OPINIÃO
05/03/2015 18:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Excesso de cesarianas no Brasil também é uma causa feminista

Vejo mulheres sonhando com um parto natural, sem intervenções desnecessárias, e maridos impacientes mandando as esposas tirarem logo esses bebês da barriga para elas poderem voltar a ser as esposas deles, e não mães. Não acredita que isso possa acontecer no Brasil? Pois acontece.

Mattman4698/Flickr
This is the point during my wife's C-section where the Anesthesiologist said "Quick! Take a picture!" And bravely I raised the camera over the divider and blindly took a shot. Chicken you say? Hell yeah! They're just about to cut the cord.He was born 7 weeks premature and had to stay in hospital for about a month after he was born. Now he is healthy and happy and the biggest boy in his Kindergarden class!

Surpresos com a colocação do Brasil em segundo lugar no ranking de países mais perigosos do mundo para uma mulher viajar sozinha? Eu fiquei. Nunca imaginei que o machismo no Brasil fosse tão grande. Mas eu não devia estar tão surpresa. Afinal, vejo o sistema patriarcal minar a vontade das mulheres todos os dias. A luta pelo empoderamento feminino nunca foi tão grande.

Vejo mulheres sonhando com um parto natural, sem intervenções desnecessárias, e maridos impacientes mandando as esposas tirarem logo esses bebês da barriga para elas poderem voltar a ser as esposas deles, e não mães. Não acredita que isso possa acontecer no Brasil? Pois acontece. E não estou falando de mulheres humildes, sem instrução e que apanham dos maridos.

Vejo mulheres querendo um parto natural, e médicos fazendo terrorismo, dizendo para a mãe que ela precisa tomar uma injeção para amadurecer os pulmões do bebê com 36 semanas, caso algo aconteça e ela precisa de uma cesariana... com uma bela mesnagem subliminar de "seu corpo é defeituoso e pode entrar em colapso a qualquer momento".

Vejo mulheres sonhando com a amamentação e pediatras mandando as mulheres devolverem os seios aos maridos. Mulheres que queriam descansar mais à noite e fazer cama compartilhada para amamentar mais facilmente, mas serem impedidas porque precisam dar atenção ao marido - o bebê, portanto, vai ter que dormir sozinho.

Mulheres que não podem sair sozinhas à noite, porque os companheiros/maridos/namorados não deixam, ficam zangados e enciumados. Mulheres que saíram à noite sem os companheiros e levaram cantadas, e quando recusaram as cantadas receberam um "se você está sem o seu companheiro na rua, ou está mentindo que tem alguém para se fazer de difícil ou então é promíscua".

Mulheres que reclamam quando não são paqueradas na rua. Mulheres que aceitam todo o tipo de rebaixamento para não apanhar.

Temos aceitado as regras deles por muito tempo.

Exagero? Analisemos o sistema obstétrico brasileiro, por exemplo. A transferência do parto domiciliar para o hospitalar foi um fenômeno mundial, obviamente. Mas foram os homens que tiveram essa ideia - sabemos que foram os homens porque na época, por volta dos anos 50, 60 do século passado, não havia governantes, ministros da saúde do sexo feminino.

E também sabemos que foram os homens porque são eles que têm fascinação pelas máquinas. Eles sempre se maravilharam pela ideia de controle que a tecnologia pode dar. Um dos mais efetivos argumentos para a cesárea eletiva é justamente a ideia de que o nascimento cirúrgico seria mais seguro por ser feito em um ambiente controlado, com data marcada. A suposta "imprevisibilidade" do parto normal assusta os homens porque esse evento não costumava pertencer a eles. Antigamente, as mulheres pariam entre mulheres, e os homens eram proibidos de participar.

As mulheres eram unidas, de certa forma, e conversavam entre si sobre seus ciclos, sobre partos, sobre criação. Como se sabe, uma boa tática para se dominar é dividir. Divididas, as mulheres ficaram enfraquecidas. Quando uma mulher tem o apoio das irmãs, das tias, da mãe, das amigas para o parto natural, quem será contra? O que vemos na atualidade é justamente mulheres brigando ferozmente por um parto normal, indo contra todos os conselhos das amigas e familiares que recomendam a cesárea como uma saída para o sofrimento do parto. Dizem até por aí que há uma guerra entre as mães que querem cesárea e as que querem parto normal. Mentira. O que existe é a desunião, fomentada por setores da sociedade que se beneficiam da discórdia. Somos todas mães do mesmo jeito.

Mas somos natureza. E a natureza revida. Mexer no processo do nascimento, que é um evento fisiológico e não médico, desestrutura. O nascimento por cesariana eletiva pode trazer uma série de complicações bem reais. E do lado emocional, ainda pode quebrar os laços entre mãe e bebê. Certamente quebra a confiança que a mulher algum dia já teve em si própria, em seu corpo e na sua capacidade de passar pelo parto.

Para parir, as mulheres precisam parar de enxergar o parto como sofrimento. Precisam subir as suas expectativas sobre o parto e parar de achar que vão sofrer horrores para ter um filho. Precisam, sobretudo, se unir. Funciona, acredite. No ativismo, descobrimos que juntas somos mais fortes. O apoio de outras mulheres é fundamental para quebrar o sistema cesarista e devolver o parto normal às mulheres.

Não é à toa que, no Reino Unido, cada vez mais proliferam os centros de parto normal totalmente gerenciados por mulheres. Não há parteiros, há parteiras. Porque as mulheres é que passam pelo parto. Os homens precisam apoiá-las, mas são as mulheres que terão o mais profundo entendimento desse processo.