciou o caso. Outra mãe, caluniada pela sua equipe cuidadora de querer "comer a própria placenta", foi defendida por portais especializados em racismo e direitos humanos com artigos desmentindo o absurdo.

Ainda há muito o que fazer. As mulheres que querem parir buscam equipes humanizadas e informação de qualidade. Mas encontram médicos aterrorizando gestantes com falsas indicações de cesárea, um sistema onde não há plantonistas, profissionais que mandam as gestantes se calarem porque "na hora de fazer não gritou", ou que fazem corte perineal de rotina mesmo com a mãe implorando que não façam. Nas vésperas de feriado, o cenário obstétrico de cinco anos atrás poderia ser descrito como uma produção em série: fileiras de mulheres sentadas em cadeiras de roda, pacientemente à espera da sua vez na mesa de cirurgia - houve caso de médico que realizou 30 cesarianas num mesmo sábado.

Para reduzir o número alarmante de cesáreas desnecessárias, a Agência Nacional de Saúde anunciou em janeiro uma série de medidas, como a obrigatoriedade do preenchimento do partograma, ou seja, permitir que a mulher entre em trabalho de parto. As operadoras de plano de saúde terão seis meses para se adequar às novas regras.

Teme-se um aumento dos casos de violência obstétrica por parte de profissionais que afirmam que "perderam a mão" para o parto normal. No carnaval de 2015, mulheres que precisaram de leitos hospitalares por complicações decorridas em partos encontraram as maternidades lotadas por causa das cesarianas eletivas. A cirurgia marcada para antes da DPP pode prolongar a estadia por infecções dos pontos nas mães, ou por desconforto respiratório dos bebês nascidos prematuramente.

O movimento certamente não contava com esse problema. Sente-se que as mães que escolheram ter seus filhos por parto normal estejam sendo penalizadas por isso, já que antes elas não tinham o direito de parir, mas agora não têm direito a atendimento médico se escolhem parto normal. A humanização certamente gostaria de pedir desculpas a todas que buscam um parto respeitoso por mais esse passo atrás na luta.